José Jorge Letria
Foi há 100 anos, em Abril de 1913, que nasceu Raul Rego, figura de referência da oposição à ditadura de Salazar e Marcello Caetano. Nasceu no mesmo mês em que o PS, de que foi um dos fundadores, foi criado na então República Federal Alemã, no ano de 1973, ou seja, cerca de um mês antes do derrube da ditadura em 25 de Abril de 1974.
Falar da sua vida e da sua personalidade é uma forma justa de evocar o combate contra a opressão e a falta de liberdade, compromisso que nunca teve medo de assumir, com todas as consequências que daí poderiam advir. Muitas vezes as sofreu ao longo a vida, sem desânimo ou capitulação.
Tive o privilégio de trabalhar com Raul Rego ainda na redacção do “Diário de Lisboa” e depois no “República”, que dirigiu desde que saiu do “DL” e até ter assumido a pasta da Comunicação Social no I Governo Provisório chefiado por Adelino da Palma Carlos, logo após o 25 de Abril. Sempre admirei a sua frontalidade, rectidão e sentido de fraternidade.
Depois de ter frequentado, durante anos, o seminário e de se ter formado em Teologia, não aceitou ser ordenado padre e acabou mesmo, como republicano, maçon e socialista por assumir claras posições anticlericais, facto que nunca escondeu e que era enfatizado pela sua personalidade combativa e pelo irrenunciável sentido de justiça que o levava a opor-se aos poderes que ajudaram a perpetuar a ditadura em Portugal durante quase cinco décadas.
A sua vida profissional foi construída nas redacções de jornais como o “Diário de Lisboa”, o “Jornal de Comércio”, a “Seara Nova”, o “República” e “A Luta”. Homem da escrita e da comunicação, aceitou ser responsável pelos serviços de Imprensa das candidaturas de Norton de Matos e Humberto Delgado à Presidência da República.
Já depois do 25 de Abril, Raul Rego foi grão-mestre do Grande Oriente Lusitano, tendo-se sempre assumido como herdeiro e continuador da grande tradição republicana da maçonaria, que era de figuras como Aquilino Ribeiro, com quem manteve uma longa relação de amizade e diálogo intelectual e de quem sempre me falou com admiração e saudade.
Recordo-me bem de o ver sair do “Diário de Lisboa” e do “República” ao fim da manhã para ir cavaquear nas livrarias do Chiado com os seus companheiros de tertúlia intelectual, de que fizeram parte figuras como Jaime Cortesão ou António Sérgio, que muito o estimaram pela sua coragem, seriedade e firmeza de convicções.
As duas edições do seu “Diário Político” ( uma da Arcádia e outra de autor) são fundamentais para se reconstituir o quotidiano da resistência à ditadura durante décadas. Raul Rego foi um dos símbolos, na legalidade, desse combate em que nunca cedeu ou pactuou, por fidelidade às convicções que o animavam. E tenho sempre presente a imagem do homem de baixa estatura, de boina preta na cabeça, com livros debaixo do braço e com a rija têmpera dos homens do Portugal profundo que fizeram os Descobrimentos e que acrescentaram mundo e sabedoria a esta pátria soberana no extremo ocidental da Europa.
Quando se fala da sua obra, é obrigatório referir dois títulos fundamentais: “A História da República”( edição do Círculo de Leitores) e “O Processo de Damião de Góis” (edição da Assírio & Alvim), representando ambos o labor intelectal de um investigador que nunca desistiu de ler, estudar e desbravar caminhos para outras gerações de investigadores, mas também para formar mentalidades e celebrar o supremo valor da liberdade.
Dele, no quadro de uma relação pessoal sempre marcada por uma grande cordialidade, guardo várias e gratas recordações: a do director do “República” sentado na secretária de um velho gabinete onde as pilhas de livros e de jornais quase não nos permitiam saber se estava presente ou se já rumara às livrarias do Chiado, a do candidato da oposição a enfrentar os agentes e os provocadores da PIDE numa histórica sessão num teatro de Lisboa, a do militante oposicionista a ser perseguido nas ruas de Aveiro durante o Congressso da Oposição Democrática em Aveiro, em Abril de 1973, em que ambos acabámos escondidos no quintal de uma vivenda para escaparmos à fúria dos cães-polícias e do polícias-cães, com ordens expressas para varrerem tudo o que encontrassem pela frente, nessa manhã em que pacificamente rumávamos ao túmulo do escritor Mário Sacramento, outro símbolo da resistência à ditadura, ou ainda a do homem que, no dia em que soube que ia ser nomeado ministro da Comunicação Social do I Governo Provisório, esteve de forma serena e humilde a deixar assuntos encaminhados e devidamente delegados na redacção do “República”, como se fosse apenas mais um dia da sua vida. Mas recordo também o frequentador de alfarrabistas, onde muitas vezes nos encontrámos, sempre em busca de velhas edições e de documentos raros, sobretudo os que tivessem a ver com o processo de Damião de Góis e com a Inquisição.
Agraciado com a Ordem da Liberdade depois do 25 de Abril e, antes disso, com a Pena de Ouro de uma prestigiada associação europeia de imprensa, Raul Rego não era homem que se deixasse embriagar pela vaidade ou pelo vã glória, que os seus hábitos de homem simples e combativo nunca se alteraram, dentro ou fora do poder, designadamente nos muitos anos em que foi deputado, primeiro à Constituinte e depois à Assembleia da República, amigo do seu amigo e fiel aos seus ideais.
Quiseram as voltas da vida e do pensamento livre que os nossos caminhos se afastassem, mas nunca tal representou crispação ou indisponibilidade para o diálogo, e era um estimulante exercício intelectual poder discutir com ele ideias e opiniões, desde que fossem válidos e sérios os princípios em que assentavam. E nunca o ouvi utilizar argumentos de autoridade para impor a sua razão. Foi, a par de Urbano Tavares Rodrigues, Luís de Sttau Monteiro, Álvaro Guerra, Vítor Direito ou Fernando Assis Pacheco, uma das pessoas que deixaram marca na minha memória de jornalista e de cidadão comprometido com os grandes combates políticos, cívicos e morais do meu tempo.
Por isso lhe dedico esta evocação, em pleno mês de Abril, assinalando a passagem do seu centenário e associando sempre a memória que dele guardei aos valores inalienáveis da liberdade e da ética republicana e desejando que o seu exemplo de homem íntegro e de combatente contra todas as formas de opressão possa ajudar a formar a consciência e o quadro de valores que orienta as gerações de jovens que hoje se juntam ao combate por um Portugal livre, solidário, tolerante e soberano. Honra e glória a um combatente da liberdade e símbolo da ética republicana.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3977 de 19 de Abril de 2013

