José Jorge Letria
Quando, em meados dos anos sessenta do século passado, a música dos “Bee Gees”, em fase de consagração internacional com temas como “Massachusets”, “Holiday” ou “New York Minning Disaster” me fascinava e de algum modo influenciava o músico adolescente que eu então era, estava muito longe de imaginar que um dia viria a conhecer pessoalmente Robin Gibb, compositor e intérprete dos melhores temas do grupo e que poderia vir a escrever sobre a sua morte, não na minha condição de jornalista, mas sim como presidente da Sociedade Portuguesa de Autores. Mas foi justamente isso que aconteceu.
Robin Gibb, figura central na grande aventura musical dos “Bee Gees”, tanto na fase de consolidação da fama do grupo como na época do “disco”, pela qual confesso que não nutri particular simpatia, foi eleito, em Junho de 2007, na Cimeira Mundial do Direito de Autor, em Bruxelas, para a presidência da Confederação Internacional das Sociedades de Autores e Compositores (CISAC), com sede em Paris e que representa 232 sociedades de 121 países, no vários continentes. Substituiu, nessa função, o realizador mexicano Alfonso Cuarón, autor de “Amor Cão” e realizador de pelo menos um filme da série Harry Potter, que pouca disponibilidade demonstrou para travar um combate justo, inadiável e que requeria dedicação e empenhamento total.
Robin Gibb pareceu-me ser a escolha acertada da CISAC, embora eu e muitos outros dirigentes de sociedades de autores temêssemos que fosse apenas mais um nome sonante para dar força a um inadiável combate comum. Mas Robin Gibb fez questão de ser muito mais do que isso, apesar de não ter funções executivas. Esteve presente sempre que foi necessário, assinou comunicados, deu conferências de imprensa e deu mais voz à voz dos autores.
Muito magro e de pequena estatura, Robin Gibb, um dos meus ídolos musicais da adolescência, era um homem simpático, generoso e acessível que poderia ter ficado no conforto da sua residência, em Londres ou nos Estados Unidos, a fazer música e a gozar os seus expressivos direitos de autor, mas decidiu ir mais longe do que foram muitos dos músicos seus amigos e contemporâneos. Foi ele que deu o nome e o rosto, em nome da CISAC, pela defesa dos direitos dos autores no Brasil, na Croácia, na Índia, na Sérvia e na China. Enquanto outros se calaram e deixaram que o egoísmo falasse mais alto, ele comprometeu-se e veio a terreiro, defendo o que sabia ser justo. Tornou-se assim um exemplo e um símbolo.
Reeleito para um segundo mandato de três anos em 2011, era visível que já se encontrava bastante doente. Não levaria esse compromisso até ao fim. Em 2009, ouvi-o dizer em Washington que “o direito de autor não é um obstáculo ao progresso, mas sim uma ponte para o progresso, para a criatividade e para a comunicação”. Sabia do que falava e tinha legitimidade para o dizer. Ao ser reeleito para a presidência da CISAC, proclamou: “Orgulho-me de ser o presidente da CISAC e continuarei a lutar pelos direitos dos autores até que deixe de respirar”. Isso aconteceu agora, aos 62, quando o cancro que o atormentava ganhou a batalha final. Continuaremos a recordá-lo como um grande músico, um autor convicto, um homem generoso e solidário e como um exemplo de coerência com princípios e valores a que nunca aceitou renunciar.
Sempre foi o meu “Bee Gee” preferido e tive ocasião de lho dizer, numa conversa fugaz, nos bastidores de uma assembleia internacional. Volto a ouvir as canções que escreveu e cantou, e a comoção que sinto é a melhor homenagem que lhe posso e sei prestar.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, página 3, edição n.º 3938 de 1 de Junho de 2012

