Outras gentes, outros canais
Bernardo de Brito e Cunha
ESTAMOS NAQUELA época do ano em que não vale a pena estar a estrear programas novos: alguns portugueses ainda vão de férias – veja-se o caso deste jornal e dos seus trabalhadores –, aproximam-se os Jogos Olímpicos, a Assembleia também já foi a banhos, Passos Coelho já quer que as eleições se lixem, etc., etc. Assim sendo, ninguém se preocupa com a televisão: e vá de repetir. Nem sempre é uma má escolha, porque há repetições que são bem melhores do que qualquer programa novo, sobretudo quando os programas “novos” ameaçam ser a continuação dos programas antigos. Não viram já aquela “notícia de última hora”, cem vezes repetida, segundo a qual Teresa Guilherme vai ser a apresentadora da nova versão da “Casa dos Segredos”? Querem mais do que isto? Acho que não vale a pena e que a nossa rentrée televisiva já foi atirada às malvas.
MAS VOLTEMOS ao que interessa, àquela parte em que escrevi que “há repetições que são bem melhores do que qualquer programa novo”. É o caso de “Portugueses pelo Mundo”, um programa que é uma viagem fascinante às mais diversas cidades do nosso planeta. É, também, um programa curioso porque quase não têm, esses conterrâneos que abalaram para outras paragens (por razões tão diferentes!), interlocutor do lado de cá da câmara. Melhor dizendo, lá ter até têm: mas aparecem apenas (e muito poucas vezes) sob a forma de uma legenda que é uma pergunta adicional. Os portugueses que nos servem de guia a esta ou aquela cidade fazem toda a despesa da conversa: imagino que o façam porque lhes são perguntadas coisas, mas essas perguntas nunca são audíveis. Quanto muito surgem, como disse, sob a forma de uma legenda. Este deverá ser o único programa em que os convidados não são interrompidos…
NA MINHA BUSCA pelos canais do cabo dei, um dia destes, com o canal BBC Entertainment. Fiquei-me por lá porque estava a transmitir o “Elo Mais Fraco”, depois uma série humorística e depois um documentário sobre a vida animal – mais propriamente dos elefantes órfãos. O canal não é legendado, o que levanta alguns problemas: embora saiba alguma coisa de inglês, a linguagem de metade dos concorrentes do “Elo” passou-me completamente ao lado… Já o documentário não levantou problemas: o repórter tinha um sotaque perfeitamente compreensível. E aí fiquei a saber, com surpresa, que um campo no Quénia recolhe elefantes que perderam a mãe, os alimenta, os trata e depois… os entrega aos mais velhos do grupo. E é impressionante como, passada a primeira estranheza, os jovens acolhem os “miúdos” como se fossem da família. Coisa que os humanos tantas vezes não fazem…
HÁ PROGRAMAS que não se podem – nem devem! levar a sério. Talvez por serem programas humorísticos? É possível. Foi assim que, levado pela conversa de José Pedro Vasconcelos, a semana passada, fiquei na terça-feira à espera que ele cumprisse o prometido e anunciado, e que era, nem mais nem menos, do que ter esta semana como convidado D. Januário Torgal Ferreira. Achei que no “5 para a Meia-Noite” é que o bispo ia pôr tudo de pernas para o ar… Foi pena: mas foi “substituído”, se é que o termo se aplica, por Paulo de Carvalho, cujos 50 anos de carreira bem merecem ser recordados – e não têm sido muitos os que o têm feito…
ESQUECIA-ME de os avisar: uma série de que gosto muito, “Midsomer Murders”, regressou ao FOX Crime, agora na sua oitava temporada. Eu não perco – e aconselho aqueles que tiverem acesso ao canal a fazerem o mesmo.
HÁ 10 ANOS ESCREVIA
«Se eu tiver a sorte de crescer e de não ser como os velhos que Jacques Brel descrevia numa das suas canções (“Quando eu for velho/Serei insuportável” e outros mimos semelhantes), todas estas coisas deixarão de ter importância. E daí, pensando melhor, talvez eu já esteja tão insuportável como os velhos de Jacques Brel. O motivo mais recente aconteceu na terça-feira, na TVI, dando pelo nome de “Academia de Estrelas”. Mais ainda, era uma Gala da Academia especial, uma vez que seria a última e, portanto, dela sairia o vencedor – embora houvesse aqui e além, polvilhando a noite, a frase “todos os que chegaram aqui já são vencedores”. Sabemos que isso não é verdade: uns ganham e outros não. Para os primeiros há prémios, projectos de carreira, e para os outros… não. Confesso que não fui seguidor atento da “Academia de Estrelas”: vi um programa de vez em quando. Mas há coisas perturbadoras, em que fui reparando ao longo do tempo. O instinto casamenteiro de Teresa Guilherme (já é mais que instinto, aquilo foi picada de um mosquito qualquer) revelou-se todas as semanas. E nem a noite da Gala escapou: pois pudera, aquela era a sua última oportunidade de fazer de Santo António… Mas num programa que se pretendia descobridor de talentos, não fazia muito sentido andar a tentar casar o talento 1 com o talento 5 – ou lá que números fossem eles.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, página 15 da edição n.º 3946 de 27 de Julho de 2012

