Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Bolas, que isto são só disparates pegados!

Bernardo de Brito e Cunha

SE O PROGRAMA de Júlia Pinheiro era para mudar, então que tivesse mudado tudo. Assim como quem muda de casa e aproveita para deitar fora os trastes e chegar à nova residência com as coisinhas em ordem. E limpas. Agora mudar a (de) casa e levar tudo atrás, não faz sentido. Júlia Pinheiro sabia que as coisas não podiam continuar como estavam, com os vizinhos do lado, da TVI, a terem mais do dobro da sua audiência matinal. Vizinhos esses que ela própria apadrinhou, directa ou indirectamente. Porque é que esses vizinhos do lado têm mais pessoas a ver, e esse número deve andar pelos 500 mil? Porque tanto o programa de Queluz como o de Carnaxide se inserem no grupo dos “programas de companhia” e o de Queluz faz mais companhia do que o outro. Porque a nível de decibéis a coisa equilibra-se em qualquer das duas localidades – às vezes, até, com Queluz a marcar mais pontos.

MAS SE LIMPARAM o estúdio, se lhe deram uma demão de tinta, se se deram até ao trabalho de ir buscar João Carlos Rodrigues (que ficou conhecido com a personagem Quim Roscas, no “Tele Rural” da RTP, mas que, felizmente para ele, mostrou na TVI ser e ter mais do que aquele tipo de humor: foi um sucesso em “A Tua Cara Não Me é Estranha”, onde ganhou verdadeira popularidade, e desenvencilhou-se muito bem na sua estreia enquanto apresentador ao lado de Marisa Cruz. É popular, directo ao espectador, com quem tem empatia forte, por causa da diversão e da espontaneidade de que dá mostras), se o foram buscar, dizia, à mesmíssima TVI, então não podiam ter ido um pouco mais longe? Acho que podiam. Podiam, como agora é comum ouvir-se, “ter cortado nas gorduras”. Podiam ter cortado no comentador cor-de-rosa Cláudio Ramos, que interessa a poucos (julgo!) saber como vai o nosso pseudo jet-set, como podiam ter cortado no Hernâni Carvalho, que é meio jornalista e meio investigador criminal ou, as mais das vezes, nem uma coisa nem outra, e aqui estou, de baraço ao pescoço, a pedir desculpa às duas profissões, não vá ter ferido susceptibilidades de alguém por lhe ter atribuído essas actividades, pim!

HERMAN JOSÉ completou 40 anos de actividade, o que não é brincadeira. Sobretudo se nos lembrarmos dos (muitos) bons momentos que nos deu ao longo desse período. Sem esquecer, naturalmente, e como o próprio o lembrou no “Só Visto!” do último sábado, os espaços em que esteve menos bem. Mesmo assim, 40 anos não é coisa despicienda e a RTP fez bem em ter assinalado a data, no domingo. Fez? Pois… De boas intenções está o inferno cheio, segundo reza a sabedoria popular, embora pareça que a ideia de inferno já foi posta de parte neste século, e a programação da emissão do espectáculo fez com que não tivesse passado de uma grande intenção. Lembra a alguém em seu perfeito juízo exibir o programa numa noite em que: a) a SIC exibia uma semifinal do “Factor X”; b) a TVI estreava uma nova telenovela, que a SIC tentou combater com um episódio especial (mas pobrezinho…) do seu “Sol de Inverno”; e c) quando se sabia – e há muito! – que o “Big Brother”, ou “Casa dos Segredos” ou lá o que aquilo era iria acabar nessa noite? Não lembra, de facto. Mas a verdade é que Herman merecia um pouco mais do que ser posto em confronto com esses “glutões” de audiências.

ESTA HISTÓRIA da venda de 85 quadros de Joan Miró em leilão deixa-me perturbado e preocupado. Os quadros eram propriedade do BPN, onde o Estado já meteu uns milhões largos do nosso dinheiro e o Tribunal Administrativo de Lisboa decidiu que não tinha competência para resolver a providência cautelar pedida – o que também acho magnífico, um tribunal dizer que não tem competência… E sinto-me no direito de reclamar, sei lá!, meio milímetro quadrado de um desses Miró: afinal de contas, o dinheiro também era meu. Ou, depois da Christie’s ter mostrado mais juízo que toda a gente, reclamar apenas que os quadros voltem ao país. E que os mostrem.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Mas não foi a toda a gente: José Pacheco Pereira, no seu comentário dominical para a SIC, achou que todas as televisões abusaram da repetição da imagem disponível (aquela sequência que inclui a mostragem do cartão amarelo, o sorriso de Fehér, o seu dobrar-se para a frente e cair para trás) e, embora “desculpando” de certa maneira as televisões comerciais, prontamente virou as suas baterias contra a RTP que, como televisão pública e à qual as audiências não deveriam interessar, acabaria por se tornar, na boca de Pacheco Pereira, a maior das pecadoras. Ou igualmente pecadora, só que as outras tinham desculpa. (…) A verdade, no entanto, é que Pacheco Pereira garantiu, naquele “Jornal da Noite”, que nenhuma televisão estrangeira transmitira a sequência de imagens a que faço referência acima. Sabemos que não é verdade: Carlos Queiroz, por exemplo, em directo de Madrid, viu as imagens que estavam a ser transmitidas por uma cadeia espanhola e garantiu que passados poucos instantes os noticiários mostraram as imagens de Fehér a cair.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed, 4013 de 7 de Fevereiro de 2014

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