José Jorge Letria
Quando, em 1989, foi derrubado o Muro de Berlim, muita gente se convenceu de que ia começar um ciclo de paz e estabilidade, numa lógica unipolar, para durar muitas décadas ou mesmo séculos. Houve mesmo filósofos e analistas de direita que anunciaram, com estridentes toques de clarim, o fim da História. Seria o triunfo da “pax americana” e do capitalismo sem escrutínio nem regulação. O resultado dessa visão do mundo está à vista.
Basta olhar para o que se passa hoje na Ucrânia (Crimeia incluída), na Venezuela e em países como a Espanha ou o Reino Unido, onde o nacionalismo radicalizado aponta para uma possível independência da Catalunha ou da Escócia, através de referendos que podem fazer desagregar seculares unidades nacionais.
O que se está a passar na Crimeia constitui a demonstração de que o convívio com uma Rússia ainda poderosa e de democracia mais do que duvidosa é e será muito problemático. Ex-oficial do KGB, o poderoso Vladimir Putin, espécie de czar pós-moderno, não está disposto a abrir mão da península da Crimeia, muito mais por causa da mobilidade da frota russa do Mar Negro e da correlação de forças com os Estados Unidos e com a União Europeia do que pelas preocupações com a defesa da população russa e russófona daquele território. É um braço de ferro que ninguém sabe como irá terminar. Por outro lado, não é o facto de ser pró-ocidental e de querer aderir à União Europeia que faz da oposição que tomou o poder em Kiev uma entidade unida, impoluta e digna de incondicional apoio e admiração, até porque há factos que estão por apurar em todo este processo. Também a situação das chamadas “primaveras árabes”, que o Ocidente aplaudiu incondicionalmente convencido de que assim ficava o caminho aberto para democracias parlamentares de tipo ocidental, deixou muito a desejar, sobretudo por ter aberto as portas às forças do fundamentalismo islâmico que conseguiram, na maior parte do casos, alcançar o poder à boleia de milhares ou mesmo milhões de manifestantes mobilizados pelas chamadas “redes sociais”.
E ainda falta referir a crescente tensão entre o Japão e a República Popular da China, entre a Coreia do Sul e a do Norte e todos os outros focos de tensão regional que, tendo ventos favoráveis, poderão converter-se em incêndios incontroláveis ou em paióis à beira da explosão.
Por seu turno, a União Europeia, em véspera de eleições para Parlamento e para a Comissão, verdadeiro gigante económico mas anão político como lhe chamaram os pais fundadores, fala alto para se fazer ouvir, mas não tem forças armadas que a tornem credível e temível, o que reforça a margem de manobra de Moscovo, que nunca deixa de jogar com o argumento poderoso da força militar. Restam os Estados Unidos, de Obama e de Kerry, a maior potência mundial, que não podem perder essa liderança cada vez mais ameaçada, mas, por outro lado, não podem abarcar em aventuras que conduzam a uma nova guerra de dimensões e consequências imprevisíveis. Assim, o impasse mantém-se e agrava-se. Todos vão deixando subir o tom da voz, mas nem assim conseguem provar que têm razão.
E fica por referir a crescente tensão social num país como o Brasil, onde centenas de milhares de pessoas vêm regularmente para as ruas denunciando as graves assimetrias sociais, a falta de investimento nas áreas da saúde e da educação e os gastos imensos com a preparação do Mundial de Futebol. E não deixa de ser espantoso o facto de o país do futebol estar a revoltar-se por não aceitar que o futebol e as suas infra-estruturas e despesas sejam a grande prioridade nacional, em detrimento das necessidades e das prioridades sociais.
Tudo isto é agravado por uma crise de dimensão global que as tecnologias mais avançadas fazem com que não possa ser dissimulada ou ocultada. O mundo tornou-se assim, no ano do centenário da I Grande Guerra, um lugar muito pouco frequentável e recomendável, com um destino mais do que incerto, com os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, com a política e os políticos cada vez mais desacreditados, com mais multidões revoltadas nas ruas e com um receio generalizado em relação ao futuro das gerações que estão para vir. Resta desejar que prevaleçam o bom senso, o desejo de paz, a tolerância, a solidariedade social e o castigo exemplar dos corruptos e dos ladrões sem perdão, para que ainda seja possível continuarmos a coabitar e a respirar.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4021 de 4 de Abril de 2014

