“Nova” RTP, semana um
Bernardo de Brito e Cunha
À HORA A QUE ME DEITAVA a escrever esta crónica, chegou-me uma notícia do Sindicato dos Jornalistas a dar conta do facto de a Conferência “Pensar o futuro – um Estado para a sociedade” agendada para terça e quarta pelo primeiro-ministro fora proibida por ele mesmo de ter cobertura dos jornalistas. Estranha coisa esta – e certamente grave! – em que um primeiro-ministro pretende discutir o futuro do país mas à porta fechada. E nós, que já conhecemos a anatomia do bicho, como eu costumo dizer, dissemos logo que aqui não anda coisa boa. Mal vão as coisas, em Democracia, quando se passam à porta fechada e longe dos olhares da Imprensa: isto é geralmente sinal de que a Democracia anda, como o comércio em geral, a preparar-se para que lhe fechem as portas. Teremos de estar atentos e vigilantes, que este homem dá-me mau nome à terra, caramba!
Aparentemente arredaram-se da coisa todos os repórteres de imagem, todos os escribas e comentadores. Mas não só: também foram afastados aqueles que, eventualmente, se englobarão na designação com que o Presidente da Câmara desta Vila brindou António Faias quando lhe entregou a Medalha de Ouro “retratista da palavra”. Ora toma, Editor!
A PRIMEIRA SEMANA da nova grelha da RTP teve os seus momentos altos e mais baixos. O mais alto deverá ser a presença de João Baião, ainda sozinho, a fazer a “Praça da Alegria”. Mas esse facto acarreta outro — o de não poder fazer o “Portugal no Coração”, que foi entregue ao duo catástrofe, José Carlos Malato e Marta Leite Castro: ele é amiúde atacado de tolice aguda e ela é tonta, embora muita gente garanta que é uma inteligência. Pode ser que sim, mas então disfarça com uma categoria inaudita! Portanto, manhãs boas e tardes más: entre as duas um “Jornal da Tarde” sem alterações e, no espaço anteriormente ocupado por uma telenovela da Record verdadeiramente execrável (mas que seguíamos religiosamente cá em casa), a reposição de uma série portuguesa que dá pelo nome de “Velhos Amigos”. Mas o que é isto? Já não há decência nem respeito? Eu quero uma outra novela, seja de quem for, que seja igualmente execrável! Eu não quero a história dos três velhos amigos senis a lembrarem-me as figuras que irei fazer no futuro já tão próximo! Isto, garanto-vos, não é serviço público.
AS NOITES NÃO ME TÊM parecido basicamente más. Houve espaços de informação e debate que não perderam a vez e o entretenimento não me tem parecido mau. Uma série que dá pelo nome de “Sinais de Vida” e que é uma espécie de “Serviço de Urgência” mas alargado a veterinários. Tom sóbrio, boas actuações de onde saliento Dalila Carmo, que em tempos odiei mas sem quem, depois de uma certa novela, não posso viver. Exagero, mas não faz mal alimentar o ego da Dalila…
Outra coisa que se manteve e que eu aplaudo, como a grande maioria do povo português, foi “O Preço Certo”: aquilo não é um programa, é uma instituição! E ia-se acabar com o programa mais visto da RTP, logo a seguir ao “Telejornal” porquê? Nós, cada vez mais, vamos precisando de dar umas risadas – e Fernando Mendes faz isso melhor que ninguém.
O PROGRAMA “VALE TUDO”, de João Manzarra e convidados, não me desiludiu: foi exatamente a pepineira de provas avulsas que já só se usam em países de baixo QI, como os Estados Unidos. Mas também, numa noite de domingo em que até Luís Filipe Vieira conseguiu brincar (e com graça!) com Pinto da Costa, era difícil Manzarra ter-se safado…
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Já aqui falei da falta de ideias da SIC para compor uma grelha com o nível (ou pelo menos o sucesso) de outros tempos. Depois de uma coisa tépida que foi “O Meu Nome É Ágata” e que não conseguiu grandes resultados (ou aqueles que a SIC pretendia), a estação voltou-se para outro cantor. É que Ágata tinha posto determinadas condições que limitavam esse sucesso e o novo habitante da (sua própria) casa, parece disposto a tudo. É verdade que Toy é ligeiramente muitíssimo tosco; que as asneirolas lhe saem pela boca fora a uma velocidade estonteante; que os seus vizinhos de Setúbal alinham neste jogo com toda a serenidade. Tudo isto é verdade. E, se calhar, também é verdade que Toy, família e respectiva vizinhança, se adoram ver depois no ecrã, no dia seguinte. Mas seria exactamente disto que a SIC estava à espera? Mais ainda: seria exactamente daquele programa que a SIC precisava? Não me parece que seja assim que a SIC possa recuperar a liderança absoluta que deteve. E que, no ano passado, apenas se situou um décimo de ponto percentual à frente da TVI. Coisa pouca e efémera. Reina alguma inércia em Carnaxide.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3964 de 18 de janeiro de 2013

