Semanário Regionalista Independente
Domingo Abril 19th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Uma semana de coisas realmente espantosas

Bernardo de Brito e Cunha

FOI UMA SEMANA cheiinha de coisas surpreendentes – umas mais do que outras, naturalmente. Mas vamos por ordem cronológica: primeiro foi Miguel Relvas que apresentou a sua demissão. Fê-lo com um discurso bacoco, em que, ufano, nos garantiu que “a História me há-de julgar!”, muito ao jeito das aventuras de Emilio Salgari. Este homem está, de facto, muito atrás do seu tempo. E depois esperava-se que dissesse o porquê da demissão: não. Que era uma questão anímica. E daí até ao fim, foi relembrar os trabalhos efectuados: o ter carregado Pedro Passos Coelho, esse ingrato!, até ao cargo de primeiro-ministro; o esforço hercúleo que empenhou na eliminação atabalhoada de algumas freguesias; e, finalmente, a reestruturação efectuada na RTP. Mas que diabo de reestruturação foi essa que não se viu? Ah, deve ter sido estilo privatização da TAP: era para ser mas já não foi. Nem na altura da saída, a mesma em que já se sabia que a sua licenciatura era totalmente irregular, foi capaz de encarar a aldrabice e dizer “Vou-me embora porque não sou licenciado”. No meio disto, como foi realçado no programa “Governo Sombra”, há neste caso uma novidade: pela primeira vez um ministro (Nuno Crato) manda investigar a licenciatura de um colega seu (Relvas) e envia o relatório para a Procuradoria-Geral da República. É obra.

NA SEXTA-FEIRA saiu, finalmente, a deliberação do Tribunal Constitucional. Não sei porque é que, logo a seguir, o governo se mostrou surpreendido. Ó alminhas: então se este ano cometeram o mesmo erro que o ano passado e, nessa altura, a coisa tinha sido chumbada (embora com atenuantes, dado que o ano já ia mais avançado), que esperavam estes crânios? Mais surpreendente ainda foi a reacção de Pedro Passos Coelho na sua comunicação ao país: o Tribunal Constitucional será, “doravante e pró futuro” o responsável por todas as calamidades, quiçá pela desintegração europeia e o desaparecimento do euro. Tudo o Tribunal Constitucional: o governo, ‘tadinho, está impoluto e ia no bom caminho. É pena que os números não digam isso (aliás, que digam exactamente o contrário) mas serão certamente as fontes que estão enganadas…

NO CAPÍTULO referente à estreia dos comentários de José Sócrates, uma referência especial a Cristina Esteves, a jornalista que lhe colocou as questões. Não por ser bonita e simpática, que isso não vem ao caso, mas por ser uma jornalista que não se limita a colocar as questões. Coloca-as, mas depois escuta, sem interromper – caramba!, mas que diferença de estilo para a sua antecessora Judite! E isso é uma coisa tão rara de ver que merece uma menção e um parágrafo especial, porque a isto se chama competência. E não será coisa despicienda dizer que Cristina Esteves está na RTP há uns 20 anos – deve ter ido para lá pequenina – e foi puxada para o papel de pivô pela mão de Nuno Santos.

QUANTO A JOSÉ SÓCRATES, acho que esteve durante aquela meia-hora completamente sereno, usando a sua reconhecida capacidade de comunicação e, contra a vontade de alguns, convincente. Cristina Esteves deu corpo à vox populi e colocou-lhe frontalmente a questão que tenta pôr em paralelo a falsa licenciatura de Relvas e a sua qualificação universitária. José Sócrates respondeu: “Pois é. E isso ofende-me. Aqueles que dizem isso agem apenas de má-fé. Eu não sou filho do insucesso escolar: fiz o 7.º ano com 16 anos, fui para Coimbra estudar no Instituto Superior de Engenharia e fiz o meu curso de engenheiro em quatro anos, como era exigido. Nunca chumbei um ano. Mais tarde decidi completar a licenciatura: inscrevi-me no ISE de Lisboa, onde fiz mais um ano e depois fui para a Universidade Independente. Isto é, estive seis anos no ensino superior e nunca tive nenhuma cadeira que me tivesse sido dada por equivalência.”

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Três jornalistas foram mortos, terça-feira, em Bagdad, em dois incidentes separados envolvendo forças norte-americanas na ofensiva à capital iraquiana. O repórter de imagem da Reuters Taras Protsyuk, de 35 anos de idade, foi morto por um tiro de obus de um tanque norte-americano disparado sobre o Hotel Palestina onde trabalhava e que reúne grande parte dos jornalistas destacados em Bagdad, incluindo Carlos Fino e o repórter de imagem Nuno Patrício, ambos da RTP. José Couso, de 37 anos, operador de câmara do canal ”Tele 5” da televisão espanhola foi ferido nesse ataque, acabando por falecer no hospital. Um outro operador de câmara, Tarek Ayoub, da “Al Jazeera” foi morto durante a manhã, um pouco antes do incidente no hotel, quando uma bomba largada durante um raid aéreo norte-americano acertou nos escritórios da estação do Qatar na capital iraquiana. O ministro da Defesa espanhol, Frederico Trillo, deu instruções ao general que se encontra no Kuwait para que peça explicações aos Estados Unidos sobre o ataque contra o Hotel Palestina. Não sei se José Maria Aznar as vai aceitar: mas sei que ao fim de 20 dias de guerra ainda não surgiram indícios de armas de destruição maciça – do lado do Iraque.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra ed. 3976 de 12 de Abril de 2013

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