José Jorge Letria
Vivemos um tempo de modas, e as modas, em princípio, dão para tudo, até para passarem de moda. Quem viajar pelos canais televisivos que, de todo o mundo, chegam até nós e nos entram pela casa dentro, verificará que uma das modas mais enraizadas, desde Portugal à Nova Zelândia, é a dos “chefs” de cozinha. Estalam-se os dedos e logo se dão a ver profissionais em número suficiente para animarem as cozinhas mais e menos requintadas. Abundam concursos, exibições, demonstrações integradas noutros eventos televisivos, como se as televisões tivessem a capacidade de nos permitir saborear os paladares mais exóticos.
Deste modo, os “chefs” acabam por se transformar em vedetas televisivas, em muitos casos sem sequer terem talento para comunicar e não nos dando a possibilidade de tomar o gosto àquilo que fazem sair de fornos, micro-ondas e outros espaços de confecção dos seus pratos ditos de excelência.
Espreme-se o fenómeno e sai muito pouco, tirando, obviamente, o efeito irradiador e mobilizador da própria moda. A verdade é que os “chefs” mais hábeis e mais bem apoiados podem criar negócios chorudos com a panóplia de efeitos e produtos que envolvem os seus verdadeiros circos gastronómicos.
Espantoso é o facto de esta moda dos “chefs” se ter implantado num país onde há gente de sobra a passar fome, onde não abranda o número dos novos emigrantes e onde se multiplica a quantidade de idosos que não têm meios para comer em condições e comprar medicamentos. Na realidade, mediatiza-se aquilo a que o cidadão comum, que nada tem de abastado, não pode nem quer ter acesso, pois está muito mais preocupado com o quer tem de pagar pela escola dos filhos, pela amortização do empréstimo da casa e do carro e por tantos outros encargos, fiscais e de diferente índole, com que o fustigam e castigam. E, não obstante isso, cada vez se fala mais dos “chefs”, das suas aventuras criativas e dos pratos de “encher os olhos” com que se vão destacando no mercado gastronómico internacional. Faz pena e dá que pensar.
Resta esperar que nunca se instale no espaço mediático, esgotada esta moda, uma outra que, vinda das áreas centrais da nossa actividade, tenha como base as “maravilhas”que se fazem no domínio das empresas funerárias. Também aí haverá, pela certa, muita coisa a aprofundar em termos mediáticos. Nunca se sabe.
Entretanto, temos “chefs” de sobra para todos os gostos e graus de exigência, com os mais sofisticados efeitos e enfeites para as suas “obras”, que não podem ser incluídas no pacote da “saída limpa”. Talvez por sermos um país com chefes fracos precisamos tanto de procurar alternativa e diversão nestes “chefs”. Só é pena que a sua experiência e talento não tenham contribuído para se encontrarem alternativas aceitáveis àquilo que nos tem tocado pela porta em termos governamentais. Falharam os ingredientes principais e também os temperos e adereços. Falhou tudo, até a grande verdade social, económica e política que se encontra por trás da “saída”. Resta-nos a esperança de ver alguns destes “chefs” abrir o forno e confeccionar uma alternativa democrática que faça o povo ter o direito de sorrir de novo. Haverá “chefs” para isso ?
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4029 de 30-5-2014

