José Jorge Letria
Stéphane Hessel partiu muito serenamente, durante o sono, aos 95 anos, depois de ter dedicado uma vida inteira à luta pela defesa dos direitos humanos. Nunca se aposentou desse combate, embora tivesse atingido há muito a idade para a merecida reforma da sua função como embaixador de França.
Os últimos anos de vida foram dedicados à publicação de pequenos livros como “Indignai-vos!”, que tiveram grandes edições em dezenas de países. As suas palavras combativas mas serenas conferiam a expressão justa e oportuna à revolta de milhões de pessoas exploradas e insultadas pela violência das ditaduras financeiras, pelo esmagamento do ser humano pelos números e pelos cifrões e pelo triunfo, pós queda do Muro de Berlim, das economias de casino, sobretudo depois do colapso de Wall Street, em 2008.
Li e vi várias entrevistas suas e sempre me impressionou a claridade do seu olhar e do seu sorriso, inesperada num homem que sofreu mais do que a maioria dos seus contemporâneos, já que esteve internado nos campos de concentração de Buchenwald e de Dora, escapando a uma condenação à morte e integrando-se depois nas forças da resistência francesa ligada ao general De Gaulle, de quem foi amigo e que profundamente o respeitava pelo seu exemplo e pela sua excepcional coragem.
Nascido em Berlim, filho do escritor Franz Hessel, emigrou com a família para Paris em 1924, ali tendo feito os estudos secundários e universitários. A figura do seu pai terá inspirado uma das personagens do livro “Jules et Jim”, de Pierre Roche, que depois deu origem ao filme do mesmo nome.
Terminada a Segunda Guerra Mundial, secretariou o comité de redacção da Declaração Universal dos Direitos do Homem, documento que nunca foi tão actual e de referência obrigatória. Depois desempenhou missões diplomáticas de grande complexidade, organizou associações de resistentes da Segunda Guerra Mundial, dinamizou intensas acções de solidariedade com os países e povos vítimas da violência, do racismo e do genocídio e nunca deixou de se bater, com a vitalidade e a energia de uma juventude a que nunca renunciou, pelos direitos humanos.
Essa terá sido a razão pela qual, quando muitos dos seus contemporâneos desistiram ou se aposentaram, ele permaneceu na luta, escrevendo pequenos livros de indignação e apelo à mobilização cívica que também em Portugal tiveram o merecido êxito editorial. Também foram publicadas biografias suas e livros com as suas entrevistas.
Recordo-me de ter visto uma dessas entrevistas dada à televisão suíça, quando ainda pouco se falava do seu nome junto do grande público, e de ter ficado fascinado com a sua lucidez, com o seu amor à liberdade, com a sua tocante bondade e com a sua persistente esperança no futuro da humanidade. Várias vezes ouvi o Dr. Mário Soares, seu admirador, citar o seu exemplo e a justeza do seu discurso humanista e solidário. O próprio Mário Soares, numa fase adiantada de uma longa vida de combate pela liberdade, representa um esforço semelhante ao seu no sentido de despertar e mobilizar consciências em tempo de crise profunda e de encruzilhada civilizacional.
Lamento nunca ter tido oportunidade de estar perto dele e de o poder cumprimentar, com a enorme admiração que o seu exemplo de vida e de luta em mim suscitava.
Escrevo esta crónica no final do dia em que mais de um milhão de pessoas voltaram a trazer paras as ruas, em dezenas de cidades portuguesas, o protesto, a indignação e a energia combativa de quem não aceita a perda da soberania nacional, a degradação social, a emigração forçada, a destruição da economia, a condenação de centenas de milhares de pessoas à exclusão e à miséria. O seu combate de sempre é o nosso de hoje. E continuará a sê-lo.
A enorme manifestação de 2 de Março de 2013 corresponde ao melhor do espírito indignado de Stéphane Hessel, resistente, militante dos direitos humanos e congregador de vontades, muito para além do espaço das ideologias e das zonas de influência partidária. Ele foi um homem da unidade e da resistência. De uma unidade ampla em que todos os que têm razão para estar indignados se sentem integrados, úteis e bem aceites.
Hessel foi também a demonstração viva e pujante de que não há limite de idade para o combate por aquilo que é justo, para um combate pacífico mas transformador, para um combate intemporal em nome dos valores e dos princípios que a Declaração Universal dos Direitos do Homem Consagra. Também por isso, poucos dias após a sua discreta despedida, esta enorme manifestação contra a arrogância das ditaduras financeiras e dos políticos insensíveis que destroem a economia e a soberania nacionais foi uma homenagem ao homem e à grandeza de uma vida de altruísmo e solidariedade. Em seu nome, todos teremos de continuar a dizer bem alto e sem hesitações ou ambiguidades: indignai-vos !
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3971 de 8 de Março de 2013

