Semanário Regionalista Independente
Sábado Junho 13th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Outras notas, outras músicas

Bernardo de Brito e Cunha

JÁ HÁ 10 ANOS que andávamos nestas marmeladas das músicas e das vozes. Os formatos diferem: há 10 anos era o “Ídolos” na SIC e a “Operação Triunfo”, na RTP, como se pode ver pelo último bloco desta coluna. E eram coisas diferentes, para lá das desigualdades nesse local apontadas: o “Ídolos” parecia ser uma coisa de amadores, quem viesse mais preparado de casa era bem capaz de ganhar. Já a “Operação Triunfo” era outra coisa: os candidatos estavam numa escola, em regime de internato, com professores de música e, aqui, quem aproveitasse mais, melhor se sairia. Hoje temos, na SIC, o “Factor X”: quem tiver essa variável x, então bem pode ser a sua hora. Difícil, mesmo, é ser capaz de saber o que pode ser esse “x”: é qualquer coisa que o parceiro do lado não tem, e que separa o concorrente de todos os outros. Depois é uma questão de sorte – se o júri deixar…

AH, POIS: o júri. Não se pode dizer que a SIC, nos programas deste género, tenha muita sorte: basta recordar as duas primeiras séries de “Ídolos”, com os jurados Luís Jardim, Ramón Gallarza, Sofia Morais e Manuel Moura Santos, em que este último desancou verbalmente uma Luciana Abreu que dava os seus primeiros passos. Os dois primeiros elementos ficaram espantados com o vozeirão da moça, o nosso Manuel terá iniciado nessa noite aquilo que se veio a tornar a sua imagem de marca: “não sei o que vieste cá fazer”, “olha-me este cromo” e por aí fora. Apesar de tudo, a SIC manteve-o no júri do programa por não sei quantas edições. É força de expressão, isto, que sei muito bem quantas foram: cinco. Na terceira e quarta com MMS, Roberta Medina, Laurent Filipe e Pedro Boucherie Mendes, e, na quinta, com o mesmíssimo MMS, Bárbara Guimarães, Pedro Abrunhosa e Tony Carreira. E em todas elas deixou marca, por ser gratuitamente achincalhante.

O JÚRI DO “FACTOR X” é agora constituído por Sónia Tavares, Paulo Junqueiro e Paulo Ventura. A primeira é vocalista do grupo The Gift e já ganhou prémios como o Globo de Ouro para Melhor Banda, assim como o prémio MTV na categoria de Melhor Banda Portuguesa em 2005. Paulo Junqueiro é Director Geral da Sony Music Portugal, daí que não seja de estranhar que o vencedor grave um disco na sua editora… Já conquistou um Grammy Award de “Melhor Álbum de World Music”, em 1998, enquanto produtor do álbum “Quanta Live” de Gilberto Gil. Paulo Ventura é, talvez, o menos classificado musicalmente: desenvolve e gere carreiras de artistas, e produziu alguns dos mais relevantes festivais portugueses. Daqui a avaliar vozes e posturas vai um passo muito grande, daí ele se ter revelado até agora o mais fracturante e controverso da troika de jurados.

MAS O QUE importa agora dizer é que este tipo de concursos tem duas faces, e já me tenho referido a elas bastantes vezes. Por um lado, já sabemos que isto não leva a nada, em termos de carreira. É certo que o vencedor grava um disco mas… e depois? Alguém se lembra de um ganhador que tenha feito carreira, excluindo Sara Tavares e todos aqueles que saíram da “Operação Triunfo” e lá foram representar-nos à Eurovisão, quando ainda havia dinheiro para isso? Onde estão as grandes vozes que ouvimos nesses concursos? Porque essa é a outra face: aparecem aqui, de facto, grandes talentos. Mas vemos as outras grandes vozes e ali estão elas a fazer coros e a abrilhantar concursos. Fraca paga…

É COMUM, em algumas pessoas, confundirem certas formas dos verbos “vir” com as do verbo “ver”. Foi o que aconteceu com Sónia Tavares, quando se despediu do cantor (eis aí um desses grandes talentos que estes concursos descobrem) Teófilo Sonnemberg. O que ela queria dizer, suponho, era “vemo-nos amanhã”.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«(…) aquilo a que chamam pomposamente “Ídolos Diário” não passa de uma repetição de imagens e sons que já vimos mais do que uma vez. Pelo contrário, temos a “Operação Triunfo”, que labora no erro contrário. É um programa onde todos os dias acontecem coisas, em que as câmaras estão lá, mas depois… Não tem diários, a “Operação Triunfo”? Claro que sim. Mas, como é habitual na RTP, mal aproveitados, atirados para horas inconcebíveis, sobretudo se atendermos ao facto de que a “OT” é o melhor programa que a RTP tem neste momento para nos mostrar. Então, se o é, que no-lo meta pelos olhos adentro, a toda a hora e minuto. Mas não. E que faz ela? Atira-os para horas completamente inacreditáveis. Vejamos o dia de hoje: a RTP prevê dois blocos (naturalmente será apenas um e a sua repetição), um às 17:30, hora a que a maior parte da população trabalha, e o outro às 03:00 da manhã, hora essa (ora essa?!?) a que grande parte do povo já dorme a sono solto. Sendo que esse bloco diário tem apenas uns 25 minutos, será que dava cabo das contas todas se fosse para o ar logo a seguir ao “Telejornal”? Não me parece que viesse daí grande mal ao mundo – mas viria seguramente algum bem à RTP.»
(Esta crónica, por desejo do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4001 de 1 de Novembro de 2013.

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