Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Outubro 22nd 2019

O “BBC – As Crónicas de TV”

O preço certo em votos

Bernardo de Brito e Cunha

Como diria o meu amigo Manel, há coisas que me deixam abazurdido – uma palavra cujo significado não se encontra em dicionário algum e que ele nunca explicou devida e etimologicamente, mas que toda a gente entendia como estupefacto, atónito ou assarapantado, pasmado ou boquiaberto. E uma dessas coisas é o espectáculo americanizado que com o tempo viemos a dar das noites eleitorais, só faltam mesmo os foguetes e os papelinhos. Sem querer ofender Fernando Mendes, que faz um excelente trabalho há anos a fio, as televisões tratam as eleições como se aquilo fosse “O Preço Certo” – só que em votos – e o intuito é ver quem ganha a montra final e leva o carro: só falta mesmo aparecer a Lenka. E é tanto assim que cada televisão até tem a sua própria margem de erro, coisa de que no dia seguinte se vão gabar… Mas, sinceramente, não precisamos de tanto gráfico, tanto modelo 3D virtual, tantos hemiciclos com cores, “tanta loja de perfumes, tanta pomba assassinada”: desculpa a divagação, Eugénio… Eu, pelo menos, não preciso: sendo possuidor de uma característica que faz com que a minha faculdade de discriminação de cores seja bastante reduzida, em comparação com o número total de cores que um observador “normal” pode distinguir (uma data de linhas para dizer que sou daltónico…), por mim não se dêem ao trabalho. É verdade que a extrema-direita entrou no Parlamento, ao fim de 45 anos de Democracia: mas isso, a ter pigmentação, só pode ser o negro, cor com que não tenho problemas. Ou tenho, mas de outra ordem: e quanto a esta o que é preciso é estar atento, porque agora é que se aplica a frase que se tornou cliché – “Não foi para isto que se fez o 25 de Abril”…

As televisões, na altura em que morre alguém que deixou obra, que marcou a vida do país seja em que campo for, têm velocidades de reacção muito diferentes, que vai do simples rodapé a uma homenagem mais sentida. Foi o que aconteceu com a RTP no dia da morte de Freitas do Amaral: à noite, lá estava no ar uma peça de teatro televisionado cujo texto era assinado por ele, “O Magnífico Reitor”. A acção da peça situa-se no contexto histórico real, o da crise académica de 62, mas conta uma história ficcionada. Partindo desse contexto e com personagens que simbolizam os vários grupos que intervieram nesse processo – estudantes, Pides, professores, reitor, Pides (já tinha dito?), ministros e respectivos assessores, a peça pretende mostrar, através de um caso concreto, um fenómeno muito generalizado: a mudança de comportamento dos homens públicos, antes de estarem no governo e depois de chegarem ao poder – isto é, aquela coisa comezinha a que assistimos a cada passo… A peça, que foi gravada no Teatro da Trindade, contava com os actores Rui Mendes, Ana Bustorff, Raul Solnado (que deu, naturalmente, um Pide muito divertido), Augusto Portela, Vera Paz, Mário Jacques, José Mora Ramos, Rui Lacerda e Catarina Fraga, entre outros.

O mesmo acontecera com a SIC, aquando da morte de Roberto Leal – embora não com a mesma velocidade de reacção… Mas dois dias depois estava no ar o programa de Bruno Nogueira fizera na SIC, “Som de Cristal”. E se Bruno foi, tantas vezes!, irreverente também desta deixou nos nove episódios, aqui e ali, um toquezinho dessa irreverência. Fez bem: fez com que os convidados se sentissem mais à vontade. E Bruno Nogueira fez ainda outra coisa que me deixou satisfeito: fez uma separação das águas entre aquilo que se pode considerar a música popular e a música pimba. Deixou de fora os Emanuel e Carreiras desta vida mas, em contrapartida, foi buscar Roberto Leal, programa esse que agora revimos. E foi exactamente nesse programa que ouvi uma grande resposta de Roberto Leal: quando, à mesa de um restaurante, Bruno lhe fala de ser mais português ou mais brasileiro, acaba por lhe perguntar: “Quando chegar a hora onde gostavas de morrer, em Portugal ou no Brasil?” Ao que Roberto Leal respondeu simplesmente, “Em paz”.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Nos dez anos da morte de Amália, até o próprio Telejornal da RTP fez o malabarismo (ou mabalarismo, já nem sei, depois de ouvir falar a Dra. Ferreira Leite) de ter uma fadista, Ana Moura, em directo a fechar o serviço noticioso. E tudo isto para se comprovar, mais uma vez – e como se esta vez fosse necessária para isso – que neste país só tem homenagens quem já morreu. E mesmo assim, nem todos: veja-se a modéstia das notícias da morte de Jorge de Sena e a penúria de informações quando os seus restos mortais regressaram a Portugal…»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4276 de 11 de outubro de 2019

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