Do monopólio do futebol e outras surpresas
Bernardo de Brito e Cunha
JULGO QUE JÁ toda a gente percebeu que o futebol em sinal aberto foi chão que deu uvas, o que é pena, porque o futebol, para além de ser extremamente popular, ainda parece ser uma das poucas coisas que nos reúne enquanto povo. Apesar disso, a componente económica parece ser demasiadamente pesada para que as televisões nacionais consigam repetir aquilo que aconteceu na época 2011-12, com a transmissão de um jogo semanal pela TVI e os restantes no canal de cabo da SportTV. Ver um jogo de futebol neste momento implica que as pessoas assinem um serviço básico de cabo (que, por mais básico que seja, sempre custa alguma coisa: digamos, sem certeza de números, um mínimo de 10 euros) e que, depois, assinem a SportTV: e lá vão mais 30 euros. Não esqueçamos que muitas dessas pessoas que gostariam de ver um joguito ainda não há muito tiveram de comprar um aparelho para se adaptarem à TDT… Portanto, ver um jogo (ou mais) por semana custa, no mínimo, 40 euros. Por mês. Ou ainda, 480 euros por ano.
A COMPONENTE ECONÓMICA de que falo acima implica, também, pagar aos clubes pela transmissão dos seus jogos. Mas imaginemos que um clube acha que aquilo que a SportTV lhe oferece em direitos não é bastante. E, como a SportTV não dá mais, o clube não renova o contrato. Faz mais, ainda: prepara-se para transmitir os seus jogos (e mais alguns de outros clubes estrangeiros) num canal próprio. A pagar, claro está: e lá vão mais 10 euros por mês, ou 120 por ano. Vemos assim que quem quiser acompanhar todos os clubes da primeira liga é melhor pôr de lado 600 euros. Estarão os portugueses em condições de pagar esta quantia? Julgo que a maior parte não. Será talvez por isso que aquele que se intitula “o maior clube do mundo” em número de sócios, apenas conseguiu 80 mil assinantes para o seu novo canal. Até agora. Talvez vá um pouco mais longe, mas isso terá certamente consequências a nível de bilheteira do estádio.
DESDE A ÉPOCA de 2011-12 que as televisões em sinal aberto tentam combater, de alguma maneira, este estado de coisas. E deitam mão ao que é possível: a RTP, a tudo o que é jogo da Selecção, o que me parece correcto; a SIC transmitiu, na época passada, os jogos da Liga Europa; a TVI os da Liga dos Campeões. Ainda sobra a Taça da Liga, a Taça de Portugal e mais uma série de minicampeonatos que se vão inventando. Não será de estranhar, portanto, que em Junho a RTP tenha transmitido a Taça das Confederações, em directo do Brasil (com a RTP Informação a transmitir dez jogos em directo, o que já é mais discutível: “RTP Informação” ou “RTP Desporto”?). O mesmo aconteceu neste último fim-de-semana, com a Taça de Honra da Associação de Futebol de Lisboa, que compreendia quatro jogos. Os “principais”, se assim se pode dizer, foram transmitidos na RTP 1: os outros dois na RTP Informação. Não me parece que faça muito sentido que o serviço público de média pago pelos contribuintes sirva para financiar um canal informativo que ocupa horas com futebol.
O QUE DEVERIA acontecer não era exactamente nacionalizar o futebol e pô-lo todo no canal público. Mas seria qualquer coisa deste género: considerar a importância do futebol para a população, sobretudo em momentos como os que atravessamos, e de se lhe poder dar uma pequena satisfação, transformando um jogo em serviço público e transmitindo-o em sinal aberto, fosse em que canal. Mas parece que este governo não conhece maneira de pôr cobro aos monopólios. Nem sequer aos do futebol.
FALA-SE MUITO da “Academia RTP”, mas julgo que se vêem poucos resultados. Aconteceu um dia destes, sobre a forma de um telefilme, realizado por Francisco Ferreira. Um filme curioso, de resto: dois amigos de infância partilham uma visão particularmente crítica sobre o funcionamento da sociedade. Grande parte do dia são funcionários de um videoclube, de forma a obterem algum rendimento financeiro mas dedicam-se a um negócio paralelo de venda de droga, usando o estabelecimento como fachada. Fiquei acordado mais um pouco: porque merecia e porque passou tarde…
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«A fidelização de audiências faz-se através dos horários certos, do cumprimento do “de segunda a sexta”, coisas assim e desta natureza. E não foi à toa que escrevi “de segunda a sexta”: foi exactamente a pensar em “Kubanacan”, que não será a quintessência das novelas a que Marília se referia, mas que é um produto decididamente destinado ao divertimento puro e simples – tal como já o fora, antes dela, “O Quinto dos Infernos”. Acontece que a SIC nos prometeu “Kubanacan” de “segunda a sexta”, mas a verdade é que decidiu alterar essa ordem de exibição na última terça-feira, com a estreia de um programa também de entretenimento, embora mais apalhaçado, de seu nome “A Culpa É do Macaco”. Pelo título se notará, mesmo aqueles que são mais distraídos, que a coisa já não prometia nada de bom, mesmo antes de ter começado.»
(Esta crónica, por desejo do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3991 de 26-7-2013

