Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Esta Eurovisão já tem barbas

Bernardo de Brito e Cunha

E DE REPENTE toda a gente fala de Conchita Wurst e do facto de ter conquistado o festival da Eurovisão. Não porque a canção fosse fabulosa ou exactamente o inverso, mas porque Conchita Salsicha (é o que wurst significa, não é?) é gay, se veste de mulher e tem barba. Barba essa que me pareceu demasiado cerrada para que lhe tivesse acontecido aquilo que me acontece tantas vezes, o “não estou com paciência”. Já vimos muito festival da Eurovisão e sabemos que há muito tempo que aquilo não se rege pelo politicamente certinho: basta vermos o vestido com que Simone cantou a “Desfolhada” e as fatiotas dos Abba: cor discreta, uma (tão discreta que, por cá, a televisão ainda era a preto e branco), e coloridos os trajes dos outros. Daí para cá vimos um pouco de tudo, incluindo moças com fatos que nem atingiam os mínimos olímpicos ou grupos de rock da pesada que se apresentam vestidos de monstros. O lema deve ser “vamos abandalhar isto”.

JULGO NÃO SER incorrecto dizer que o festival, desde finais dos anos 70, se tornou, como agora se costuma dizer, gay friendly isto é, olha com complacência e serenidade estas coisas – que, é preciso dizê-lo, nem sempre correm tão bem na vida dos povos. Tem ao menos essa vantagem, a Eurovisão. Porque estes casos, que agora tanto brado dão, não são virgens – embora sejam menos capilares. Basta recordarmos o vencedor do festival de 1998, realizado em Birmingham, Reino Unido: Sharon Cohen. Ou melhor, que dito assim não consta dos anais do festival: Dana International, vencedora (sublinhado no a) com a canção “Diva”. A grande diferença é que Sharon se transformou, na mesa de operações, em Dana e a nossa Conchita (salve seja) é um gay que gosta de se vestir de mulher. E de não fazer a barba, pronto.

ESCREVI, no início, que a canção “Raise Like A Phoenix” (julgo que é isto) não era nem fabulosa nem o inverso, ao contrário do espectáculo televisivo que a televisão dinamarquesa fez chegar até nós. E não era, de facto, nenhum desses opostos. Mas servia, ao menos e não é pouco, uma intenção, uma declaração de princípios que é a própria história de Conchita. O que não tem nada a ver com a declaração de princípios que a nossa (salve seja outra vez) Suzy levou até lá: “Eu Quero Ser Tua”. Convenhamos que isso não é princípio nenhum, é apenas uma declaração carnal. Se Emanuel se orgulha disso já é uma outra questão. Mas nós sabemos a linhas com que o fulano se cose. O meu receio, com a mania que temos de copiar, é que para o ano enviemos um ou uma concorrente alternativa…

CONVÉM que vos diga que quando soube que João Baião ia abandonar a RTP (e Tânia Ribas de Oliveira, com quem fez dupla tanto tempo) e viajar até à SIC, receei o pior. Tinha criado um estilo na televisão pública, de que gostava mais do que aquele com que saíra da SIC, há anos, e receei que fosse cair nos mesmos excessos. Quando soube que ia fazer dupla com Júlia Pinheiro, aí tremi. Decidi ver os primeiros minutos e fui ficando. E muito embora, com o correr deste “Sabadabadão”, se perceba que aquilo não passa de um cocktail de “Big Show SIC”, essa invenção do controverso Ediberto Lima, fiquei contente por verificar que ninguém ia cometer (grandes) excessos. É verdade que o “concurso” em que duas pessoas da assistência são convidadas a tirar peças de roupa a troco de dinheiro podia ter corrido mal, mas os riscos deviam estar mais ou menos controlados. E o programa acabou por ser uma agradável surpresa – dentro do género, naturalmente. Mas antes este “Sabadabadão” do que as idiotices dos Recordes do Guinness… E se puderem evitar ter por lá Lili Caneças, então a coisa sobe uns pontos.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«E quem aprendeu estas coisas de descobrimentos na escola primária, tem nesta série de Paulo Varela Gomes e Camilo Azevedo, que também a realizou, a possibilidade de pôr alguns pontos nos ii e perder de vez a ideia de que os Portugueses de então eram gente de bem e bom trato para com as populações nativas descobertas e conquistadas. Bem como esse facto que a escola primária também nos incutiu: a de que não havia pai para os portugueses. Ai não, que não havia. A este respeito foi extremamente curiosa uma observação de Paulo Varela Gomes, no programa de terça-feira, “Benastarim”. Dizia ele, a propósito de Goa e de Ceilão, que a intervenção portuguesa naquela zona teve algo de muito parecido com o Vietnam para os americanos: primeiro foi uma entrada cautelosa, depois a intervenção foi sendo cada vez maior, nascem as violências e os massacres e, finalmente, foi a derrota.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4027 de 16-5-2014

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