Semanário Regionalista Independente
Sexta-feira Abril 17th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Deitar foguetes e ir buscar as canas

Bernardo de Brito e Cunha

JÁ AQUI me referi ao trabalho de Ricardo Araújo Pereira e creio que ninguém lhe negará o talento que tem. Ou, melhor dizendo, poderá haver quem lhe ache graça e certamente outros que não lhe vejam piada nenhuma… Mas há uma coisa de que mesmo estes últimos não poderão acusar o rapaz: o de ser o exemplo acabado do calão. Uma das coisas que me deixa perplexo (sobretudo a mim, que tantas vezes tenho dificuldades quase insanáveis para escrever esta meia página) é a sua capacidade de trabalho e o volume de obra que regularmente apresenta. Não sei como é possível fazer, semanalmente, parte do “Governo Sombra” (na TVI24 e na TSF), uma crónica para a Visão – e isto há uma série de anos. Numa entrevista dada o ano passado ao “5 para a Meia-Noite”, na RTP1, confessou que as crónicas diárias para a Rádio Comercial, as “Mixórdias de Temáticas”, eram escritas às seis e meia da manhã para serem lidas às oito e meia… E foram 250, na primeira fase, sendo que a segunda já irá perto das 60. Calculo que tenha algum material de reserva, mas mesmo assim. Sigo, portanto, com atenção aquilo que ele vai fazendo. E (estas coisas são sempre assim…) espero que a cada nova crónica, a cada nova entrevista, a cada novo programa, ele me surpreenda, o que acontece muitas vezes. E agora arranjou mais lenha para se queimar, com um apontamento diário depois do “Jornal das 8” da TVI. Ora vamos lá.

A RUBRIQUINHA na TVI, “Melhor do que Falecer”, apresentada com pompa e circunstância, afinal é uma coisa chocha, sacada directamente da “Mixórdia” – e, a avaliar pela reportagem do “Jornal das 8”, essa tendência é para continuar. Sinto-me sempre um pouco “roubado” quando lhe ouço uma ou mais frases no “Governo Sombra” e, na quinta-feira seguinte a vejo escrita na crónica da Visão: sinto-me um pouco defraudado, já conhecia a frase ou frases… O mesmo se aplica às “Mixórdias”. Mas compreendo que ele sinta que esse (bom) material é capaz de se perder um pouco no canal de televisão ou no de rádio, sendo que o primeiro, ainda por cima, é transmitido por cabo: porque não dá-lo a conhecer a um leque mais alargado de pessoas? Eu sei que isto é racional mas, quando uma coisa é boa, queremos sempre mais – embora se chegue a um ponto em que não é possível, humanamente possível, continuar a bater recordes, por assim dizer. Mesmo que se trate de Ricardo Araújo Pereira: e julgo que ele deveria ser o primeiro a reconhecê-lo…

RICARDO Araújo Pereira fala muitas vezes na família mais próxima, as três mulheres que tem em casa (não, não se trata de bigamia, refiro-me à mulher e as filhas) e julgo que o fará porque toda esta actividade fará com que lhes roube tempo e essa será a forma de as compensar. E embora perceba que ele queira “capitalizar” o seu talento enquanto ele existe, o meu conselho é que não queira ir longe demais nessa capitalização. Não creio que ele precise assim tanto deste cachet que lhe valha a pena correr o risco de um fracasso.

CONFESSO que me irrita a “carreirização” da RTP. Tony Carreira grava um novo videoclipe? A RTP vai às filmagens. Tony Carreira lança um novo disco? A RTP está no lançamento e dá conta disso. Tony dá um espectáculo em Paris? A RTP vai até lá e faz uma longa reportagem. Não há bom senso, nem um sentido de equilíbrio das coisas? Não há coisas mais importantes e urgentes para os quais a RTP possa e deva fazer convergir os seus recursos? E depois, claro, surpreendem-se com as vozes que se erguem a dizer que a RTP é um esbanjar de dinheiro…

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Mas, na realidade, há uma coisa, neste momento, que vale a pena ver: é o pequeno programa que a RTP exibe, duas vezes por dia, logo a seguir aos telejornais das 13 e das 20 horas, e que é construído a partir de 30 fotografias de Carlos Gil sobre momentos-chave do processo político, desde o ante-25 de Abril até aos anos 80. Chama-se “Abril: 30 anos, 30 Imagens” e à evocação pela imagem juntam-se os depoimentos dos personagens das fotografias ou de quem, por alguma forma, participou no acontecimento, quase sempre com comentários muito a propósito. O programa (ou a ideia do programa) é da autoria de Adelino Gomes, e as fotografias foram escolhidas por Daniel Gil, filho do fotojornalista. Já agora, para quem andou, a essas horas, a “passear” por outros canais, fica a informação: este programa é, de certa maneira, a adaptação televisiva de um livro. Com efeito, cerca de 200 imagens do fotojornalista foram reunidas em livro, lançado a 5 de Abril, que está associado às comemorações dos 30 anos do 25 de Abril. O livro, ou álbum de fotografias, chama-se “Carlos Gil – Um Fotógrafo na Revolução” e as imagens foram seleccionadas por Daniel Gil e legendadas por Adelino Gomes.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4023 de 18 de Abril de 2014

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