José Jorge Letria
Na mesma semana em que Barak Obama iniciou o seu segundo mandato, teve estreia em Lisboa o filme “Lincoln”, de Steven Spielberg, grande candidato aos “oscars”, e conheceu-se na íntegra a entrevista do ciclista Lance Armstrong, dada na televisão à incontornável Oprah. Estamos em presença de três acontecimentos que ilustram a diversidade tantas vezes contraditória e chocante dos Estados Unidos da América. Isto para já não falar da carnificina de New Town em que um jovem gravemente perturbado roubou a vida, da forma mais brutal e inesperada, a crianças e adultos, dando origem à reabertura do indispensável debate nacional sobre o acesso dos norte-americanos ao uso e porte de arma, direito e liberdade que lhes são conferidos pela própria Constituição.
Não podemos esquecer que a mais rica e poderosa nação do mundo, grande vencedora da Segunda Guerra Mundial se tivermos em conta a forma como a vitória Aliada lhe franqueou as portas para o controle de grande parte do mundo, foi construída a cavalo e de arma na mão, sobre os restos fumegantes das tribos índias autóctenes e sobre as suas culturas seculares.
A América é como é e sabemos que, em nome da liberdade e da democracia, tem cometido e avalizado muitos crimes e abusos, desde o Irão nos anos 50 do século passado, que permitiu o regresso do Xá a Teerão, até ao derrube do governo da Unidade Popular de Salvador Allende, em 11 de Setembro de 1973, passando pela história violenta e turbulenta das ainda recentes intervenções militares no Iraque e no Afeganistão, que custaram a vida a milhares e milhares de pessoas.
Mas também é verdade que esta América, a do fanatismo evangélico, do criacionismo fanático e da pena de morte tem como contraponto muitos dos valores que homens como Abraham Lincoln erigiram como estandartes da liberdade, do progresso e da igualdade entre etnias e culturas. Mas teve de passar mais de um século para que um afro-americano conseguisse chegar à Casa Branca, e talvez tenha sido necessário eliminar fisicamente Osama Bin Laden para conseguir ser reeleito para a Presidência.
Mas este é também o país que idolatra os seus campeões, como o faziam os Romanos antigos, e depois tem dificuldade em conviver com a verdade quando descobre que o triunfo assentou no logro, na mentira e embuste, como aconteceu com Lance Armstrong, vencedor de sete Voltas a França e também de dois cancros, factos que lhe deram a dimensão de mito vivo e de símbolo de uma América triunfante. Confesso que também eu fui grande admirador de Armstrong, pela forma como venceu a adversidade e como marcou a história do ciclismo mundial. Mas imagino agora o que sentem os americanos, sobretudo os patrocinadores, e todos aqueles que passaram duas décadas a coroá-lo com os louros da glória e a dá-lo como exemplo insuperável aos europeus. Sentem-se certamente muito pior do que eu.
Entretanto, mesmo antes de ver o já incensado “Lincoln”, apresso-me a dizer que ninguém como os americanos soube transformar o cinema numa poderosa indústria, numa imensa fonte de riqueza e num insuperável instrumento de propaganda de um modo de vida: o famoso “american way of life”. “Lincoln”, mesmo com a liberdade de abordagem que sempre caracteriza o trabalho de Spielberg, já está a ser mais uma bandeira erguida no céu dos mitos imortais.
A Europa teve sempre sentimentos contraditórios em relação aos Estados Unidos, oscilando entre um pró-americanismo reaccionário e um anti-americanismo militante e agressivo. É verdade que sem a intervenção dos Estados Unidos muito dificilmente a Europa e o mundo tinha resistido à barbárie nazi. Mas é importante não esquecer os 20 milhões de mortos da União Soviética e o seu contributo para a vitória final e para o enterro da suástica.
Agora que Obama inicia o seu segundo mandato, há muitos temas de reflexão a exigirem tempo e ponderação. Um deles é a relação do Ocidente com o radicalismo islâmico, refractário a qualquer tipo de diálogo, mas também o crescimento económico da China e de outros países-potências. Esperam-nos anos incertos, tensos e conturbados e não podemos esquecer que foi nos Estados Unidos, em 2008, que toda esta crise avassaladora teve origem. Se tudo isto conjugado der para o torto, nem a pedalada de Lance Armstrong, reabilitado ou não, chegará para que o mundo escape ao colapso.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3965 de 25 de Janeiro de 2013

