Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Fevereiro 25th 2020

“BBC – As Crónicas de TV”

Os milagres da televisão

Bernardo de Brito e Cunha

Quando nos nossos ecrãs surge Camané, aquilo que temos a fazer é pôr de lado aquilo que estamos a fazer – por mais importante que seja – e darmos-lhe atenção. E quando Camané surge acompanhado por Mário Laginha, então aí a atenção tem, natural e aritmeticamente, de duplicar. O mini-espectáculo, que foi transmitido pela RTP, também foi gravado pela mesma estação, num dos últimos andares da sua sede, com uma varanda que tem uma vista deslumbrante sobre uma grande extensão do Tejo. O apresentador decidiu classificá-la (menorizá-la?) como “uma vista sobre o Mar da Palha”: são gostos.

Os dois músicos (interrompidos entre cada duas canções pelo dito apresentador, as mais das vezes para não adiantar coisa nenhuma) percorreram a quase totalidade do último disco comum, “Aqui Está-se Sossegado”, e foi o que seria de esperar, tanto pela voz de Camané como pelo piano de Mário Laginha, incluindo uma pequena “lição” de Laginha sobre o seu “Fado Barroco” e a historinha que, através dele, viria a descobrir sobre Pedro Burmester. Só visto: o que acredito ser possível fazer a qualquer momento na RTP Play.

 

Houve uma altura em que tinha alguma renitência em falar de canais que passavam no Cabo. No entanto, reconheço que esse meio está cada vez mais difundido, com mais ou menos canais no pacote subscrito e, portanto, esse meu prurido não se justifica. Ou não se justifica tanto. É que às vezes, para fugir às horrendas telenovelas que agora criaram a nova moda de terem segunda ou terceira temporada, como se de séries se tratassem, não há outro meio de fuga. Que as novelas não o são e que, infelizmente para aqueles que gostam do género, cada vez têm pior qualidade. Nem a mais recente escapa (e que está para acabar, julgo) e quem tem autoria de Rui Vilhena que goza de reputação entre nós: tanto, que em função desse trabalho acabou por ser convidado para ir trabalhar para o Brasil – o que não se pode considerar coisa pouca.

 

Nunca escondi que gosto de séries de tribunal, que hoje são mais raras e muito misturadas com as actividades policiais que aí conduzem. As que nos chegam têm um par de anos e são geralmente britânicas – ou isso, ou “aparentadas”… Foi o caso da mais recente que vi, de seu nome “Janet King”, e que se passava na Austrália. Mas para além de outros aspectos de que já falarei, Janet King é Promotora do Ministério Público (ou da Coroa, como eles lhe chamam) e, como tal, apresenta-se em tribunal com a tradicional judicial wig ou peruke. Janet tem, na série, um papel mais importante do que usar uma peruca quase quase branca: Miss King é homossexual, tem uma companheira e dois filhos e sofre na pele e no emprego as consequências de tudo isto – incluindo assédio das colegas… Mas a série herdou a grande tradição da BBC e é feita com grande cuidado. E apesar dos anos que tem em cima, meia dúzia deles, continua a ser um paradigma do género.

 

Mas aquilo que se pode ver no canal Fox Crime não se fica por aqui. É certo que os canais de cabo têm uma pecha: a de repetirem a diversas horas da manhã, tarde ou noite, os mesmos programas. O que, limitando aquilo que há para ver, nos permite recuperar um episódio qualquer que perdemos por uma qualquer razão. Recentemente, o canal começou a repetir, desde o início, uma série que já vai longa (20 temporadas, creio) e que marcou um estilo: “Midsomer Murders”, passado (sempre) numa mesma pequena vila, com o mesmo detective. E é com agrado, confesso, que voltei a ver o inspector Barnaby, súbita e milagrosamente rejuvenescido, graças a estes truques da televisão.

 

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

 

«Não é costume ver nomes como José Mário Branco, Sérgio Godinho ou Fausto Bordalo Dias na televisão, seja ela qual for. A bem dizer, a última vez que vi os dois primeiros na televisão, se não estou em erro, foi num famoso festival da canção, em 1975 ou 1976, em que eram ao mesmo tempo compositores concorrentes e júri. Fizeram um espectáculo comum, em finais de Outubro e a televisão pública foi lá registar o evento, que transmitiu no último sábado, seguida de making of e tudo. Já não estão na forma ideal e, talvez por isso mesmo, a RTP deve ter feito as suas contas e chegado à conclusão de que só terá imagens deles a preto e branco e, mais tarde ou mais cedo, terá de fazer o elogio fúnebre daqueles a que nunca ligou e foi até lá.»

 (Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4292 de 7 de Fevereiro de 2020

 

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