Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Dois homens – e não é pouco

Bernardo de Brito e Cunha

Foi com alguma surpresa que comecei a seguir a nova série “Maigret”, que o canal Fox Crime tem vindo a exibir aos domingos. Julgo que a ideia da ITV britânica foi produzir dois filmes de duas horas e pouco que, por cá, foram divididos ao meio. Duas partes para cada crime, por assim dizer. Mas a minha surpresa não vinha daí: a ideia da ITV era substituir o final da série “Poirot”, interpretada por David Suchet e, para isso, fora buscar a figura do fumador de cachimbo Jules Maigret, do escritor belga Georges Simenon. Só faltava o actor: e, surpresa!, escolheu Rowan Atkinson. Não que ele não tenha criado ao longo do tempo personagens memoráveis na televisão e no cinema, mas num outro registo completamente diferente. E a resposta de Rowan Atkinson foi, surpresa número dois, recusar a proposta porque considerou que o desafio de representar “um homem vulgar” era demais para ele… Percebe-se: estava a pedir-se a Mr. Bean/Johnny English que se esquecesse de que aquele papel já fora de Jean Gabin e de Michael Gambon…

E calculo que tenha explicado porquê: qualquer coisa do género de estar preocupado por aquele ser um estilo completamente diferente, uma vez que o drama moderno na televisão é muito discreto e natural, coisa a que não estava habituado. Ele iria desempenhar um papel com grandes silêncios, quando estava acostumado a apoiar-se na palavra, nas frases. Mas a ITV voltou à carga e ele decidiu pensar seriamente no assunto. E desta vez, o que o levou a aceitar deve ter sido exactamente o desafio que o fizera recusar: o estímulo de fazer uma coisa que achava muito difícil. Compreendo-o perfeitamente: aceitar este repto estava relacionado com o facto de a personagem ser um homem vulgar, discreto, e Rowan, de uma forma geral, não ter nunca estado na pele de um homem vulgar: tudo o que fez, de “Blackadder” a “Johnny English” eram personagens com muitas características, pessoas que eram ligeiramente estranhas ou excêntricas. Mas aí deve ter pesado o facto de Maigret não falar com ceceio nem ter pronúncia francesa, ou um gosto muito particular pela ópera ou ainda todas aquelas pequenas coisas que as pessoas ligam a muitos detectives policiais: Jules Maigret é apenas um homem extraordinário a fazer um trabalho incrível.

Mas confesso-vos: no meio de todo aquele sangue e crimes e violência na Paris dos anos de 1950 (e lamento desiludi-los, mas não é Paris… as filmagens foram feitas por razões económicas em Budapeste, com os monumentos fundamentais da capital francesa a serem acrescentados depois, digitalmente) confesso que estou sempre à espera que Rowan Atkinson pisque o olho ou deite a língua de fora. Embora saiba que não vai acontecer.

Já por duas vezes apanhei na TVI24 um programinha com aquele que é bispo emérito das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, um dos poucos príncipes da igreja que tenta pôr em prática os ensinamentos dos Evangelhos. E não me esqueço quando criticou as declarações de Passos Coelho – que, no balanço de um ano de governo, agradeceu a paciência dos portugueses em tempos de austeridade. Ao que D. Januário respondeu: “E no fim ainda aparece um senhor, que pelos vistos ocupa as funções de primeiro-ministro, dizendo um obrigado à profunda resignação de um povo dócil e tão bem amestrado que até merecia estar no Jardim Zoológico. Apetecia-me dizer: vamos todos para a rua. Não vamos fazer tumultos, vamos fazer democracia.”

Este bispo, que alguns chamam de “vermelho”, ao contrário dos do xadrez, não anda na diagonal, vai direitinho ao assunto. E lá foi dizendo que o património do Vaticano devia ter outro fim, para além das ajudas que já presta. E, sobretudo, que o Papa Francisco tem dado passos de gigante e que a Igreja tem um problema com o sexo que é urgente resolver. É um gosto ouvir este homem e até os descrentes, como eu, se agarram com alguma força aos princípios cristãos que este bispo põe em prática – que aquilo não é só conversa.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Termina esta sexta-feira o programa dos Gato Fedorento que, durante um pouco mais de um mês, esmiuçou sufrágios e outras minudências. Para além de ter revelado de forma claríssima e inegável o papel preponderante que Ricardo Araújo Pereira tem naquele quarteto, o programa veio demonstrar o impacto e importância que o grupo tem a diversos níveis. Quer dizer: não é um qualquer que consegue trazer até à televisão (e, eventualmente, sujeitá-las a alguns dissabores e perguntas embaraçosas, para não dizer mesmo vexames) trinta personalidades do mundo da política, mais ou menos activas. Acho que isto diz muito acerca do grupo: possivelmente, quem não aceitasse, seria ainda mais arrasado…»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4278 de 25 de Outubro de 2019

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