Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Maio 5th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Uma visão distorcida de televisão

Bernardo de Brito e Cunha

FUI UNS DIAS para longe e, quando voltei, estava tudo do avesso. Como é possível que os três canais generalistas estejam, antes das estreias das suas provas de fundo – Big Brother, Factor X e outras novidades que tais – como é possível, dizia, que estejam a apresentar mais de uma dúzia de horas de telenovelas por dia? Mas é para isto que servem as televisões? Resta a consolação de a participação do canal público, neste campo, ter um papel minúsculo: pouco mais de uma hora – mas não creio que as coisas fiquem por aqui e, sobretudo, neste estado.

MESMO DEPOIS de Avenida Brasil ter acabado nos primeiros dias deste mês e de as personagens que durante cerca de um ano fizeram parte da vida dos portugueses terem passado a ser apenas uma memória excelente, outros protagonistas, igualmente com um sotaque brasileiro, apareceram no seu lugar, em Amor à Vida, e também já são acompanhados por milhão e meio de pessoas. Parece estar provado que uma dose (e uma receita) certa de novelas faz a diferença entre o primeiro e o segundo lugar no ranking diário das audiências. Os números assim o têm ditado.

AINDA NO TEMPO do monopólio da RTP, para quem ainda se lembra disso, as produções da Globo eram soberanas, embora tivesse havido algumas experiências mal sucedidas de tentar fazer a coisa com os meios e actores portugueses. Quando a SIC entrou no mercado, em 1992, levou a Globo para fora da televisão estatal e passou ela a exibir as tramas brasileiras. E os telespectadores mudaram de canal. Só no início deste século, a TVI descobriria que as produções nacionais podiam arrecadar enormes audiências. Aos poucos, os portugueses trocaram os dramas brasileiros pelos nacionais e atingiram-se recordes inimagináveis. A produção de novelas deixou-se de experiências avulso e criou uma indústria. Até que, no ano passado, a excelência da Globo voltou a cativar os portugueses que se renderam às histórias brasileiras e assim levaram a SIC de volta ao topo do prime time (20h-23h), de onde tinha saído havia uma década.

A ESTRATÉGIA não é nova, mas a rentrée, neste Setembro, ficará marcada pela estreia de sete novelas, nos três canais generalistas. Quatro são produções nacionais, a que se soma Sol de Inverno, a aposta anual, com carimbo SP, que já foi para o ar a partir de segunda-feira, 16, em simultâneo com Dancin’ Days. A RTP, pela primeira vez em muitos anos, produziu uma novela, que também já começou a ser exibida desde o dia 16, mas ao meio-dia, criando um novo segmento horário para este tipo de produto. Os Nossos Dias vai contribuir para quebrar o formato day time (a Praça da Alegria acaba agora mais cedo) que vigora nas generalistas.

A TVI, por sua vez, continua na mesma linha, estreando duas produções cem por cento nacionais: I Love It, que se dirige a um público mais jovem, ocupando, ao final da tarde, o lugar de Doida por Ti (que passa a semanal, aos sábados), e Belmonte, que se baseou no original chileno Hijos del Monte. Mas até ao final do ano, a TVI estreará ainda outra novela para substituir Mundo ao Contrário. E é assim que entre as novelas que começam e aquelas que ainda caminham para o seu final, as televisões privadas nos dão seis horas de novelas por noite… A caixa que mudou o mundo, creio, não o mudou à base de ficção: e será muito provavelmente por isso que, cada vez mais, as pessoas se voltam para a televisão por cabo onde, ao menos, encontram bons filmes e belíssimas séries. Alguém se lembra do que é uma série, sem ser lá para a uma e tal da manhã?

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Sei que isto pode parecer um pouco estranho do ponto de vista televisivo, mas a semana foi dominada pelo regresso do calor e dos incêndios, do “Herman SIC” e por um indivíduo que dá pelo nome de José Castelo Branco, umas vezes grafado com hífen entre o Castelo e o Branco e outras não. Que todos os males fossem esse, o do hífen, de resto. Os incêndios, ou o seu renascimento, tiveram essa consequência inevitável que foi apanhar as populações ainda mal refeitas do surto anterior: e, nessas alturas, paga quem estiver mais à mão. Foi o que aconteceu a uma equipa da SIC que filmava mais um incêndio e o combate dos populares ao mesmo. Coisa trivial, nos tempos que correm. Só que, desta vez, um dos habitantes se voltou para a câmara e perguntou: “Não têm mais nada para filmar? E se fossem à procura de um balde e ajudassem?” E foi o que a equipa da SIC fez. Não ficaram, naturalmente, imagens para o documentar, mas ficou o gesto.»
(Esta crónica, por desejo do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3995 de 20 de Setembro de 2013

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