Meu Deus: isto quando estala o verniz…
Bernardo de Brito e Cunha
NÃO HÁ como quando nos estala o verniz. O presidente Pinto da Costa sempre quis passar por um democrata, um adepto do jogo limpo e, às vezes, até um diseur, mas sempre um homem de convicções fortes. Não fosse assim e não teria estado há uns meses não muito largos no Porto Canal – canal que é fortemente patrocinado pelo Futebol Clube do Porto, conforme entrevista dada por Júlio Magalhães à revista “Meios & Publicidade “, em 31 de Janeiro deste ano – a dizer esta frase que me parece ser de um diseur, de um democrata, de um adepto do jogo limpo mas, sobretudo, de um homem de convicções fortes: “Se a época acabasse hoje e o contrato dele [Paulo Fonseca] acabasse hoje, eu ontem tinha renovado contrato com ele.” Pronto: isto é bom para um treinador, que assim sabe que não será ao primeiro desaire que se verá com as malas à porta de casa. O pior é que os desaires se têm sucedido a um ritmo que não é normal para uma equipa do gabarito da do FC Porto e, ao que parece, depois da derrota frente ao Estoril, em casa (coisa que já não acontecia há mais de cinco anos), o próprio Paulo Fonseca deve ter achado que a medida já tinha extravasado o copo e terá decidido tomar uma atitude – o que já se verificara no final do jogo com a Académica.
ACONTECE AINDA que no final desse jogo no Dragão, os adeptos se reuniram na porta do estádio por onde costumam sair os jogadores, certamente para lhes darem conta do seu desagrado, quiçá atirar umas pedras aos veículos, quiçá ainda brindá-los (bem como aos seus progenitores) com alguns mimos à moda do Norte. A polícia insistia que os veículos deveriam voltar à direita, para evitar confrontos; a SAD portista, chegada em peso à porta P1, achava que não: que deveria voltar à esquerda, como sempre faz. E durante meia hora ali tivemos as câmaras de televisão da RTP Informação assestadas sobre este problema premente (e que ocupa, também, largamente o país) que é o de saber se se volta à esquerda se à direita. Até ao momento em que Pinto da Costa avança para os jornalistas e faz uma declaração: “No Futebol Clube do Porto não há ratos: os ratos é que fogem.” Mas, com as notícias que corriam da demissão de Paulo Fonseca, nada mais lógico do que querer confirmar o dado, ao que o presidente do FC Porto respondeu: “Estão-me a fazer perguntas que não foi por elas que aqui vim.” Mas um repórter no local, julgo que da TVI, achou “pertinente” confirmar as notícias que corriam sobre a demissão do técnico. A resposta de Pinto da Costa foi: “Ai acha pertinente? Então o senhor vai-se afastar daqui.” Não sei se o disse na condição de democrata, de adepto do jogo limpo, de diseur, ou de homem de convicções fortes: mas o repórter foi “convidado” a abandonar o local pela segurança do clube… Espero que sem grandes mazelas. E isto foi o mais interessante que vi na televisão, nesta semana que agora se aproxima do fim. Qual professor Marcelo, qual Manuela Moura Guedes, qual congresso do PSD travestido de congresso anti-PS: dêem-me Pinto da Costa todos os dias!
E PARTAMOS para coisas mais elevadas. Na RTP1, todos os domingos por volta do meio-dia, surge a série de documentários “BBC Terra”. São reportagens lindíssimas, bem-feitas, que nos deixam colados ao ecrã. No último domingo, eramos dois de olhos pregados no televisor, a ver a odisseia de tartarugas recém-nascidas a caminhar na direcção do mar: eu e a minha cadela mais nova, que parecia extraordinariamente interessada naqueles pequenos pontos que avançavam pela areia. Se o documentário interessa até a um canídeo… é porque é muito bom. Agora só me falta ensiná-la a escrever e passa ela a assinar esta crónica. Ah, é verdade: não tem polegares!! Bolas, lá terei de continuar a ser eu…
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Não sei o que se passa com a TVI. Faz uma festa de anos e, no dia seguinte, lá está a matraquear-nos os ouvidos com as balelas do costume. Foram notícia, de resto, em todos os jornais da estação, os pretensos 4 milhões e 300 mil espectadores que teriam assistido ao programa. Curiosamente, no mesmo dia em que o “Jornal Nacional” dedicou um espaço do seu tempo a uma peça sobre “publicidade enganosa”… Vamos por partes. Para que tivesse visto o programa aquele número de espectadores (que, números redondos, anda perto de metade da população portuguesa) era preciso que esse número se tivesse dedicado de alma e coração a ver a festarola de arromba da TVI. E, mesmo que assim tivesse acontecido, aqueles milhões todos significariam 50 por cento de audiência – que é coisa que, com quatro canais sem contar o cabo e os vídeos, não pode acontecer nunca a um programa.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4016 de 28 de fevereiro de 2014.

