Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Fevereiro 25th 2021

“BBC – As Crónicas de TV”

A flor no clima adverso do deserto

Bernardo de Brito e Cunha

É em altura de crise como esta que atravessamos, que muitos de nós, pela idade, nunca tínhamos sentido na pele, que a palavra “milagre” parece ganhar um novo significado. E como posso classificar, a não ser como milagre, o caso do bebé cuja mãe infectada pelo coronavírus e internada, nasceu sem sinais de vírus e com um primeiro teste negativo. E embora este bebé-milagre, se me permitem esta lamechice, ainda tenha de fazer um novo teste para se ter a certeza de que está livre da doença. Sobretudo quando os dois pais estão, na altura em que vos escrevo estas linhas, ainda internados e infectados. E este caso faz-me recordar a imagem da flor que brota no clima adverso do deserto…

Já vos disse, julgo, como me tenho interessado por séries escandinavas, e até por uma chamada Shetland e que é passada, como se está mesmo a ver, nas ilhas Shetland, mais ao norte da Escócia. Os falares de todas elas (mesmo o inglês de Shetland) são muito curiosos: seria de supor que os nórdicos tivessem pontos em comum ou, pelo menos, muito parecidos – assim como nós e os espanhóis ou os galegos. Mas não: aquilo é tudo uma algaraviada pegada e muito diferente uns dos outros. Da Noruega (onde se passa a série Wisting, que o canal AMC está a exibir) à Finlândia, passando pela Suécia, o takk norueguês dá lugar ao tack sueco, que é parecido em escrito mas diferente na pronúncia, mas depois chegamos à Finlândia e deparamos com um estranho kiitos, que parece não ter qualquer relação com os vizinhos do Norte – e tudo para dizer “obrigado”…

A melhor de todas é Deadwind, a história de Sofia Karppi, uma detective na casa dos 30 que está a tentar ultrapassar a morte do marido ao mesmo tempo que descobre o corpo de uma jovem assassinada num local de construção. Uma série finlandesa que mistura o thriller com o drama pessoal. E também uma série dramática norueguesa da RTP2: o seu nome é Jogar em Casa e conta a luta de uma mulher para se tornar treinadora de uma equipa masculina de futebol – a primeira na história do futebol europeu, numa altura em que o tema do sexismo no desporto salta para as primeiras páginas dos jornais.

Helena tem, como primeiro desafio, que lutar contra a forte resistência dos jogadores e dos adeptos do clube Varg Il, enquanto procura equilibrar a vida pessoal de mãe solteira de uma filha adolescente e provar que as mulheres são tão boas como os homens no campo de futebol. O seu maior inimigo é o craque Ellingsen que está disposto, no máximo, a aceitá-la como seu técnico-adjunto. Mas a treinadora consegue alguns bons resultados, descobre na pequena cidade um jovem e potencial craque e faz com que o clube, de praticamente condenado a descer de divisão, se mantenha na primeira liga.

Na altura em que me lêem já saberão mais do que eu, isto é, se o Estado de Emergência de que Marcelo Rebelo de Sousa falou entrou em fase de execução ou não. É um instrumento previsto na Constituição da República Portuguesa, mas que foi apenas usado uma vez, antes de existir Constituição, em Novembro de 1975. Por isso mesmo, não há jurisprudência sobre a matéria e mesmo a doutrina pouco se tem debruçado sobre o assunto. De acordo com a lei fundamental, a declaração do Estado de Emergência pode ocorrer “no todo ou em parte do território nacional, nos casos de agressão efectiva ou iminente por forças estrangeiras, de grave ameaça ou perturbação da ordem constitucional democrática ou de calamidade pública”.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Terá começado ontem, na TVI, a sexta temporada de “House”. Dada a antecipação com que escrevo, não vos garanto que tal tenha acontecido, nem sei dizer a que horas foi transmitida: mas certamente foi respeitada a dose diária de novelas e a estreia só terá acontecido depois da meia-noite. Vem com atraso de meses e, quem não a acompanhou no cabo, ter-se-á deparado com o inusitado de um episódio duplo, de mais de uma hora e meia. Mas, quem aguentou a pé firme até às duas da manhã, não terá dado por mal-empregue o seu tempo.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4298 de 20 de Março de 2020

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