Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

“NOCTURNO” TRÁGICO POR BERNARDO SASSETTI

“NOCTURNO” TRÁGICO
POR BERNARDO SASSETTI

José Jorge Letria

É quando o país que somos se encontra em estado de tristeza profunda que as grandes perdas humanas se tornam ainda mais dolorosas, sobretudo quando contrariam as leis da natureza e têm o sabor amargo da tragédias que ninguém consegue explicar.
Enquanto um Primeiro-Ministro, em momento de rara inabilidade ou arrogância política, elogia as potencialidades do estatuto de desempregado para quem quiser mudar de vida, um dos maiores músicos portugueses de sempre perde a vida de forma absurda e difícil de aceitar e explicar na zona do Guincho, caindo de uma falésia no coração agreste de um mar belo mas implacável.
Chamava-se Bernardo Sassetti e estava a escassas semanas de completar 42 anos de vida. Era um compositor e pianista genial, com um bom gosto, uma sensibilidade poética, um apuro técnico e uma cultura pianística absolutamente invulgares.
Acompanhei desde muito cedo a sua carreira brilhante e tive o gosto de estar ligado à criação e ao júri do Prémio Carlos Paredes, que lhe foi atribuído na sua primeira edição, em 2002, pelo disco “Nocturno”. Também me alegrei quando na Gala da SPA, em 2011, recebeu o prémio para a melhor canção do ano pelo tema “Retrato”. Havia qualquer coisa de nocturno, de insondável, de muito profundo e telúrico na música deste jovem de coração generoso e solidário e de imensa afectividade que nos surpreendia e desarmava com as suas gargalhadas e as suas perguntas tantas vezes inesperadas. Era, como músico e como homem, um ser absolutamente excepcional. Por isso os seus amigos, companheiros de vida musical e o público que o amava ficaram incrédulos e inconsoláveis.
Por estes dias, Bernardo Sassetti deveria gravar um dos programas da série “Autores”, da SPA, na TVI 24, com apresentação de Paulo Sérgio Santos. Resta-nos agora a certeza de que o iremos evocar, de forma comovida e triste, numa das próximas emissões. Ele merecia e merece isso e muito mais, por ser um dos melhores de sempre, aqui ou em qualquer lugar.
Descendente do Presidente Sidónio Pais, de quem era bisneto e com quem tinha claras semelhanças fisionómicas, e sobrinho-neto do extraordinário compositor Luís de Freitas Branco, Bernardo Sassetti iniciou a sua formação musical, de forma não académica, aos 9 anos, tornando-se, depois de ouvir e tocar muita música clássica e “jazz”, um músico difícil de encaixar na rigidez das classificações convencionais, embora se possa sempre falar da influência que nele tiveram músicos e compositores como Bill Evans e Keith Jarrett.
A pluralidade dos seus interesses artísticos e culturais, que também era uma forma de inquietação e demanda permanente, levou-o a escrever música para filmes portugueses e estrangeiros, com destaque para “O Talentoso Mr. Ripley”, de Anthony Minghella, ou para “Alice “, de Marco Martins. Para além disso, gravou discos com Sérgio Godinho, Carlos do Carmo e outros, pois ninguém com exigência e bom gosto prescindia de poder contar com essa colaboração em disco e ao vivo pelo menos uma vez.
Gostava muito de viver, de conversar, de tocar, de questionar e de se questionar e de buscar, designadamente através da fotografia, novos caminhos expressivos.
A sua carreira internacional estava agora a afirmar-se e a consolidar-se, e bem merecia ter o aplauso e o reconhecimento de públicos de outras paragens. Estava preparado para isso e para muito mais, e sempre com um forte sentido de responsabilidade artística e pessoal.
A notícia da sua morte trágica em Cascais, terra onde nasci e que não aceito que o tenha visto partir desta forma súbita e inaceitável, recebi-a fora de Portugal e, no momento em que escrevo esta crónica, ainda tento refazer-me do choque e da dor da perda. Penso que ainda ninguém se refez. A tampa do teclado continua aberta, à espera que ele regresse e toque, nem que seja um “nocturno” ou um “requiem”. O importante é que continue connosco, mesmo através da imaterialidade do seu génio tornado música.
Um país angustiado e sem esperança sente-se ainda mais amargurado e impotente quando perde alguém assim. Porque não há mais como ele.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, página 3 da edição n.º 3936 de 18 de Maio de 2012

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