Semanário Regionalista Independente
Sexta-feira Maio 27th 2022

QUANDO A DEMOCRACIA RESISTE E SE REVÊ NA CORAGEM DE MÁRIO SOARES

José Jorge Letria

Vivemos um momento histórico, como históricos são sempre os momentos em que a incerteza do futuro nos obriga a ter a coragem quotidiana de não cruzar os braços e de lutar por saídas, soluções e respostas, ainda que essa atitude possa ter um preço elevado e possa gerar resistências, contrariedades e inimizades. Mas é nestes momentos que o carácter deixa o seu traço forte na página aberta das nossas vidas e, por vezes, da vida da comunidade a que pertencemos.
Servem estas palavras para falar de Mário Soares e da forma sempre corajosa como continua a assumir de forma livre, frontal e mobilizadora a indignação colectiva, quando muitos outros se calam, hesitam, tendem a contemporizar ou se remetem à prudência tacticista de quem deixa sempre para amanhã as posições que pode tomar hoje.
Combatente pela democracia e pela liberdade desde a adolescência, Mário Soares foi um dos fundadores da nossa democracia e do regime que esta crise põe agora em causa. A série de DVD agora posta em circulação e que constitui a história de vida e de luta de um homem único na nossa História contemporânea, mas também de um homem que nunca desligou a perspectiva cultural dos combates da cidadania. Figuras menores atrevem-se agora a colar à sua intervenção no contexto desta crise o adjectivo “radical”, insinuando que Mário Soares se encontra irremediavelmente desfasado da realidade. Mas, a verdade é que aquilo que o ex-Presidente da República diz e escreve mais não é do que epílogo de um ciclo de intervenção cívica e política que o levou nos últimos anos, e designadamente na fase em que a crise mundial deflagrou, a denunciar situações e contradições que muitos dos que hoje se mostram indignados e apreensivos ignoraram, subestimaram ou tentaram mesmo ocultar. Em 2007 e 2008, Mário Soares chamou a atenção para a forma como o futuro da Europa e do mundo estava a ficar sombriamente comprometido pelas manobras especulativas do capital financeiro transnacional, pela ausência de estadistas com coragem e dimensão bastantes para proporem estratégias alternativas e para o modo como a política estava a ser perigosamente subalternizada pelo poder dos grandes grupos económico-financeiros, cada vez mais influentes e arrogantes.
Muitos não o quiseram ouvir, outros fingiam ouvi-lo e continuaram a pactuar com a situação derrapante em que o país já se encontrava e outros, ligados ao seu espaço político e partidário, transferiram-se mesmo, de armas e bagagens, da esfera da política para o mundo empresarial de topo com posições e responsabilidades que fazem deles agentes do que está errado e não propriamente construtores de qualquer solução sustentável. Os interesses que representam e defendem fazem deles parte do problema e nunca da solução.
Mas muito antes desta crise eclodir, já Mário Soares alertara para a forma como o poder político estava a perder capacidade de decisão e espaço de manobra democrática a favor dos grandes grupos económicos e financeiros que entretanto se apoderaram dos órgãos de comunicação e de outros importantes instrumentos de intervenção e controlo da nossa vida colectiva e da opinião maioritária.
O pujante testemunho de vida contido nesta série de DVD que repartem por vários capítulos os filmes já exibidos pela RTP colocam-nos perante um homem de excepcional inteligência e intuição políticas e de uma inabalável coragem cívica e firmeza de convicções. Vê-lo e ouvi-lo faz-nos pensar nas palavras de Montesquieu quando definia coragem como “essa virtude que é a noção das nossas próprias forças”. E é justamente aí que reside a oportunidade e a eficácia da intervenção actual de um homem que não procura o poder, que já exerceu durante décadas, mas sim a mobilização das energias colectivas que permitam salvar o essencial da nossa soberania nacional e da nossa identidade democrática.
É natural que as suas entrevistas e artigos incomodem a actual maioria política, medíocre, incompetente e subserviente em relação ao directório informal que nos governa a partir de Berlim. É natural que sintam o fel da azia quando um verdadeiro estadista os confronta com a impossibilidade de continuarmos por este caminho que nos arrasta para o abismo.
Estou à vontade para escrever este texto sobre Mário Soares pois várias vezes discordei das suas posições, mas nunca deixei de ver nele uma figura de referência da nossa vida democrática e um símbolo firme dos valores da laicidade e da ética republicana. Quando muitos se inclinam para a desistência por acharem que já não vale a pena e que o seu tempo activo já passou, Mário Soares ergue-se, como tantas vezes fez antes e depois do 25 de Abril, para nos lembrar que o direito à indignação é irrenunciável e intemporal e que as gerações futuras não deixarão de confundir a passividade de quem desiste com a cumplicidade e a falta de coragem. Perante a juventude valente deste homem que não deixa por terra a bandeira dos grandes valores da democracia, da solidariedade e da República, apetece voltar a dizer bem alto: Soares é fixe !

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3962 de 21 de Dezembro de 2012

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