Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Junho 11th 2026

QUANDO A HISTÓRIA AMEAÇA REPETIR-SE

José Jorge Letria

Aumenta o número dos que associam, em Portugal e no resto da Europa, os efeitos da crise ao futuro da própria democracia. É natural e legítimo que o façam, pois são dimensões da vida colectiva que não devem ser entendidas separadamente.
Convém ter presente que, após o “crash” da Bolsa de 1929, os Estados Unidos estiveram à beira de uma perigosa deriva de direita, ou mesmo de extrema-direita, que só a inteligência política de Franklin Delano Roosevelt conseguiu travar através da política do “New Deal”, que criou emprego, aumentou o consumo privado e evitou o colapso irreversível da economia. Foi assim que os Estados Unidos ficaram em condições de, iniciada a Segunda Guerra Mundial, criarem condições para uma intervenção militar que, no quadro do combate dos Aliados pelos valores da liberdade e da democracia, evitou que o Reich de Hitler durasse muito mais do que durou, ou seja, 12 trágicos anos que custaram a vida a mais de 60 milhões de pessoas, das quais cerca de 20 milhões eram cidadãos da então União Soviética.
Por não ter percebido as consequências incontroláveis da crise económica, a República de Weimar entrou em colapso e abriu as portas ao triunfo do nazismo nas urnas, em 1933. O resto é o que se sabe e o que se viu, com o mundo a afundar-se, durante seis intermináveis anos, numa espiral de sofrimento e terror, que ainda não se apagou da memória do mundo civilizado e que, sobretudo os alemães, não podem nem devem esquecer, principalmente quando alguns dos seus políticos no poder parecem querer ceder à tentação de fazer com os instrumentos da economia o que, há algumas décadas, as divisões “Panzer” de Guderian e de Rommel fizeram a países e povos, reduzindo-os a cinzas e escombros, incluindo a Grécia, como convém ter presente nestes tempos sombrios que tanto nos alarmam e desafiam.
A economia tem o lugar e a força que tem e que não deve ser nem subestimada nem sobrevalorizada. Quando os sectores mais desfavorecidos da população de pátrias soberanas enfrentam dificuldades que os humilham, condenam à penúria e a um estado de carência sem fim à vista, é difícil pedir às pessoas que acreditem cegamente nas virtudes e capacidades regeneradoras da democracia e das suas instituições. Cresce de forma alarmante o número daqueles que não acreditam na política e nos políticos e que procuram soluções e respostas que, por vezes, só o radicalismo populista, tenha o rosto que tiver, tende a encontrar. Quanto tal acontece, entramos numa perigosa zona de incerteza e turbulência que leva o que resta dos Estados a muscularem-se para defenderem a chamada ordem pública, os responsáveis políticos e as instituições públicas. É sempre assim que começam as ditaduras. Foi assim que Sidónio Pais conquistou o poder pela força em Dezembro de 1917. Foi assim que Mussolini se tornou “duce”. É assim que a democracia fracassa e o totalitarismo se impõe, contra a razão, contra o bom senso e contra a paz.
Na realidade, a História pode repetir-se. Mesmo com outro rosto, outras formas e métodos, a História pode entrar num ciclo de repetição, desde que o descontentamento popular e a morte lenta ou acelerada da classe média torne os povos impacientes, revoltados e desesperados.
Há quem pense que o mundo contemporâneo tem recursos bastantes para evitar que assim aconteça e que Bruxelas tem a força necessária para travar qualquer deriva extremista. Mas é um engano, um erro grave. Se os governantes dos países democráticos não mudarem rapidamente de rumo, protegendo os mais desprotegidos, que são a esmagadora maioria, em vez de ficarem do lado de quem detém o poder do dinheiro, todos podemos ter uma amarga surpresa. O mais fácil sempre foi aparecer no horizonte quem consiga dar voz à revolta popular, com todas as consequências trágicas que daí podem advir. Quem não perceber a força desta dinâmica perversa e incontrolável, pode estar a comprometer irremediavelmente o futuro da democracia. Brecht, num dos seus mais famosos poemas, deixa bem presente que, depois de terem levado todos os outros, poderá chegar a vez de baterem à nossa porta. O resto é o que a História tragicamente nos obriga a não.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3951 de 5 de Outubro de 2012

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