José Jorge Letria
Morreu Margaret Thatcher e, até na morte, gerou polémica, divisão e conflito, timbres incontornáveis de um modo de estar na vida e na política. Dela se disse com frequência que não era pessoa de consensos, mas sim de convicções. É visível que nunca foi de consensos, ganhando, por isso, o título de “dama de ferro”, para além do nobiliárquico de baronesa. Tornou-se um ícone da direita europeia e não só, que nunca esqueceu a forma como enfrentou e derrotou o movimento sindical britânico, como instaurou num país de sólida tradição estatal a febre privatizadora, como virou pobres contra ricos, como alimentou o projecto belicista das Fawlklands /Malvinas e como acabou por ser compulsivamente afastada pelo directório do seu próprio partido. Nessa altura, Thatcher terá dado razão a Winston Churchill quando disse que “os nossos adversários estão nos outros partidos e os nossos inimigos nas fileiras do nosso”. Os seus delfins acabaram por ser os executores da sua sentença, a começar por John Major, em que tanto tinha confiado e apostado.
Na hora da sua morte, é importante que se recorde que foi da convergência de vontades políticas de Margaret Thatcher e de Ronald Reagan, dois amigos para a vida e para a morte, que nasceu a conjuntura política, económica e financeira internacional que levou à queda do Muro de Berlim, à ideia de que o sistema capitalista triunfante seria o senhor absoluto do mundo, numa lógica perigosamente unipolar, e à abertura de portas para o terrorismo do grande capital financeiro que originou a crise que hoje enfrentamos e que põe em causa o futuro da humanidade. Na realidade, foi dessa aliança que resultou uma nova correlação de forças internacional que acabou por gerar o perigoso desequilíbrio que hoje ensombra a cena internacional, enfraquecida pela falta de líderes à altura capazes de encontrarem alternativas e resposta. O período da governação de Tony Blair, de algum modo resposta dos britânicos aos excessos da “dama de ferro”, mostrou não ser a solução certa, já que a chamada “terceira via” mais não fez do que tentar conciliar o inconciliável, indo de cedência em cedência até às portas do neoliberalismo.
Com a direita no poder em Londres, logo a morte da ex-Primeira-Ministra foi convertida numa oportunidade única para o fortalecimento de um governo fraco em tempo de crise e para a criação de uma bandeira de combate para os tempos conturbados que vivemos na Europa e no mundo. O problema é que Thatcher, que queria uma despedida discreta, acabou por custar aos cofres do Estado dezenas de milhões de libras gastos na pompa e na circunstância de um funeral de Estado, talvez só semelhante, no aparato, ao de Winston Churchill, esse sim um herói da luta pela liberdade contra a barbárie nazi.
Entre a morte de Churchill e a da “dama de ferro” morreram outros seis ex-primeiros-ministros, mas nenhum teve este aparato na hora da partida e ainda menos a presença da rainha que, esquecendo o seu dever de isenção e equidistância, deu, com a sua presença nas exéquias, um claro aval ao modelo ideológico que Thatcher corporizou e, consequentemente, à maioria que a reivindica. Não foi uma atitude correcta e muito menos louvável.
É curioso verificar que quem afirma que a dicotomia direita-esquerda deixou de existir é justamente quem gosta de personalidades como a de Margaret Thatcher e representa a forma mais sofisticada da ideologia conservadora nos tempos que correm. Na realidade, nunca a oposição entre direita e esquerda foi tão nítida e tão intensa, o que resulta do facto de nunca as assimetrias sociais e económicas, a injustiça social e a pilhagem feita pelo grande capital financeiro terem sido tão chocantes como são hoje.
E também não é possível esquecer que Margaret Thatcher foi incondicional admiradora do ditador fascista chileno Augusto Pinochet, que apoiou de várias formas durante o período que passou em Londres, já a braços com a justiça internacional. Lamentavelmente, este pormenor da sua biografia não foi devidamente sublinhado enquanto a encenação fúnebre se desenrolava.
Para quem acredita num mundo solidário e tolerante, Thatcher não pode deixar saudades, por muito grandes que possam ter sido a sua determinação e o seu talento político. Na realidade, momento inesquecível para quem não gostou do seu modelo de governação foi aquele em que teve cerca de 24 horas para se despedir do nº 10 de Downing Street, saneada pelos seus próprios correlegionários.
Até na morte, Margaret Thatcher conseguiu dividir os britânicos e a opinião pública mundial. Haverá quem diga que esse foi, até na despedida, um dos seus méritos. Pela minha parte, defendo a ideia de que são figuras como esta que abrem as portas para a guerra, para a injustiça social e para a destruição da solidariedade do Estado com os cidadãos. Não sei o que disse a Srª Merkel sobre esta morte, mas é bom que se perceba que está ali a nova “dama de ferro” da Europa e que, com a sua liderança, tudo pode ainda acabar de forma trágica.
Crónica publicada na edição n.º 3978 de 26 de Abril 2013

