A vida tal como ela é
Bernardo de Brito e Cunha
MESMO DURANTE uns dias de férias, acompanhei as notícias do país e as novas medidas de austeridade reveladas por Pedro Passos Coelho. E quase imediatamente tomei conhecimento das vozes que começavam a apelar ao não adormecimento. E “Acordámos”, como dizia uma publicação no Facebook. Voltei a tempo de poder testemunhar esse movimento em Lisboa, um tal número de pessoas como eu não via desde os tempos do 25 de Abril, e todas as leituras que se fizeram desse movimento. Fiquei contente, embora me pareça que, em relação a gregos e espanhois, demorámos um bocadinho a reagir. E o governo, ao ver que o povo não reagia, apertou um bocadinho mais. Um bocadinho bem grande. Talvez esse povo saiba agora (se tenha relembrado) de que unido jamais será vencido.
A LIGA DE FUTEBOL arranjou, aqui há uns anos largos, um esquema segundo o qual vende as respectivas transmissões a um canal que existe no cabo e que, como consequência, é pago por quem quiser ver este ou aquele jogo. Para se poder ter esse canal específico (chamemos os bois pelos nomes, é a SportTV) é condição fundamental ter televisão por cabo, não nos serve ter a recém-chegada TDT e depois querer assinar a SportTV. Não. É necessário 1) assinar uma qualquer televisão por cabo, o que deve rondar, no mínimo, uns 25 euros e 2) acrescentar-lhe depois esse canal específico, que custará outro tanto. Resumindo, são uns 50 euros, números redondos, para acompanhar os jogos de futebol. Por mês! Ou 600 euros por ano – quantia de que muito poucos podem dispor…
NÃO NOS BASTAVA que a TDT tenha deixado uma grande parte da população com quatro míseros canais, quando qualquer país da Europa aproveitou essa mudança para fornecer 10, 15, 20 ou até mesmo mais canais, como ainda os canais abertos não nos dão, este ano futebolístico, qualquer jogo da Liga portuguesa. Os três canais abertos (deixo de fora a RTP2, que sempre se dedicou às modalidades que a irmã mais velha deixava de lado) decidiram não negociar com a SportTV aquilo a que estávamos habituados: que fosse transmitido um jogo por jornada em sinal aberto. Motivo? O de sempre ou, pelo menos, o de algum tempo a esta parte: dinheiro. É que parece que o custo de cada jogo andava pelos 300 mil euros o que, convenhamos, é dinheiro. Ao que acrescia, ainda, mais uns euros que tinham de ser pagos com as despesas de transmissão e outras tecnicidades afins. Até aqui tudo bem: a RTP, a SIC e a TVI acharam que era muito dinheiro e não fizeram qualquer oferta. À primeira vista parece uma coisa sensata. Só que não é. E vamos já ver porquê.
MESMO PONDO de parte as contas apresentadas pela RTP segundo as quais tem lucro desde há dois anos, e o lucro é de mais de uma dezena de milhões de euros, a verdade é que a RTP não se podia ter posto de parte deste problema porque, quer o queiramos quer não, o futebol nacional é serviço público. Para mais, já foram tentadas outras soluções, nomeadamente nos últimos campeonatos do Mundo e da Europa: o “bolo” foi comprado e dividido entre os três canais. A sorte terá bafejado um ou outro canal, mas não é isso que vem ao caso: o que importa é que foi possível ao público telespectador português acompanhar os jogos desses campeonatos. É verdade que por lá andava a selecção nacional: mas como esses campeonatos se alternam de dois em dois anos, nesse ínterim não temos direito a nada? É certo que a selecção é a selecção: mas e os seguidores do Benfica, os do Porto, os do Estoril-Praia? Esses não têm direito a nada? Por que razão que se perceba não se reuniu a RTP com as televisões privadas e acordaram numa solução semelhante? Não teriam ficado todas a ganhar e nós também? E se falo em RTP a reunir-se com as televisões privadas é porque a televisão pública tinha essa obrigação. Mesmo que as privadas recusassem. Mas aí, ao menos, teria tentado.
HÁ 10 ANOS ESCREVIA
«Na altura em que a última crónica foi escrita, noite de terça-feira da semana passada, ainda não sabia (como poderia saber?) o que as diversas televisões tinham guardado para o aniversário do 11 de Setembro. Quase todas elas fizeram programas especiais, uns melhores que outros, naturalmente, mas de entre eles convirá salientar um que foi exibido pela SIC, chamado “9/11”. Era a coisa vista do outro lado, isto é, dois franceses estavam em Nova Iorque desde Março de 2001, a acompanhar a vida de um bombeiro da cidade. Quis o destino – ou o acaso – que até esse dia 11 de Setembro não tivessem conseguido filmar nada de jeito: mas apenas até às 9 da manhã desse dia. Porque nessa altura os dois irmãos seguiram o mesmo bombeiro até às Twin Towers de Nova Iorque e entraram com ele. E filmaram tudo o que puderam, dentro da primeira torre atingida. Foi um documento diferente e muito bem feito.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, pág. 15 da edição n.º 3949, de 21 de setembro, 2012

