Semanário Regionalista Independente
Sábado Janeiro 25th 2020

“BBC – As Crónicas de TV”


Paula, as coisas grandes e Ljubomir


Bernardo de Brito e Cunha

Há pessoas que, em matéria de televisão, nunca encontram o seu “tom” certo e, por tom, quero dizer o registo, a espécie de programas certa, o género e por aí fora. Fazem o que lhes dão para fazer e pronto, vamos ver se resulta. A Paula Moura Pinheiro o que aconteceu foi que a puseram onde acharam que podia ser mais realçada – ou melhor, onde o seu cabelo muito negro (não basta negro?) e os seus olhos muito claros, quase transparentes, pudessem resultar melhor… E isso aconteceu onde uma câmara pudesse dar grandes planos da sua cara: errado! Eu já a conhecia, das coisas que escrevia nos jornais, mas não fazia ideia de qual era o seu ar, a sua cara. Mas sabia que ela era capaz de mais do que exibir a cara e o cabelo…

Verdadeiramente, comecei a segui-la (e vê-la) na SIC, a fazer exactamente mais esse papel de mostrar a cara do que outra coisa, com um casamento um pouco mais tarde com um jornalista da estação (é o que dá ter trabalhado em revistas de televisão) que deu para o torto – e fiquemos pelo torto… Mas isso, se bem que mau a princípio, naturalmente, é capaz de ter mostrado um outro rumo a Paula Moura Pinheiro. Mas, caramba!, só há cinco anos e tal, quase seis, é que me parece que encontrou o papel, como se se tratasse de um actriz que, a certo ponto da carreira, encontra o papel que lhe assenta como uma luva – sem se perceber que está de luvas…

Esse papel, esse programa, chama-se “Visita Guiada”. Leva-a (leva-nos) a lugares tão diferentes como o Palácio Palmela, o Aqueduto das Águas Livres, o Castelo de Lanhoso, uma viagem incrível por todo o Portugal (Continental e Ilhas, naturalmente) e com um pormenor que não é de somenos: em cada “Visita”, em cada viagem ao nosso passado vai acompanhada por quem sabe, por quem pode explicar – e explica… o que há a saber. A primeira visita que fiz ao Palácio de Queluz, onde fui com a minha (futura, que o Futuro a Deus pertence, segundo dizem) nora, finlandesa, foi pouco antes de Paula Moura Pinheiro ter feito o seu programa lá… Pena: ela teria explicado melhor à Maarit (é o nome da nórdica que não é escandinava…) o que eu não soube explicar. Vale sempre a pena ir com quem sabe… E Paula Moura Pinheiro escolhe a dedo quem sabe e com quem vai. E é assim que aos poucos vamos aprendendo Portugal, Bem hajas, Paula.

Aquilo que Ljubomir Stanisic (devem faltar aqui uns caracteres estranhos, mas adiante) faz nos restaurantes que visita e que, tanto quanto julgo saber, lhe pediram ajuda, é perceber de cozinha e de simplificar processos, mas contém também uma parcela bem forte de violência doméstica. Os resultados que consegue são todos alcançados à bruta – só lhe falta mesmo bater… Sabe-se lá se na montagem não foram fora uns bofetões? Os palavrões da fúria estão lá, não é difícil imaginar um “pequeno” excesso vindo de uma pessoa que sabemos violenta, que viu gente morrer, parentes próximos, que não confessa ter matado, mas que se imagina…
Foi o programa mais visto no último domingo: isso fica a dever-se à entrevista que deu ao “Jornal das 8”, uns instantinhos antes, onde as frases mais polémicas das entrevistas ao “Expresso” e à “Sábado” foram postas em grande destaque. O que Ljubomir diz nas entrevistas e no programa, garantindo que está a ser honesto nas respostas, parece quase tão sujo como as cozinhas dos restaurantes que visita. Não é à toa que se diz “O que gosto de comer de manhã é a minha mulher e pão com manteiga”. Não se pode ser tão cru, Ljubomir – a não ser que se tenha um restaurante de sashimi.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Esta é, infelizmente, aquela época do ano em que a televisão (todas as televisões) gostam de brincar ao Natal e, consequentemente, à caridadezinha. E ele são programas uns atrás dos outros que apoiam esta instituição, aquela iniciativa, ou um qualquer outro projecto, eu sei lá! É pena que a televisão (todas as televisões) só se lembre disso nesta altura. Porque se torna terrivelmente maçador e porque se vê que os programas dessa natureza que passam na televisão (todas as televisões), só vêem a luz do ecrã porque são patrocinados por grandes grupos económicos que, ainda o ano passado, tinham como mascote uma avestruz com asas, naturalmente, e que este ano tem seios e braços, numa estranha simbiose de ave e Lara Croft.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4284 de 6 de Dezembro de 2019

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