A noite da surpresa, do pasmo e do assombro
Bernardo de Brito e Cunha
HÁ SEMANAS assim, em que uma ou outra estação de televisão parece apostada em fazer a papinha toda a este vosso criado. E aconteceu outra vez, no domingo, com os “Globos de Ouro” da SIC (nunca me canso de pôr a sigla à frente, para que não haja confusão com os prémios atribuídos pela imprensa estrangeira a trabalhar em Hollywood). Ao longo dos anos me referi a estes Globos e creio que nunca terá sido para dizer bem – mas para ter a certeza teria de ir aos arquivos e julgo que o programa não merece essa trabalheira. Mas cito-vos, mais ou menos de cor, alguns dos defeitos que lhe fui apontando ao longo dos anos. Começando por aquele que me parece o mais evidente, o de ser pouco mais do que uma feira de vaidades que, como todas as feiras de vaidades, de pouco nos serve – sobretudo em tempos de crise.
MAS OS DEFEITOS não ficam por aqui. Eu entendo que o evento, que é organizado pela revista cor-de-rosa Caras, atribua alguns prémios específicos, como o são, por exemplo, os de Melhor Modelo Feminino ou Melhor Modelo Masculino, bem como o de Melhor Estilista. Entendo: é um pouco desse mundo da moda que a revista vive (embora não exclusivamente), portanto tudo bem. Mas a partir do momento em que a revista decide também atribuir prémios a áreas como a do Cinema, às suas atrizes e atores e ainda aos realizadores; ao Teatro, com mais atrizes, atores e melhor peça; ao Desporto, com todas as suas variantes, e também à Música, com melhor intérprete, melhor grupo e melhor música, eu não posso deixar de colocar uma pergunta – que surgirá no parágrafo seguinte.
POR QUE RAZÃO que se perceba não há de haver ali um cantinho para uns prémios que consagrem algumas zonas da Televisão? Os atores, os programas de informação, os apresentadores? Não faço ideia. É certo que já houve um percalço que pode estar na base desta decisão: um ano (1997 se não estou em erro) aconteceu que os prémios de Televisão foram parar, quase todos, a uma estação concorrente, se não estou enganado à RTP… Mas isso é coisa que apenas tem a ver com uma questão de fair play e nada mais. Para mais, a revista Caras não pode esquecer que está incluída num império de comunicação de que faz parte, igualmente, uma estação de televisão: a SIC, que talvez por esse pequenino detalhe foi quem transmitiu o concorrido certame. E é isso que não entendo: se a coisa até é transmitida pela televisão, então porque não há prémios para a Televisão?
MAS ISTO SÃO as minhas queixas do costume e convém não esquecer que este ano os Globos tiveram novo motivo de interesse ou de espanto. É norma, neste tipo de evento (tal como acontece nos verdadeiros Globos de Ouro ou nos Óscares), haver um prémio especial que premeia uma carreira ou outra situação excepcional. Estes Globos também têm esse prémio especial, que aqui recebe o nome de Prémio de Mérito e Excelência. Já vi esse prémio ser entregue a personalidades como David Mourão-Ferreira, Mário Soares, Ruy de Carvalho, Carlos do Carmo, Armando Cortez e Raul Solnado, Agustina Bessa Luís, Eusébio, José Mourinho ou Eunice Muñoz. Ora imaginem o meu espanto ao ver que a revista Caras, este ano, decidiu dar esse Prémio de Mérito e Excelência a… Francisco Pinto Balsemão. Isto é: a Caras deu o prémio mais importante de todos ao patrão. Juro que se eu estivesse entre os nomes que citei acima, amanhã já estavam a receber o meu de volta…
ACHEI DELICIOSO o grupo de seis velhinhas, com o nome de “Avozinhas Russas”, que foram representar a Rússia na primeira eliminatória do Festival da Eurovisão, terça-feira passada. A acreditar em Pedro Granger, que fazia os comentários, a idade total das Avozinhas ultrapassa em muito os 500 anos. Pois foram apuradas e espero que ganhem!
HÁ 10 ANOS ESCREVIA
«Era só mesmo isto que faltava a José Eduardo Moniz. Não lhe bastava estar a perder audiências, não lhe bastava que “Anjo Selvagem” se tivesse revelado aquela enorme chatice, mal representada, com aquela história sinistra onde acontecem as coisas mais inusitadas e inesperadas, não lhe chegava mesmo que toda a produção nacional em que apostara – e que se tem revelado bem rasca – se mostrasse bem fraca, ainda a maior das suas estrelas havia de abandonar o barco e pondo a boca no trombone, junto de um matutino. Aconteceu com Sofia Alves, que toda a gente supunha não conseguir resistir muito tempo à frente do programa matinal, “As Manhãs de Sofia”. Sofia não resistiu: alegou que as coisas eram feitas à sua revelia (a dispensa de colaboradores, o programa a ser progressivamente encurtado, os convidados surpresa, etc, etc) e decidiu bater com a porta. De um dia para o outro. Dizem os jornais que a conversa que teve com José Eduardo Moniz foi altamente civilizada, os amigos dizem rigorosamente o contrário. E isto traz problemas acrescidos a Moniz: nomeadamente a pergunta “Ainda será Sofia Alves a protagonista da novela ‘Amanhecer’?”»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, página 15 da edição n.º 3937 de 25 de Maio de 2012

