Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Novembro 30th 2020

“BBC – As Crónicas de TV”

 

Uma jóia chamada Memória

 

Bernardo de Brito e Cunha

 

A RTP Memória tem sido, ao longo do tempo, um manancial de programas a rever. Não devemos esquecer a palavra “memória” que ostenta na sua designação, por isso não podemos esperar novidades. Mas podemos contar com ela para recordar programas que fizeram história, como foi o caso das séries Columbo, o famoso polícia que fez da gabardina e do charuto a sua marca de água, ou as atribulações de um jovem casal de Nova Iorque, Doido por Ti, que se estendeu por 17 temporadas de 20 e tal episódios (como diria António Guterres “é fazer as contas”…) ou, ainda, a deliciosa família do reaccionário, machista e racista Archie Bunker da série Uma Família às Direitas, que ainda está a ser exibida.

 

Mas hoje venho falar-vos da mini-série Noite Sangrenta, o último dos projectos de ficção (baseada em factos verídicos) da RTP para assinalar o centenário da implantação da República e que agora é recordado, dez anos depois. Mas este é também um episódio quase desconhecido da história portuguesa. E, como o fez notar Sofia Fonseca, no Diário de Notícias de 23 de Outubro de 2010, “os intervenientes da mini-série são disso exemplo: de toda a equipa só uma pessoa, que tinha 80 anos e veio fazer uma figuração especial, é que sabia o que era a Noite Sangrenta”.

 

Mas que noite foi esta, que ficou para a história com o adjectivo “sangrenta”? A Primeira República ficou marcada por uma grande convulsão política e social. Nos seus 16 anos de duração assistiu a oito presidentes da República e a 45 governos. Na sequência da deposição de mais um governo, um grupo de marinheiros e guardas-republicanos, chefiados pelo cabo Abel Olímpio, percorre as ruas de Lisboa num veículo que ficaria conhecido como a “Camioneta Fantasma”, assassinando várias figuras políticas e militares, incluindo o primeiro-ministro demissionário António Granjo, bem como os heróis da implantação da República Portuguesa Machado Santos e José Carlos da Maia, o tenente revoltoso que durante os dias da revolução, e de forma aventureira, tomara o maior navio de guerra estacionado no Tejo com apenas um punhado de homens. Os soldados da milícia são posteriormente presos, julgados e condenados, mas os mandatários dos crimes nunca foram publicamente incriminados.

 

Para além dos acontecimentos da “Noite Sangrenta”, a série relata os passos da demanda de Berta da Maia, viúva de Carlos da Maia, ao longo de vários anos, na tentativa de reabrir o processo e incriminar os verdadeiros culpados do massacre. Para tal, decide investigar e confrontar Abel Olímpio, entretanto preso na penitenciária de Coimbra. Obcecada pelo mistério, recusando o papel de vítima e o preconceito social, Berta da Maia logra obter uma confissão de Abel Olímpio, ganhando-lhe a confiança em sucessivas visitas à penitenciária.

 

Porém, apesar das promessas, o processo nunca é reaberto e as provas trazidas à luz por Berta da Maia nunca passam o crivo das instituições públicas. Perante isso, Berta decide escrever um livro para memória futura. “As minhas entrevistas com Abel Olímpio, o Dente d’Oiro” acaba por ser publicado na véspera do golpe que dá origem ao Estado Novo em 1926 e só muito depois se tornará do conhecimento público. A série conta com interpretações de Isabel Abreu, Gonçalo Waddington, Ricardo Aibéo, Nuno Lopes, Miguel Guilherme e Diogo Infante e a realização foi de Tiago Rodrigues.

 

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

 

«Já Mário Vargas Llosa, prémio Nobel e tudo, se referiu (embora à época se tratasse de rádio e não de televisão) a esse fenómeno de importação de textos já testados noutros países, em “A Tia Júlia e o Escrevedor”. E, para que a coisa não fique muito estrangeirada, também Eça de Queiroz se referiu às nossas inúmeras importações (e mal ele sonhava quantas!) no trecho de “Os Maias” que transcrevo: “Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústria, modas, maneiras, pilhérias, tudo vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssimo, com os direitos de Alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas…”»

 

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

 

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4316 de 30 de outubro de 2020

 

 

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