“Sei que estás em festa, pá!”
Bernardo de Brito e Cunha
FICO CONTENTE, como seria o resto do verso de Chico Buarque que aqui deu título a esta crónica. Não só pelos 40 anos do 25 de Abril, como pelo 33.º título de Campeão Nacional conquistado pelo Benfica no último domingo. Dia em que parece não ter havido mais nenhuma notícia – tirando uma outra, pessoal, mas que não conta para esta coluna – e foram horas e horas de televisões, todas elas, de sinal aberto ou por cabo, pintadas de vermelho. Bem sei que em 2010 o Benfica também foi campeão: mas não tenho memória de uma “onda vermelha” assim. Milhares de adeptos do Benfica encheram, primeiro o estádio e depois a rotunda do Marquês de Pombal, em Lisboa, naquela que terá sido a maior afluência de público à zona desde que a “tradição” de encher o Marquês se criou, com adeptos e mais tarde jogadores a cantarem os habituais gritos de ordem. “O campeão voltou!” terá sido o preferido dos adeptos, mas houve outros “clássicos”: “Campeões, campeões, nós somos campeões!” e “SLB, SLB, glorioso, SLB!”.. Este ano houve uma diferença: é que tanto o jogo como as imagens dos festejos no interior dos balneários foram transmitidas pela BenficaTV, como de resto aconteceu esta época com todos os jogos em casa, com todos os canais a utilizarem imagens certamente compradas ao canal da Luz. Até nisso o Benfica ganhou: e aqui falamos do dinheiro da venda dessas imagens, bem mais extensas do que os pequenos apontamentos que são brindados com a costumeira legenda de “imagens cedidas por…”
EU AINDA me lembro do tempo em que Bessa Tavares era jornalista na RTP: de então para cá engordou, tornou-se administrador-delegado da SportTV, o perímetro na zona do umbigo aumentou substancialmente e, como algumas vezes acontece às pessoas que sofrem essa modificação geométrica, tornou-se… “inchado”. E foi nessa posição de soberba que não lhe fica bem, que veio falar sobre o canal concorrente do “seu”, dizendo “Benfica TV? Não comparo Fiat com Rolls Royce”. A verdade é que o seu Rolls perdeu assinantes (são agora 500 mil) ao passo que o Fiat ameaça passar a topo de gama, com os mais de 300 mil seguidores pagantes que tem agora, não restando muitas dúvidas de que este título pode fazer aumentar significativamente o número de assinantes da BenficaTV. Cautelas e caldos de galinha, diz o povo, nunca fizeram mal a ninguém: se eu fosse Bessa Tavares teria essas cautelas e levaria o Rolls Royce regularmente à revisão, não vá qualquer coisa gripar…
PARA SER SINCERO – e aqui vou ter de escolher cuidadosamente as palavras, por razões que se perceberão – não gosto muito de Assunção Esteves que é Presidente da Assembleia da República e, por inerência, a segunda figura do Estado. Não é a primeira vez que ela se “escama” e fica com o aspecto de uma agente económica de venda de peixe a granel. Não posso escrever “peixei…” porque ela ainda me processa, a mim e a este jornal, sendo que tanto um como o outro não estamos em condições económicas de enfrentar um caso em tribunal. Começa por ser lamentável o que fez aos militares da Associação 25 de Abril: convidá-los para a cerimónia dos 40 anos, mas não permitindo que um porta-voz falasse. E quando lhe chamaram a atenção e disseram “Mas olhe que eles se não falarem, não vêm”, ela respondeu, com aquele ar um bocadinho alucinado (no melhor sentido, no melhor sentido!) que tem, “Nesse caso o problema é deles…” Eu bem sei que toda a gente quer esvaziar o 25 de Abril, PSD e CDS e Esteves incluídos. E Esteves não teve o “acto de tomar para si” (que o nome indica), a decisão que estava na sua mão de acalmar as águas. Teve medo que o militar que falasse dissesse mal do Governo? Ó Sra. D. Presidente, mas se toda a gente diz! Ganhou, com esta atitude, que um Capitão de Abril vá dizer mal do Governo para o Largo do Carmo… Chama-se a isto, em linguagem popular, “tapar o Sol com a peneira”.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Há algum tempo que não via o “SIC 10 Horas”, principalmente porque não respeitava as horas do título e aparecia no ecrã já bem perto do meio-dia. Em contrapartida, tenho acompanhado, como já vos dei conta aqui, o seu congénere da parte da tarde, o “Às 2 por 3”. E se bem se lembram, uma das referências e estranhezas que lhe fiz, quando falei dele, foi aquela característica de mostrar “cenas dos próximos capítulos” das novelas da SIC – com a particularidade de “os próximos” ser o episódio da noite ou do final da tarde. Pois o “SIC 10 Horas” agora também tem esse papel cultural: o de nos dizer o que se vai passar logo à noite em “Celebridade”. Inestimável trabalho esse, quase de verdadeiro serviço público…»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4024 de 25 de Abril de 2014

