Semanário Regionalista Independente
Sábado Abril 18th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Uma canção (portuguesa?) para a Europa

Bernardo de Brito e Cunha

DURANTE ALGUM TEMPO alimentei a convicção de que o facto de a RTP assinalar o seu aniversário no dia 7 de Março, que é o dia de São Tomás de Aquino, um dos maiores e mais avançados Doutores da Igreja, era um bom sinal. A circunstância de esse aniversário ser, geralmente, comemorado com o Festival da Canção, deu-me a crença de que coisas grandes haviam de sair desse certame. E durante anos acreditei que Tomás velava, de facto, pelo festival, tantas foram as coisas boas que dali saíram. Lembro-me do que gostei de ver “Verão” e “A Festa da Vida” na voz de Carlos Mendes, das canções que Ary dos Santos lá levou pela voz de Fernando Tordo e outros, entre mais algumas. Só que a RTP e o festival devem ter cometido alguns pecados de que Tomás não gostou e, apesar da sua bondade, deve ter decidido voltar-lhes as costas. E todos os dias vemos os resultados desse amuo do santo…

E TÃO ZANGADO ele deve andar que, este ano, houve dois desastres: um no próprio dia 7, chamado “Lumen” e de que eu nem quero falar, e outro no dia 8, que foi o dia do festival da Canção. A RTP já tentou várias fórmulas: já lançou concursos em que as canções eram enviadas por autores sob pseudónimo e/ou anonimato, já escolheu apenas um intérprete (foi o caso de Carlos do Carmo) para quem autores diversos escreveram canções, já escolheu os intérpretes da “Operação Triunfo, eu sei lá!, já fez de tudo. Desta vez foi, segundo explicações dos apresentadores Sílvia Alberto e José Carlos Malato, foram escolher “autores de renome”. Em dez, reconheci três nomes: o de Andrej Babič (ou talvez Babić), que escreveu a canção que Vânia Fernandes levou à Eurovisão, “Senhora do Mar” nesse ano de cantores da “Operação Triunfo”, um dos anos em Tomás voltou a olhar para nós, o de Tozé Santos, que é compositor e vocalista dos Per7ume (isso, assim com um 7 a fazer de f) e, finalmente, o de Emanuel. E se Andrej Babič (ou talvez Babić) já me deu provas com essa “Senhora do Mar” e Tozé Santos tem uma carreira nos Per7ume que fala por ele, o mesmo não se pode dizer de Emanuel – muito embora, e infelizmente, uma das suas canções já tenha ganhado, recentemente, este mesmo certame.

TENHO EU má vontade contra Emanuel? Pois tenho. Não por ter sido o “inventor” da palavra “pimba”, que depois se tornou género musical – o que, só por si, já era bastante para um pequenito ódio de estimação – mas pela falta de gosto e talento com que nos brinda há décadas. E quando vi uma canção sua a concurso, a verdade é que tremi – e temi o pior. Tinha razão: a começar pela intérprete, que naquelas pequenas introduções em que contam a sua vida desde pequeninos, que se apresentou como Susana (ou talvez Suzana) Guerra, mas que “todos a conheciam com Suzy”. Emanuel, desta vez, escolheu um ritmo vagamente africano, apropriadamente acompanhado (não fossemos nós não darmos pela coisa) por um negro pintado com cores de guerra e armado de um tambor. Achei grave? Nem por isso. Mas como se pretendia uma canção portuguesa para levar à Europa, achei a encenação excessiva e inapropriada. A RTP fez-nos sofrer até ao fim: a canção de Emanuel era a n.º 10 – e foi a última a ser revelada como apurada para a final que terá lugar amanhã.

SE TENHO receio de que seja esta a canção que amanhã ganhe e nos represente na Dinamarca? Todos. Até porque não esqueço que a RTP, num certame semelhante aos “Lumen” de dia 7, há mais de um ano (a 29 de Dezembro de 2012), escolheu como melhor canção portuguesa (e acho bom pôr um sublinhado no “portuguesa”) uma composição de Emanuel. Problema? Nenhum: ele é português e portanto… O grave é que a canção rezava assim: “Love me baby, nanananananananana/ Love me baby, nanananananananana// Love me baby, nanananananananana/ Love me baby, nanananananananana// Es una bomba/ Es una bomba/ Inspiras mi vida/ Di amor y pasión.” Julgo que não estou a ser pessimista quando digo que São Tomás de Aquino nos voltou definitivamente as costas… e à RTP.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«A ser entrevistado para um programa qualquer da estação [TV5], estava o comissário europeu António Vitorino. Até aqui, a surpresa não será grande: o homem é comissário na Europa, logo deve ter alguma coisa a dizer sobre diversas matérias. Mas foi exactamente isso, o “a dizer”, que me surpreendeu, porque estamos habituados a ver os nossos representantes políticos a arranhar um inglês básico, a falar um francês macarrónico e, até, a quererem dar um ar da sua graça quando “falam” espanholês. Eles vão ao estrangeiro – e nós rimo-nos. Pois o que aconteceu com António Vitorino não foi isso, bem antes pelo contrário: o homem falou um francês correctíssimo, com boa pronúncia e tudo e falou que se desunhou. Foi simpático de ver, quanto mais não seja pelo contraste com o que é habitual. O que vem provar que também nesta coisa de falar fluentemente uma língua estrangeira, os homens não se medem aos palmos.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4018 de 14 de Março de 2014.

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