Desgraças, dinheiro e relatos
Bernardo de Brito e Cunha
CONFESSO QUE JÁ ME FARTAM, bastamente, os programas das manhãs e tardes, respetivamente da SIC e da TVI. É, cada um deles à sua maneira, um chorrilho de desgraças e não entendo bem por que razão não pode um programa de televisão ser uma coisa divertida, como é o caso do programa de Manuel Luís Goucha. É divertido, leve, nem sempre com o mesmo equilíbrio, é certo, mas é quase garantido o sorriso, para não falar de uma ou outra gargalhada ocasional. O mesmo não acontece com as responsáveis dos programas referidos. Júlia Pinheiro (que neste momento estará 1) de férias, ou 2) a tratar do cargo jornalístico que vai desempenhar na Impresa de Balsemão) é aquela dor de cabeça matinal com as suas risadas estridentes mas que, infelizmente, a minha empregada Anastácia adora. Em seu lugar ficou a estouvada Ana Marques, que está completamente convencida que tem graça e está, oh se está!, redondamente enganada. Da parte da tarde entra em cena, na TVI, a apresentadora Fátima Lopes, a cujo programa só parecem ir pessoas que tiveram azares na vida. Não aquelas coisitas que nos acontecem a todos, mas azares dos grandes. Por exemplo, aquela senhora que ia ser operada a um pé esquerdo e acabou sem a perna direita. Ou aquela outra que foi assaltada pela própria… senhoria, que lhe mudou fechaduras e tudo. Ali não se brinca, as desgraças são mesmo levadas a sério. E é um programa que é um vale de lágrimas do princípio ao fim, só intervalado pelos concursos onde se distribui dinheiro pelos espectadores em casa.
E ISTO DOS CONCURSOS onde se distribui dinheiro tem muito que se lhe diga. A SIC, que tem pretensões a canal mais fino, ainda acrescenta ao dinheiro um automóvel, mais ou menos mensalmente. E oferece um carrito utilitário, de baixo consumo, dada a crise que se atravessa? Pois não senhor, que nós podemos estar a caminhar para o abismo mas ao menos que vamos com estilo. Não quero estar a falar em marcas, mas aquilo são tudo carros para gastarem bastante aos 100. Para não falar em manutenções. O que é engraçado é que o carro que já foi entregue (ou será nos próximos dias) era justificado nas promoções da estação com um “porque o mau tempo está a chegar”… Mas os dinheiros oferecidos devem compensar o investimento, ou então já teriam acabado com essa benesse. O que não deixa de ser estranho é que os programas que o oferecem, a troco de uma chamada de valor acrescentado, nunca aparecem nos lugares do top dos mais vistos, forma imprescindível para se conseguir publicidade e patrocinadores. E isto deixa-me muito confuso. A SIC introduziu agora uma variante, aplicada aos programas da noite, e que é uma estrela que aparece de vez em quando no canto do ecrã. É nessa altura em que a estrelinha, como lhe chama José Figueiras, está visível que teremos de telefonar: as coisas que eles inventam!
ASSISTI, NATURALMENTE, ao jogo entre o Benfica e o Celtic. E, mais uma vez, continuo a não perceber os comentadores televisivos que insistem em transformar esses eventos televisivos em… relatos radiofónicos. Aquela história de “fulano passa a sicrano, sicrano atrasa para o guarda-redes que pontapeia com força” e assim sucessivamente é perfeitamente inconcebível, porque só descreve, verbalmente, aquilo que todos podem ver no ecrã. Uma coisa deste tipo pede uma outra coisa: pede que o comentário acrescente alguma coisa ao que se vê. Raramente isso acontece. Ainda na terça-feira quando o comentador pediu ajuda a um jornalista que se encontrava ao nível do terreno, este só foi capaz de responder: “Não sei dizer, porque neste momento, no meu campo de visão, só tenho Jorge Jesus.” Confessemos que é escasso. Tanto para um jogo da Liga dos Campeões, como para a transmissão de um Solteiros contra Casados.
HÁ 10 ANOS ESCREVIA
«Quando, na sexta-feira passada, a SIC divulgou a sua grelha de programas para a semana que teria início na próxima segunda-feira, dia 24, nela figuravam algumas alterações, substituições – o que é normal – mas também um programa novo, localizado entre o “Jornal da Noite” e o programa “Não Há Pai!”. Tinha nome: chamava-se “A Casa de Gisela” e, como Gisela – ao que isto havia de ter chegado… – parece que só há uma, a do programa “MasterPlan”, estava-se mesmo a ver que a SIC preparava qualquer coisa para responder à TVI. Não dizia do que se tratava, mas remetia toda a gente para uma conferência de imprensa, no dia 18, segunda-feira seguinte.
Acontece, no entanto, que no dia 17, domingo, a TVI apresenta Gisela, de seu apelido Serrano, como a nova residente da casa dos Famosos. E que, na realidade, entrou mesmo para a casa.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3958 de 23 de Novembro de 2012

