Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Abril 7th 2020

“BBC – As Crónicas de TV”

Tozé, Boris, Montalbano e Marega

Bernardo de Brito e Cunha

Se fôssemos a ver bem estes 22 anos de crónicas, o mais natural era chegar à conclusão de que nunca escrevera uma linha a dizer bem de Tozé Martinho. Do actor e argumentista, não do homem, está bom de ver, que nem o conhecia. Mas a morte parece ter um efeito nivelador sobre todas as coisas e quando soube do seu falecimento, só me veio à cabeça pensar “Lá foi o Tozé, coitado!” e não o epíteto com que o costumava brindar, “o canastrão”. A morte chegou e limpou todas essas formas coloquiais e qualificativas. E trouxe, em seu lugar, apenas um desejo: “Que a terra te seja leve”.

 

Nós, de Boris Johnson, esperamos (já) quase tudo. Mas eventualmente nunca nos terá passado pela cabeça que Boris quisesse acabar com a BBC, tal como ela é. A televisão britânica é não só o modelo para todos os serviços públicos do mundo inteiro, mas é também um qualificativo: quando queremos dizer que uma série é muito boa, dizemos “podia ter sido feita pela BBC”. Mas parece que o Governo conservador britânico não gosta da cobertura que ela faz e quer mudar tudo. Passar a BBC para canal por subscrição foi uma hipótese que o Sunday Times noticiou que nos planos do executivo está acabar com a taxa da televisão e fazer com que os telespectadores que queiram ver a BBC paguem uma taxa mensal, como se se tratasse da Netflix ou da HBO. A seguir vem o resto, o inevitável: despedimentos, redução de canais de televisão e do serviço internacional, site diminuído e a venda de pelo menos uma rádio estão incluídos neste programa.

 

A notícia cita uma “fonte importante”, que para os meios conhecedores dos bastidores políticos britânicos só pode querer dizer uma pessoa, dizem os media britânicos: Dominic Cummings, o poderoso conselheiro do primeiro-ministro. “Os jornalistas não deviam permitir que Dominic Cummings use o disfarce da anonimidade. Uma pessoa tão poderosa tem de ser nomeada e responsabilizada publicamente”, disse no Twitter Alan Rusbridger, ex-director do jornal The Guardian.

A notícia tem vindo a desencadear múltiplas reacções, de gente do mundo dos media e da política. John Simpson, um muito conhecido jornalista da BBC (há 53 anos na casa), fez um twit com um vídeo de explicação sobre a taxa de televisão (que neste momento custa 185 euros anualmente…) que é um importante sustento da emissora pública britânica e explicou que não estava a divulgá-lo por ser da BBC: “Como cidadão britânico, tenho medo do movimento crescente para desmembrar a BBC e refazer o sector da radiotelevisão do Reino Unido à imagem da Fox TV”, a televisão dos Estados Unidos conotada com a direita conservadora. E isso, de perturbação em perturbação, é altamente perturbador para um país que teve a BBC.

 

Regressou – sem me avisar nem nada! – o Comissário Montalbano, já numa série com dois dígitos. Os anos não passam por ele (nem pela eterna namorada, Livia) e voltei a recuperar companhia para as noites de sábado. Voltei a babar-me de inveja pela casa do comissário sobre a praia, que ele – canalha! – aproveita todos os dias. A série, que se passa na Sicília, nesta série reflecte já a actualidade de há um par de anos, com os migrantes do norte de África a serem recolhidos no mar ou em barcos da polícia.

 

Convém dar uma palavra de apoio a Marega. Nada de gritos contra estes ou outros, nada de grandes espalhafatos, nada de rasgar as vestes num templo qualquer, mas uma palavra a Marega: coragem, que isto ainda há-de ser um país a sério.

 

 

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

 

« confesso-vos que sinto alguma falta da organização televisiva de há uns anos atrás, daquela coisa de saber que, por hipótese, aos sábados tinha Herman José (por melhor ou pior que ele fosse na altura), que às terças tinha uma série qualquer, que às quartas viria uma noite de cinema (e que o filme não era, geralmente, de desprezar) e assim por diante. Hoje é diferente, a começar pelas estações que nos apresentam três ou quatro novelas de rajada e pela noite dentro, para depois fecharem a madrugada com um filme miserável.»

 

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

 

 Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 21 de Fevereiro de 2020

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