Semanário Regionalista Independente
Sábado Junho 13th 2026

UMA VERGONHA NACIONAL CHAMADA BPN

José Jorge Letria

O caso BPN é uma chaga aberta na democracia portuguesa, na vida de todos nós e na própria credibilidade do Estado. Não é um caso, é um escândalo. Não é um caso, é uma vergonha nacional que irá continuar a penalizar as gerações futuras. E tudo leva a crer que não vamos ficar por aqui. Aos sete mil milhões que os Portugueses terão de pagar, somam-se agora mais mil milhões. E ninguém sabe ao certo quando esta inacreditável sangria financeira que humilha e fustiga os contribuintes irá terminar.
O exemplar trabalho de reportagem realizado por Pedro Coelho para a SIC mostra a extensão dos tentáculos do polvo e a verdadeira dimensão da fraude, que envolve figuras destacadas da nossa vida empresarial e pública, com destaque para conhecidos ex-governantes cujos nomes convém nunca deixar de ter presentes. Neste caso, como bem disse João Semedo, do Bloco de Esquerda, a melhor forma de assaltar um banco foi administrá-lo. O presidente da Administração por sinal até foi secretário de Estado de um governo de Cavaco Silva. E ficámos também a saber que tem com Gilberto Madaíl, ex-presidente da Federação Portuguesa de Futebol, vários factores de afinidade: ambos são de Aveiro, ambos são do PSD e ainda por cima estão ligados por laços familiares. Durante anos, a FPF foi largamente apoiada e patrocinada pelo BPN, conforme o seu ex-presidente reconheceu na reportagem da SIC.
Tudo isto dá muito que pensar e faz-nos sentir que, usando um aforismo português, estamos ainda longe de saber da missa a metade, embora o que se sabe acerca de “off shores”, milhões e milhões de empréstimos feitos a “fundo perdido”chegue e sobre para se falar de uma insuportável vergonha nacional.
É sabido e não consente desmentido que o PBN nasceu na esfera de influência e decisão política do PSD, o que explica que dirigentes desse partido apareçam envolvidos e comprometidos em toda esta trama inqualificável.
O PBN, escândalo que deixa a perder de vista qualquer outra fraude conhecida na história nacional, não é só um caso de polícia, é também um grave caso de política que deve ser levado até às derradeiras consequências para que os cidadãos consigam acreditar na política, nos políticos e também no poder judicial.
O BPN, enquanto vergonha nacional, não pode ficar-se pela criminalização de um ex-presidente, rosto visível de uma teia que chegou a Cabo Verde, a Porto Rico e a muitos outros lados e sobretudo a muitos bolsos sem fundo. É preciso encontrar os culpados e puni-los exemplarmente para se limpar a imagem do Estado e a dignidade dos Portugueses, tão duramente afectados por este “polvo” cujos tentáculos não cessam de se alongar, para assombro de que quem ainda tem capacidade de se indignar e revoltar.
E como se tudo isto não bastasse, o governo sujeitou-nos agora à suprema provocação de nomear um ex-administrador ligado ao BPN para uma Secretaria de Estado, sabendo-se como se sabe que o nome do banco no “curriculum” de um governante já constitui uma mancha que ninguém pode disfarçar ou ignorar, por mais que tente, até pela via da omissão curricular.
E que não se pense que a Europa que nos observa e avalia está desatenta ou indiferente em relação a este escândalo. Os Estados Unidos foram céleres e implacáveis na condenação de Madoff. Assim pudessem ser também os tribunais portugueses, apontando as baterias da investigação para quem merece punição exemplar. Roubados, vilipendiados e humilhados por este caso, os Portugueses dificilmente encontram as palavras certas para darem a medida exacta da sua revolta. O pior será quando as encontrarem e quando as palavras tenderem a transformar-se em actos.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3968 de 15-2-2013

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