José Jorge Letria
Albert Camus nasceu há um século em Orão, na Argélia, numa família pobre, com um pai de origem espanhola. Ficou órfão muito cedo e nada apontaria para que, tendo nascido e crescido sem recursos e tendo sido atingido pela tuberculose na juventude, quando jogava futebol como guarda-redes na sua cidade natal, viesse a chegar a Paris onde triunfou como jornalista, escritor, filósofo e dramaturgo, acabando por ser distinguido com o Prémio Nobel da Literatura, em 1957, com apenas 44 anos.
Viria a morrer, de forma trágica, a 3 de Janeiro de 1960, no seu potente Facel Vega, conduzido pelo seu editor e amigo, Michel Gallimard. Poucas vezes, na literatura, terá havido uma carreira tão fulgurante, multifacetada e triunfante.
Livros como “O Estrangeiro” e “A Peste”, ainda dos anos 40 do século XX, ou “A Queda” e “O Exílio e o Reino”, da década seguinte, mas também notáveis ensaios filosóficos como “O Mito de Sísifo” ou “O Homem Revoltado” transformaram o jovem intelectual nascido na Argélia numa das figuras mais influentes da vida cultural francesa do século passado. E falta referir dois aspectos fulcrais da sua vida cívica e criadora: a chefia da redacção do jornal “Le Combat”, com um papel fundamental na mobilização de vontades e projectos de resistência durante a ocupação nazi, e a obra teatral, de que se destacam peças como “Calígula”, muitas vezes montada e aplaudida, durante a sua vida e nas décadas seguintes.
Na pasta que levava consigo no carro em que morreu foi encontrada uma primeira versão do romance “O Primeiro Homem”, um dos seus melhores livros, com carácter autobiográfico.
Homem de grandes convicções e grandes paixões, Alberto Camus deixou o essencial do seu pensamento nos dois ensaios atrás referidos, mas também nos volumes dos “Cadernos”, espécie de longo diário no qual registou reflexões, aforismos e ideias para obras que viria a escrever ou que deixou para sempre adiadas. Destaque-se ainda o livro “Carta a um Amigo Alemão”, que marca um pensamento corajoso e avançado durante a II Guerra Mundial. A sua obra ensaísta foi marcante para a minha geração, há mais de 40 anos atrás, e nunca mais deixou de ser lida, estudada e constantemente descoberta e redescoberta. É, de resto, fascinante o interesse que, de Espanha ao Japão, ou da Austrália ao Quénia, entre muitos outros países de vários continentes a sua obra continua a ter, como fica comprovado por sucessivas reedições.
O pensamento filosófico de Camus, estruturante para a corrente literária do absurdo, que envolveu escritores como Jean Paul Sartre ou dramaturgos como Eugéne Ionesco, Becket ou Arthur Adamov, assenta neste princípio: todos nascemos para logo ficarmos reféns da nossa condição absurda, por sermos o único animal da criação que tem consciência da sua finitude e da sua inexorável mortalidade. Esse axioma é a base de “O Mito de Sísifo”, que recupera o velho mito clássico que nos confronta com um Sísifo obrigado a transportar todos os dias uma pesada pedraaaté ao cimo de um monte para em seguida a pedra rolar encosta abaixo e ele ter de recomeçar a árdua caminhada logo ao alvorecer do dia seguinte. Encontramos aqui uma metáfora da própria condição humana, marcada pela incessante repetição de gestos e actos que nos acompanham até ao fim da vida e dos quais nunca chegamos a libertar-nos verdadeiramente.
Talvez por isso, Albert Camus continue tão actual e sedutor para leitores de diversas gerações e origens geográficas, mostrando que as grandes questões da existência humana não se alteraram desde as tragédias gregas e se renovam em cada dia que passa para nos forçarem a buscar novas respostas e caminhos. E é importante que essa busca nunca cesse, pois, quando desistimos dela, de certo modo é de nós mesmos que desistimos, forma antecipada de morte em vida.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4002 de 8-11-2013

