Balanço antecipado, culpa dos Maias
Bernardo de Brito e Cunha
ESTA É A ÚLTIMA crónica deste ano – se é que o mundo não acaba hoje, como predisseram os Maias, caso em que esta será a última crónica. Ponto. Façamos, assim, uma espécie de balanço daquilo que mais me impressionou neste ano que agora termina. Este foi o ano da implementação do sistema de televisão digital terrestre em Portugal. De acordo com um estudo, o mais recente disponível, levado a cabo em Junho de 2011 por mais de 20 investigadores de diversos países (leque integrado também por Sérgio Denicoli da Universidade do Minho), a Letónia e a Estónia estão ao mesmo nível de Portugal nesta matéria, ou seja, transmitiam também quatro canais designados de free-to-air, sendo que apenas os Países Baixos contemplam uma oferta ainda mais pobre de três canais. Ainda assim, disponibilizam canais regionais livres. A análise académica teve em conta sites de referência, bem como uma minuciosa pesquisa nos arquivos online do Observatório Audiovisual Europeu. Veio a verificar-se, mais tarde, que os “apagões” foram uma constante e a qualidade dos aparelhos duvidosa.
NESSES CANAIS que passam séries, muitas das quais estrearão depois em Portugal, encontram-se algumas verdadeiras pérolas. A última que tive a oportunidade de ver, incluída nesse grupo, (e sem esquecer o “Dr. House”, a que assisti com amargura à sua última temporada) foi “Os Bórgias”, uma minissérie de nove episódios, na sua primeira temporada, com uma segunda este ano que já vi, criada por Neil Jordan e com um fabuloso Jeremy Irons no papel de Rodrigo Bórgia e, pouco depois, no do papa Alexandre VI. A série foi exibida cá por um canal que dá pelo nome de AXN e, para quem puder, é de não perder as repetições. Porque essa é uma das características destes canais: vão repetindo as suas séries e filmes com alguma frequência. O que tem o seu lado bom: se perdermos um episódio, há sempre a possibilidade de o voltar a apanhar uns dias depois.
EsCREVI AQUI, A DADA ALTURA, que não percebia bem qual a intenção do programa “A Tua Cara Não Me É Estranha”, que a TVI transmitiu aos domingos. Acontece que, muito por culpa de João Paulo Rodrigues, que conhecemos também como Quim Roscas, o programa se me revelou interessante. Eram oito personalidades conhecidas que todas as semanas vestiram a pele de um cantor. E excluindo o prémio que cada vencedor semanal atribui a uma instituição à sua escolha, a intenção do programa (como lhe chamo acima) é o puro entretenimento. E a verdade é que tive algumas surpresas (positivas) com muitos dos intervenientes. Foi o caso, quase constante, de João Paulo Rodrigues, de Romana e até mesmo de Toy. É verdade que eles não cantam as suas coisas: e muitos, por obra da caracterização, foram verdadeiras revelações. Fiquei cliente até ao fim.
FOI TAMBÉM o ano em que um novo sistema de medição de audiências entrou em vigor – com atraso… Entre os problemas técnicos foram identificadas muitas situações em que o sistema registava espectadores vendo canais de televisão paga, quando estes só tinham TV de sinal aberto, ou mesmo alguns programas que não estavam a ser emitidos no momento. Também houve um jogo de futebol (do Benfica, imagine-se!) que não registou qualquer espectador durante 20 minutos, e casos de televisores que estavam ligados 24 horas por dia. Outro erro apontado é que as faixas etárias mais altas não estarão devidamente representadas. O responsável da GfK, António Salvador já reconheceu que os idosos são uma faixa “difícil de convencer a participar”. Mas, entrevistado pela RTP, defendeu que o seu painel é “o mais fidedigno de sempre” e que “aquilo que era feito antes não era bem feito”. São opiniões, mas não me pareceu que os factos falassem por si e a seu favor.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Não deixa de ser preocupante que o primeiro dos canais privados, levantado do zero quando a RTP, até então sozinha no mercado, detinha a totalidade das audiências, e que lhe roubou essa liderança em cinco anos, tenha decaído de tal maneira que o Dr. Francisco Pinto Balsemão esteja a pensar em reduzir substancialmente o número de pessoas que trabalham na SIC. É evidente que dada a dificuldade em escolher este ou aquele funcionário, o mais simples será optar pelo despedimento colectivo, dar aquilo como falido e passar a estação a quem a quiser sem mais preocupações. Esse é um dos panoramas que se põem – sobretudo depois de algumas chefias se terem recusado a fazer listas de dispensas. Um acto de coragem nos tempos que correm e que, convém dizê-lo, já não são para todos.
Que foi que aconteceu à SIC? Hoje não é difícil fazer contas e descobrir que a SIC começou a cair numa altura e consumou essa queda numa outra, pouco tempo depois. A primeira dessas alturas aconteceu quando a estação de Carnaxide recusou uma proposta da Endemol que dava pelo nome de “Big Brother”. O programa, como se sabe, dada essa recusa, foi oferecido à TVI – e foi o sucesso que lançou, finalmente, essa outra estação privada. E a segunda dessas alturas acontece quando Pinto Balsemão despede Emídio Rangel.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3962 de 21 de Dezembro de 2012

