Semanário Regionalista Independente
Domingo Dezembro 15th 2019

“BBC – As Crónicas de TV”

“Eu vou para longe, para muito longe…”

Bernardo de Brito e Cunha

Permitam-me que me afaste do âmbito (habitual) desta crónica para vos falar de uma pessoa que nem sequer era muito requisitada pelas televisões e, quando o era, as mais das vezes recusava. José Mário Branco levou a vida assim: a ser discreto, reservado, a fugir dos holofotes, condecorações e honrarias, e a ter uma enormíssima paixão, a Música. Como ele dizia, a Música era uma amante que tinha, mas que nunca levara a uma Conservatória do Registo Civil… Muitas vezes me apanhou desprevenido com as coisas que fazia, com as músicas que compunha, com os arranjos (geniais) que lhe apareciam aparentemente sem esforço. Hoje, terça-feira, dia em que escrevo, voltou a apanhar-me novamente de surpresa, através de terceiras pessoas. Acordo, levanto-me, pego no telefone e volto a cair sentado na cama. No ecrã do telemóvel uma mensagem do jornal Público: “Morreu José Mário Branco”.

Depois de José Afonso, e fora do campo do fado (que tem as suas regras muito próprias e com que ele só iniciou uma relação mais tardia, começando por um género-parente, a marcha popular), José Mário Branco foi a figura maior da música portuguesa da segunda metade do século XX, deixando uma marca inultrapassável como cantor, como compositor e também como arranjador e produtor, que é uma arte de ser generoso para com os outros. Há quem cante melhor do que ele? Há. Mas não há (havia, caramba!) quem cante tanto, quem tenha aglomerado mais gente à sua volta – e recordo os tempos do GAC (Grupo de Acção Cultural). Os discos mais emblemáticos de José Afonso (incluindo o icónico “Cantigas do Maio” e o último, “Galinhas do Mato”, gravado numa altura em que mal podia cantar…) têm o engenho, a habilidade e o(s) talento(s) de José Mário Branco, e os discos que são uma mudança de rumo, uma reviravolta, na carreira de Camané – sem dúvida o maior fadista masculino depois de Alfredo Marceneiro – também. O país, como um todo, deve-lhe uma catadupa de canções que marcaram, que nos marcaram, anos a fio. E este país, Portugal, sempre tardio a reconhecer talentos (honrarias que ele recusou, é certo) talvez não se aperceba de que se hoje pode dizer que é livre e exercer os direitos que daí advêm, a José Mário Branco (e outros, naturalmente: Sérgio Godinho, Fausto, Luís Cília, Francisco Fanhais e tantos, tantos outros!) também o deve. Diz ele numa canção que “eu vim de longe” para logo a seguir dizer que “eu vou para longe, para muito longe, que é onde nos vamos encontrar”. Pensamos sempre que aqueles que amamos, os que admiramos por um talento qualquer ou uma qualidade, são eternos. Mas sabemos que não é assim: e eu já tive experiências bastantes para o ter bem presente. Mas não me conformo…

Para ser sincero, não percebo por que razão o programa “A Tarde É Sua”, de Fátima Lopes, não tem um êxito comparável a qualquer programa da CMTV. Os temas são iguais (isto é, do mesmo género. Leia-se sangue, abandono, roubo, crimes, violência doméstica… Como diria Alexis Zorba, “a catástrofe completa”), a apresentadora Fátima ganha aos pontos às apresentadoras da CMTV (classe B-C contra classe D baixa) e fico a pensar que se calhar é por isso mesmo: Fátima veste melhor mas talvez isso não combine com a dureza dos temas, se calhar é preciso aparecer com menos categoria para ser credível. Assim como exemplo: “esta miúda da CMTV tem ar de quem conhece este problema na pele”, coisa que nunca se poderá dizer de Fátima Lopes, sempre impecável, com a maquilhagem toda no sítio. Mas não deixa de me surpreender esta diferença de audiências: se calhar é como alguns supermercados que se dizem para classes altas e depois os produtos são um bocadito mais fracos…

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Deparo-me, desde há uma semana, com um pequeno programa na RTP 1. Tão pequeno que tem apenas um minuto e que, exactamente por isso, se chama “1 Minuto de Astronomia”. A primeira coisa que me surpreendeu foi ter visto, durante um desses minutos, Nuno Markl a falar de Buracos Negros, Sérgio Godinho de Cometas, ou Francisco Mendes da Via Láctea. E hei-de ver, porque ainda não vi, Carla Chambel a falar de Telescópios e Luís Represas a “dissertar” (como se isso fosse possível num minuto) sobre “O Legado de Galileu”. E isto porquê? Porque estamos em 2009 e se celebra o Ano Internacional da Astronomia, exactamente porque em 1609, há 400 anos, Galileu teve conhecimento de um telescópio que foi oferecido por alto preço ao doge de Veneza.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4282 de 22 de novembro de 2019

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