Isto está mesmo do piorio! A saque!
Bernardo de Brito e Cunha
EU ENTENDO perfeitamente que Cristina Ferreira, que é apenas Directora de Conteúdos não Informativos da TVI e apresentadora do “Você Na TV” (trabalhos que devem ser pagos com o ordenado mínimo nacional) tenha de recorrer a outros expedientes para organizar e orientar a sua vida. É, no fundo, a história de milhões de portugueses e só podemos estar solidários com ela – e com os outros milhões, em que nos integramos, de resto. Foi por isso, certamente, que decidiu fazer um blogue – a que o programa deu a devida publicidade – para logo a seguir se meter a criar sapatos – que o “Você na TV”, naturalmente, não deixou passar em claro. Agora, a jovem decidiu que fazia falta um perfume seu. Os programas da TVI têm servido para fazer campanha de lançamento do mesmo (Cristina até já saiu do seu “quintal” e já esteve no programa da tarde, com Fátima Lopes), como já antes acontecera com o blogue, com os sapatos, etc. Só num “Você na TV” de um dos dias da semana que passou, já foi exibido por duas vezes o anúncio ao perfume, bem como o “behind the scenes” da gravação do mesmo. A revista Lux Woman (que não é exactamente estranha à TVI) fez capa com Cristina Ferreira e “shrinkou” uma amostra do perfume, com exemplares distribuídos pela assistência. E também da reportagem da Lux Woman foram mostradas as cenas de bastidores da sessão fotográfica… Foi um dia em cheio para Cristina Ferreira e não é a inveja que me leva a escrever estas linhas: é, por um lado, a constatação de que não há como ser directora da coisa para ter publicidade à borla. E, por outro, que ao menos na estação que é (quase) sua, teria sido interessante que Cristina Ferreira, ou o seu administrador por ela, tivesse colocado o anúncio, a pagar. Nem uma vez, que eu visse. Ora bolas…
NÃO SEI o que se passa e isso deixa-me preocupado. Mas ultimamente todos os canais de televisão, aparentemente quando não têm mais nada à mão, vão fazer uma visita a um elemento da família Carreira. Não exactamente a um qualquer, porque do agregado (ou será mais correcto dizer desagregado) familiar deve fazer parte gente que não é particularmente conhecida do grande público e zás, lá se ia o impacto. Mas ainda sobram três elementos. Na última semana a RTP, que nós pagamos, achou por bem entrevistar e seguir um espectáculo de Mikael Carreira, quando nunca se preocupou em trocar dois dedos de conversa com Jorge Palma, António Pinho Vargas ou Fausto. Sensivelmente na mesma altura, a TVI decidiu suplantar isto: e enviou a Paris Judite de Sousa, para entrevistar o patriarca Toni. E como patriarca é patriarca, uma entrevista não bastava: e vá de fazer uma coisa em grande, dividida em duas partes, transmitidas em dias consecutivos. Eu percebo que Judite de Sousa precise de espairecer – e dizem que Paris é uma cidade óptima para isso – mas a verdade é que dispensávamos a parte do Tony Carreira. Caramba, vejam se percebem: por muitas dezenas de pessoas que encham o Pavilhão Atlântico para ver o patriarca Tony, esta não é a herança musical portuguesa que quero deixar ao meu filho. Nem ele a mim. Nem uma série de milhões de portugueses. Portanto, de vez em quando (o que quer dizer “nos intervalos da família Carreira”) vão lá então dar uma palavrinha a Jorge Palma, António Pinho Vargas ou ao Fausto. Há mais nomes: em caso de dúvida, cá estou para fazer uma lista. Agradecido.
O QUE ACONTECE geralmente com os governos é porem as culpas no governo que os precedeu. O nosso já fez isso, de forma que decidiu ir mais além – como tinha feito com a troika – e agora a palavra de ordem é decidir coisas para quem vier atrás. E fazem coisas incríveis, como se vê no último Orçamento de Estado. Orçamento esse que é marcado, mais uma vez, pelo aumento da carga fiscal. É socialmente injusto: limita de novo as prestações sociais e mantém a sobretaxa de IRS enquanto diminui o IRC, por forma a beneficiar apenas as grandes empresas. A solução encontrada (projectar para 2016 uma hipotética redução da sobretaxa, desde que a cobrança do IVA e do IRS cresçam acima de 6%), para além de ilegal – as disposições orçamentais têm efeito exclusivo para o ano a que respeitam – significa que estariam a pôr no próximo governo a responsabilidade dessa benesse. Espero que o Constitucional esteja atento.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«E isto, numa altura em que se fala muito de pressão (ou da sua ausência) sobre os média, pareceu-me ter um significado bastante estranho – e faz-me lembrar uma época que, numa democracia com 30 anos, quase todos julgaríamos ultrapassada. O que nos mostra que essa mesma democracia é uma coisa que se alimenta e de que se trata todos os dias. E, muito provavelmente, grande parte de nós tem partido do princípio de que a Democracia é uma coisa irreversível. Se fosse, a Grécia, que inventou o conceito, não teria sofrido o jugo de uma Junta de coronéis, na década de 60.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4046/47 de 31 de Outubro de 2014

