Semanário Regionalista Independente
Sábado Janeiro 25th 2020

“BBC – As Crónicas de TV”

Fernando Tordo no São Carlos: upa upa!!

Bernardo de Brito e Cunha

Estava aqui especado a olhar a minha bateria do cigarro e a constatar como atingira o seu fim aparente, quando do ecrã do televisor uma voz feminina, em português, a contar uma história que me soou familiar. Uma coisa do género: “Tenho de conquistar a confiança daquela família, imiscuir-me no meio dela, etc, etc, pois só assim me vou conseguir vingar do mal que os seus elementos me fizeram a mim e ao meu pai.” Foi aí que levantei os olhos e vi, no ecrã da TVI, aquilo que tudo indicava ser o título da próxima novela do canal – “Quer o Destino”. Até aqui tudo bem, até porque já dei há muito para as novelas em geral e para as da TVI em particular. O pior é que aquele pequeno resumo verbal, aquela intenção de vingança se aplica, palavra por palavra, àquela que foi, para mim, a melhor e mais bem construída novela brasileira, “Avenida Brasil”, de João Emanuel Carneiro. Quando ele fizer outra, avisem-me. Agora se é cópia ou coincidência, mais adiante se verá.

Fernando Tordo começou a ouvir música em pequeno, viveu a descoberta de novos sons nos anos 60, dos cantores italianos aos Shadows e Beatles… Também passou por grupos. Mas foi numa sucessão de participações no Festival da Canção, entre 1969 e 1973, que inscreveu definitivamente o seu nome no mapa de referência da canção portuguesa. Primeiro numa parceria com a genialidade de José Carlos Ary dos Santos, depois assinando a solo as suas canções, Fernando Tordo assinala em 2019 os 50 anos de discos editados em nome próprio. Foi isto que ficámos a saber num programa sobre o cantor que a RTP emitiu há uns três meses – e sobre o qual pensava ter escrito alguma coisa neste espaço… Deve ter calhado numa semana de não-jornal. Mas nessa conversa em que contou histórias divertidas, anunciou também o espectáculo que ontem a RTP1 transmitiu, felizmente não muito distante da data do evento, 16 de Novembro.

Este encontro surgiu na sequência de um desafio lançado pelo Maestro Jorge Costa Pinto (que também ficou encarregado da Direcção Musical) e possibilitou uma nova abordagem à obra de Fernando Tordo, que ganha agora uma nova vida com os novos arranjos e o acompanhamento da Orquestra Sinfónica Portuguesa e o fundo cénico do Teatro Nacional de São Carlos. Esta foi uma oportunidade irrepetível para recordar temas intemporais como “Estrela da Tarde”, “Tourada”, “Adeus Tristeza” ou “Cavalo à Solta”, e ainda para conhecer em estreia absoluta novas composições de Fernando Tordo. E, principalmente, para que esta gravação pudesse chegar a todo o país – pois que é essa a função da Televisão Pública.

Suzana Garcia, como é conhecida profissionalmente, é advogada e comentadora da TVI. Participa em programas como “Você na TV!”, na rubrica Consultório Jurídico, ao lado de Manuel Luís Goucha, mas foi no programa “SOS24” que deu os primeiros passos da sua carreira televisiva. É conhecida por não ter papas na língua e dizer o que pensa, mas, nessa altura, era bastante mais discreta. O horário da manhã trouxe-lhe outro protagonismo, um aumento de um quarto de tom na voz e um outro vocabulário – não é invulgar ouvi-la qualificar alegados criminosos, ou assaltantes, ou ainda agentes de violência doméstica, mesmo sem sentença com trânsito em julgado, como “gentalha” e “parasitas da sociedade”. Julgo que comentários inseridos num programa, chamemos-lhe assim, de entretenimento, implicam obviamente a própria, neste caso: mas creio que a imagem do Director de Informação Sérgio Figueiredo não deixa de sair beliscada.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«A série “Liberdade 21” esteve, em finais de 2009, nomeada para um prémio num festival de rádio e televisão alemão, e a RTP não tinha outra saída que não fosse transmitir mais episódios. Retomou-os esta última semana, com o mesmo interesse de sempre no que respeita a desempenhos e historietas que ocorrem, e são da mais variada natureza, naquele escritório de advogados. No entanto, não foi à toa que, mais acima, falei de Perry Mason. É que, embora saiba que as cenas de tribunal são, em “Liberdade 21”, completamente acessórias (coisa que não acontecia em Perry Mason), parece-me escusado tornar essas mesmas cenas ridículas.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4288 de 10 de Janeiro de 2020

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