Semanário Regionalista Independente
Domingo Novembro 17th 2019

“BBC – As Crónicas de TV”

A pitonisa de Paço de Arcos

Bernardo de Brito e Cunha

Com o fim de “Gente Que Não Sabe Estar”, na TVI, a SIC não esteve com meias medidas e vai em breve, certamente, dar um nome condigno à rubrica de Luís Marques Mendes aos domingos. Concordemos: “o comentário de Luís Marques Mendes” não fica no ouvido, é precisa qualquer coisa mais orelhuda. Eu voto em “Gente Que Sabe Adivinhar – Mas Com Dificuldade”, uma vez que no fundo, Marques Mendes, também conhecido por “Pitonisa de Paço de Arcos”, é isso que anda a fazer há uma série de tempo. Foi pena a SIC ter mudado de instalações, porque “Pitonisa de Carnaxide” soava muito melhor. É pena, mas não se pode ter tudo.

Pois segundo a Pitonisa – que, como já sabemos, jura uma coisa a pés juntos e 15 dias depois vem desmenti-la com o mesmo à vontade – o futuro de Mário Centeno está traçado. Eu disse futuro de Centeno? É que isto pega-se!, caramba! Queria dizer o substituto de Centeno: pois para a Pitonisa a coisa está resolvida e, dada a categoria de MM, o substituto de Centeno podem ser dois. Não ao mesmo tempo, mas um ou o outro. O primeiro é o braço direito (e talvez o esquerdo também, ninguém sabe ao certo) de Centeno, Ricardo Mourinho Félix, (Adjunto do Tesouro e das Finanças). “Mas há uma outra possibilidade” e quando diz isto os olhos da Pitonisa brilham, as lentes dos óculos embaciam-se e as perninhas balançam debaixo da cadeira. “Também pode ser Fernando Medina.”

Clara de Sousa, que já cabeceava, levantou subitamente a cabeça e perguntou: “Mas Fernando Medina não é presidente da Câmara…?”, ao que MM retorquiu “É, é presidente da Câmara de Lisboa, mas no tempo de António Costa na Câmara era ele quem tratava das contas, portanto…” E a Pitonisa deixa isto no ar como se tivesse inventado a pólvora ou feito a descoberta de que para se ser Ministro das Finanças basta ter tratado das contas de uma câmara municipal. Mesmo que grande. Se soubessem como me rio aqui, sozinho, aos domingos à noite, tenho a certeza que gostariam de ser eu.

Na madrugada em que chega a equipa da troika a Portugal, uma rapariga é encontrada morta no Tejo. “Mais uma que não sobreviveu à crise”, atira um polícia no Cais do Sodré. A austeridade do desemprego, dos despejos e das greves é o pano de fundo para uma série policial, “Sul”, sobre mulheres mortas, uma Polícia Judiciária gasta e banqueiros sempre escorregadios. A nova série da RTP1 vai a meio mas parece que já tem segunda temporada e spin off à vista – o ladrão parkour Matilha, interpretado pelo cada vez mais intenso Afonso Pimentel, vai roubar-nos outra vez.

Em 2017, Edgar Medina começava a escrever “Sul”, que criou com Guilherme Mendonça e para cujos guiões chamou o escritor e cronista Rui Cardoso Martins, e Ivo M. Ferreira era convidado para ser o autor visual desta espécie de carta de amor a Lisboa num tempo muito particular: a troika, um período muito intenso da nossa vida, que valia a pena registar. Em 2018, “Sul” apresentava-se ao Festival de Berlim, ainda embrionária, como um policial noir sobre Portugal em 2013 – o país em plena crise, reapresentado à troika e ao FMI.

A Lisboa entretanto extinta sobrevive em “Sul”, e logo no primeiro de nove viciantes episódios, como uma memória histórica, registando também como com a troika chegaram novas personagens, uma certa hipocrisia, o discurso do empreendedorismo, dos fortes e fracos. Depois de Lisboa ter estado estagnada, começaram outros processos de transformação muito acelerada da cidade, com os Airbnb, o turismo, o fecho de sítios importantes, zonas mais abandonadas que foram alvo de gentrificação. E no meio disto tudo o tema obsidiante dos Dead Combo, que não me larga, e que tem ali uma qualquer coisa que me faz pensar em Carlos Paredes.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«A TVI arrancou em horário nobre com uma ficção portuguesa que não é uma novela nem seu parente, como foi o caso de “Equador”, nem concurso nem reality show. Chama-se “Ele é Ela”, uma série de comédia sobre um mulherengo (Marco d’Almeida) que dá por si transformado em mulher (Benedita Pereira) como vingança de uma conquista casual que desenvolveu uma fórmula científica que permite a mudança de sexo. O mais curioso neste pseudo-nacionalismo de que a TVI parecia acometida, esta “ficção nacional”, por assim dizer, é na verdade, e à imagem de “Anjo Selvagem” ou de “Floribella”, uma adaptação de um formato latino, no caso a comédia argentina “Lalola”. Quererá isto significar, por parte da TVI, que não há argumentistas portugueses capazes de terem boas ideias para ficção portuguesa que não sejam novelas?»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4280 de 8 de novembro de 2018

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