Semanário Regionalista Independente
Sábado Abril 18th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Uma das melhores novelas de sempre

Bernardo de Brito e Cunha

AINDA HÁ UNS DIAS um amigo me falava que tinha revisto um episódio de “Columbo” onde entravam dois cães e que, de imediato, se tinha lembrado de mim e das minhas cadelas. Já não me recordo exatamente da conversa, mas creio que os cães de “Columbo” eram (esperava ele) bem piores do que as minhas. As minhas, de facto, são quase umas santas – o que não quer dizer que não me levantem problemas, e são diversos. O mais recente tem a ver com a hora a que são passeadas à noite (caramba, fui eu que as habituei!) e que, agora, coincide com a hora a que é exibida a novela “Avenida Brasil”. E isto constitui um problema, porque é uma novela que não quero perder, por ser a melhor de todas as que estão em exibição. Isto não é bem verdade, até parece que é a melhor por comparação com as outras quando não é esse o caso. É a melhor em termos absolutos e só acho que não entra no top 5 das audiências por passar a uma hora estranha, já muito tarde. Isso: a hora a que as minhas cadelas passeiam à noite. Por esse país fora, àquela hora, andarão pessoas como eu a passear cadelas (ou cães) como as minhas e a perder a “Avenida Brasil”. É uma possibilidade.

QUE TEM ENTÃO “Avenida Brasil” que as outras não tenham? Tem um toque de realidade que muitas das novelas da Globo não conseguem ter. Tem drama, vingança, vigarice, engano, quiproquós, desgraças, tragédias humanas, desforras, intrujices, trapaças, que muitas das novelas da Globo não conseguem ter. Para já, porque consegue reunir, em grande forma, a fantástica Débora Falabella, a sempre impressionante Adriana Esteves. E poderia preencher o resto da crónica com os nomes dos atores que entram na novela. Quero apenas referir mais uma: Vera Holtz, a mãe Lucinda que criou os dois jovens no lixão e é, quase todos os dias (ou aqueles em que aparece) uma personagem de ir às lágrimas – como ela própria tantas vezes vai. Esta intensidade, esta capacidade camaleónica dos atores não se encontra na maioria das novelas da Globo: nessa maioria, as personagens limitam-se (e já não é pouco) a levar a sua persona até ao fim, no mesmo registo, com os tiques que o argumentista lhes destinou e nada mais. Aqui é outra coisa. Aqui, como se dizia quando eu era pequeno, é outra loiça! Todos os dias espero pela hora de ”Avenida Brasil” – e nunca o lamentei. E não sei como explicar à Rita e à Marta, as minhas cadelas, que têm de ir à rua mais cedo ou então só mais tarde. Não parece que me entendam…

ENTRE O CASO de Rui Barreto, do CDS Madeira, que corajosamente votou contra o Orçamento de Estado para 2013 (e possivelmente enfrentando duras represálias) e o de Nuno Santos, diretor de informação da RTP, não sei de quem fale. Julgo que um e outro fizeram o que lhes competia – e lamento que não haja mais Barretos e Santos na Assambleia e na RTP. Rui Barreto, sabemo-lo, marcou uma posição em relação à Madeira, ao passo que Nuno Santos a terá marcado em nome próprio. A posição do primeiro ficou clara na última terça-feira, mas a do segundo não se percebe: apresentou a demissão do cargo, mas continua a aparecer como tendo as mesmas funções nos genéricos dos programas, apesar da demissão e, ainda terça-feira o vi em antena, a apresentar um programa. Isto não será muito confuso para toda a gente? Não seria bom que as coisas se clarificassem, que se dissesse um “ainda continua em funções até” um qualquer coisa, qualquer que ele fosse?

HÁ 10 ANOS ESCREVIA

«De repente, caiu em cima de todos nós o caso de pedofilia da Casa Pia de Lisboa, numa reportagem da SIC em conjunto com o semanário Expresso. Estranhamente, diria eu. E estranhamente porquê? Porque esta história tem um pouco mais de 20 anos e, durante todo esse tempo, todos os envolvidos se esqueceram do caso. Esqueceram? Como é possível esquecer um caso de pedofilia? E, de repente, temos todos visto nos mais diversos canais, há sempre uma pessoa nova a dizer que tinha conhecimento da queixa, ou que tinha sido despedido porque protestara contra as regalias do senhor Silvino, ou porque era agente da Polícia Judiciária e vinha (tentar) explicar que a polícia tinha mudado de sistema, que tinha passado do manual para os computadores e que, caramba!, durante essa transferência, não é que as denúncias se tinham perdido? (…) E isto, claro, tem a ver com Teresa Costa Macedo: ela que há 20 anos encaminhou as queixas para quem de direito, como pode ter estado 20 anos calada, ao ver que não acontecia nada?»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3959 de 30 de Novembro de 2012

Leave a Reply