As maratonas das tardes de domingo
Bernardo de Brito e Cunha
ESTA COISA dos programas longos não tem memória no passado televisivo português. Claro que Júlio Isidro apresentou programas nas tardes de domingo que eram extensos, mas nada que se compare ao que agora vemos. Tomemos o último domingo como exemplo, e a estação TVI: o Somos Portugal, que todas as semanas assenta arraiais num local diferente do país – e “assentar arraiais” parece-me a expressão mais correta, dadas as circunstâncias temporais – teve, nada mais nada menos que a duração de 292 minutos e mais uns 12 segundinhos. É uma coisa épica, que bate as tardes de Júlio Isidro em que não havia alternativa. Agora, no entanto, e por mais que se goste daquele Somos Portugal, o programa dá para ir à casa de banho, dá para ir ao café – dá mesmo para ir ao cinema. E não é por acaso que falo de cinema, que só eu sei a dificuldade que tive em encontrar, em todo o fim-de-semana, um filme que se pudesse ver, nas televisões nacionais.
A RTP DECIDIU que também não podia ficar atrás e cá vai de apresentar A Festa da Flor 2013, em directo da Madeira. Mas foi coisa comedida, apenas com três horas e seis minutos, num esforço glorioso (sem que o adjetivo tenha outras segundas leituras) de João Baião, pois quem mais havia de ser? E parece que a SIC anda a roer-se com estas transmissões de longa duração, e prepara uma coisa chamada Splash!, ou coisa que o valha. Mas convém recordar que este Somos Portugal, que agora passa em força na TVI, não é mais do que uma réplica do SIC ao Vivo do passado recente da SIC ou até mesmo do Verão Total da RTP. À frente das maratonas da SIC vão estar Rita Ferro Rodrigues e José Figueiras: e embora perceba as intenções da SIC, tenho dúvidas de que este mimetismo resulte. Uma coisa tenho de reconhecer à estação de Carnaxide: o facto de ter resistido à tentação de combater programas menores, ao fim de semana, com episódios da novela Dancin’ Days. É verdade que a SIC não tinha a certeza de lhes ganhar, com esses episódios: e preferiu perder dois dias nas audiências e ganhar os restantes cinco. Parece-me uma política cautelosa.
COMO É ÓBVIO, um destes dias voltarei à novela Avenida Brasil, a respeito da qual ando calado há muito tempo. Entretanto, quero apenas referir que há uma noção na SIC de que Avenida Brasil é melhor do que Dancin’ Days, e que esta última é mais “fácil” de seguir. Avenida Brasil não é uma novela que se apanhe aqui e ali, ou daqui a dois dias: vê-la por alto pode corresponder a perder alguns dos melhores momentos de televisão (escrita, realizada e interpretada) dos últimos 15 anos. Gabriela era um texto maravilhoso, este é um épico urbano (ou suburbano) que não chegou a ser livro. Mas, dizia, há uma noção na SIC de que Avenida Brasil é melhor do que Dancin’ Days, embora não tenha os mesmos resultados de audiências, no meu entender por uma questão de horário. E essa noção é tão clara como isto: quem são os grandes convidados dos Globos de Ouro do próximo domingo? Albano Jerónimo e Soraia Chaves? Obviamente que não: Murilo Benício e Débora Falabella – de Avenida Brasil… Bem podiam ter trazido também Ísis Valverde, mas isso já é uma outra história.
O PROGRAMA da última terça-feira de “Você na TV”, de Manuel Luís Goucha e Cristina Esteves, marca a entrada da dupla naquilo que se poderia designar como a “televisão escatológica”. Primeiro tema do programa, para quem ainda nem está bem acordado: a tentativa de confirmar, com entrevistas de rua, um estudo científico que declara que não há dois “puns” iguais. Assim, sem mais. Os flatos, parece, são como uma segunda impressão digital, não há dois iguais… Veio até um médico especialista em intestinos dizer coisas, no meio de grandes risos, claro está. O país atravessa uma crise; as pensões correm o risco de ser cortadas; as pessoas passam cada vez pior – e a TVI discute flatos, a sua qualidade, intensidade e cheiro. A célebre frase “é só fumaça” tem de ser reformulada e passar a ser “é só gases”…
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Para variar, Luís Osório, que tem sido responsável por alguns dos melhores programas da RTP – geralmente na 2 –, surgiu na terça-feira integrado na série mensal “12 meses 12 temas”. O tema do mês de Maio tem como designação “As Doenças dos Nossos Tempos” e este tinha um cunho muito pessoal. Frente a Luís Osório estava José Manuel Osório, seu pai, que foi atingido pelo vírus da sida em 1984 – há quase 20 anos, portanto. O mais interessante é que a relação entre pai e filho (ou vice versa) era distante, não se percebendo nunca porquê, isto é, nenhum deles o explicou. Não era isso que interessava, de resto: e foi um relato quase comovente, os pormenores contados (confessados?) pelos dois.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3981 de 17 de Maio de 2013

