Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Fevereiro 25th 2020

“BBC – As Crónicas de TV”

A RTP2. E a Lina, naturalmente

Bernardo de Brito e Cunha

É muito vulgar ouvir o cidadão comum a bramar impropérios contra o serviço público de televisão. As mais das vezes insurge-se contra o preço que a ele, muito pessoalmente, aquilo lhe custa (e eu quase apostaria que a maioria deles não faz ideia de qual é esse preço, já que poucos se darão ao trabalho de esmiuçar a conta da electricidade em que essa contribuição vem incluída) e, só depois do rasgar das vestes, contra a qualidade. E aí, o problema… são dois – um por canal. Expliquemos. O canal 1 faz pela vida: e, confessemo-lo sem vergonha, é uma Maria que vai atrás das outras, que tem um programa da manhã porque sempre (ou quase…) teve mas, principalmente, porque a SIC e a TVI também o têm. E quer, com os meios mais pobrezinhos de que dispõe, fazer frente a Cristina Ferreira e a Manuel Luís Goucha. Às vezes consegue ter pequenas vitórias contra a TVI, mas é mais devido às fraquezas e debilidades desta do que a qualidade sua… Da parte da tarde a cena repete-se e assim sucessivamente. Aos fins de semana também, mas digam-me quem quer candidatar-se a ganhar 25 mil euros se os outros canais concorrentes oferecem bastante mais?

Já a RTP2 é outra coisa, é um desvio, é um outro caminho diametralmente oposto. O que apresenta é feito, a grande maioria das vezes, com cabeça. Tem um intuito, um propósito, e nunca é, como se costuma dizer, “para encher chouriços”. Não oferece automóveis nem dinheiro como os outros, mas aquilo com que nos brinda tem um valor intrínseco bem superior. Ligar para a RTP2 nunca é um tiro no escuro e o par de euros que sustenta a RTP (a 1, a 2, a 3, a Memória e o arquivo online que está acessível a todos), se fizermos as contas, é um valor que deve dar vontade de rir. Eu não me lembro de ligar para a RTP2 e de pensar “outra vez isto…” Não, nunca é outra vez, é sempre uma coisa diferente. E é aí que encontro séries nórdicas (de que gosto porque são culturas e modos de vida diferentes) mas também encontro ali as grandes séries da BBC, aquelas que não têm comparação em todo o mundo…

E foi talvez por isso que, quando liguei para a RTP2 no último domingo, aí pelas 11h da noite, a voz que ouvi a cantar e que me deixou pregado ao sofá, me fez pensar “isto só pode ser na 2”. A voz era a de uma mulher, Lina, tanto quanto descobri nascida na Alemanha mas trazida muito nova para Trás-os-Montes, mas as informações no ecrã apresentavam-na, e ao músico que a acompanhava, como “Lina_Raül Refree”. Coisa estranha, pensei, mas o nome dele não me era estranho: e busca aqui, busca ali, lá estava – este catalão foi o homem que assinou a produção de “Los Angeles”, o álbum que colocou o fenómeno internacional Rosalía no mapa. Por isso mesmo, o músico e produtor não teve dúvidas quando ouviu Lina cantar no Clube de Fado. E foi aí, com algumas versões de fados de Amália à meia luz, num momento solene e autêntico, que Raül Refree se apaixonou pela voz de Lina. Isto sou eu a fazer romance, claro está.

O espectáculo que vi na RTP2 foi gravado ao vivo em Braga. E aí, rodeado de sintetizadores vintage, de Moogs e Arps, de Oberheims e Rolands, mas também com o piano muito perto, Raul emoldurou a voz de Lina numa névoa analógica (mas também real, que todo o espectáculo foi bastante escuro), deixando as guitarras do fado na nossa imaginação, mas retendo toda a força de uma garganta carregada de verdade. E permitindo que a voz de Lina pairasse, puríssima, acima de toda a tecnologia. Há muito tempo que uma voz não me impressionava tanto, pela clareza da dicção, pela extensão que consegue atingir, pela recriação fidelíssima que faz dos fados de Amália. Há ali, para além da forma como interpreta, uma estudante extremamente atenta da obra de Amália, em todas as suas fases. E isto, que me comoveu tanto, quem foi que me trouxe? A RTP2, claro.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«No “Jornal 2” da RTP que tem o mesmo número, dou de repente com Júlio Isidro. Não a apresentar qualquer programa, mas à conversa com a apresentadora daquele jornal. Falavam os dois, naturalmente, dos 50 anos de televisão de Júlio Isidro. Há três anos, em conversa com ele, Isidro confidenciara-me que achava que “globalmente, sim, acho que fui mal-amado na televisão. Houve as tais coisas que nunca fiz, mas também nunca me fiz valer quando tinha muito capital na mão. Houve alturas em que tive condições para ser “vedeta” e nunca o fui. Devia ter-me imposto um pouco mais e não: fiquei sempre a agradecer a sorte que tinha, por ser o filho da D. Brígida que trabalhava na televisão…”»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4290 de 24 de Janeiro de 2020

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