José Jorge Letria
A morte de Herberto Helder, aos 84 anos, na casa de Cascais onde viveu décadas representa uma perda de dimensão incalculável para a cultura portuguesa cuja poesia tanto enriqueceu com um génio criador que ninguém conseguia enquadrar em escolas, tendências ou grupos.
Herberto construiu à sua volta uma solidão protectora de que nunca abdicou e que fez dele um escritor cuja biografia se confundiu e esgotou na própria obra, já que a sua biografia foi construída com páginas de que nunca quis falar e sobre as quais só muito fugazmente aceitou escrever. Nascido no Funchal em 1930, partiu para Coimbra ao concluir o ensino secundário para estudar Direito e depois ainda se inscreveu na Faculdade de Letras de Lisboa, em Filologia Romântica, curso que também não terminou e que precedeu etapas importantes de um percurso que o levou a ser tudo o que quis ser, desde bibliotecário da Gulbenkian a director editorial, desde jornalista e locutor radiofónico até trabalhador manual, emigrante e tudo o mais que teve de fazer para enfrentar os constrangimentos de quem casou, teve filhos e tinha de lutar pela subsistência num tempo adverso que nunca deu facilidades a quem queria viver apenas da literatura. Herberto publicou o seu primeiro livro em 1958, tornou-se um autor de referência com “Os Passos em Volta” e “Apresentação do Rosto” e nunca mais deixou de escrever e publicar até à edição em 2014 de “A Morte sem Mestre”. Poucos poetas em Portugal e no mundo conseguiram construir uma obra e um modelo de relação com essa obra tão protegido, tão isolado e tão distante das pequenas coisas do mundo literário. Isolou-se, calou-se, embora dissesse admirávelmente os seus poemas e nunca aceitou confundir-se com a vida social, cultural e política que o cercava. Não dava entrevistas, não se deixava fotografar, não emitia depoimentos sobre qualquer assunto e por uma rigorosa questão de princípio não aceitava os prémios que lhe atribuíam, caso do Prémio Pessoa, em 1994, que tanto o teria ajudado a estabilizar a vida de quem decidiu viver e morrer pobre, isto é, sem os recursos financeiros que a literatura eventualmente proporciona a outros escritores. Viveu e morreu sem prémios, coerente com os seus princípios e com o modo de vida que construiu.
Recordo-me de em 1970 ter ido à redacção da revista “Noticia de Luanda” em Lisboa, chefiada pela grande jornalista Edite Soeiro, e de ter visto numa secretária ao fundo um homem com cerca de 40 anos, de barba bem desenhada, do qual me aproximei timidamente, que cumprimentei e que comigo manteve um diálogo breve, amável e sem palavras em excesso. Tinha ido à “Noticia de Luanda” para tentar conseguir uma colaboração regular e saí dali comovido por ter conseguido conhecer pessoalmente o poeta português vivo que mais admirava. Depois encontrámo-nos muitas vezes em ruas de Lisboa, num ou noutro café e sobretudo no comboio para Cascais, terra onde nasci e onde ainda morava.
Durante os anos em que fui vereador da Cultura em Cascais tomei a decisão de organizar um encontro literário anual “A Poesia em Visita”, que pedi ao Prof. Manuel Frias Martins para coordenar. Receámos desde o início que Herberto não aceitasse a iniciativa. Foi o que aconteceu. Depois da decisão ter sido aprovada por unanimidade pela câmara, Herberto escreveu-me uma longa e amável carta pedindo-me delicadamente para suspender essa iniciativa que muito transtorno lhe causaria. Falei com Frias Martins, autor de um livro sobre o poeta e decidimos cancelar o projecto, por respeito e admiração pelo Herberto Helder que tanto admirámos e admiramos.
Pouco tempo depois, deram-me a notícia de que Herberto não conseguia continuar a viver no 1º. andar onde sempre residiu, perto do mercado de Cascais, porque as máquinas de refrigeração no estabelecimento do rés-do-chão emitiam um ruído que não o deixavam escrever e dormir. Foram dados todos os passos necessários para controlar esse excesso de ruído, cujo a existência não foi comprovada e para lhe proporcionar o sossego que tanto desejava e merecia. A Câmara chegou a encarar a possibilidade de vir a adquirir um apartamento para o instalar em condições mais propicias, hipótese que também não se concretizou. De qualquer modo, acompanhei e acompanhámos com a maior atenção e cuidado uma situação que muito nos preocupava. O importante era Herberto e a grandeza da sua obra.
Embora a sua despedida se tivesse tornado inevitável e como ele próprio reconhece em alguns dos seus versos luminosos, nunca esperei ter que escrever esta crónica de homenagem a um dos poetas que mais me marcaram e me levaram a entrar no universo da poesia com a paixão comovida de quem entra para nunca mais partir. Herberto será sempre, para mim, o autor de “Oficio Cantante”, de “Cobra” ou de “A Morte sem Mestre”, voz luminosa e absoluta que me acompanhará até à hora da minha despedida.
E não posso esquecer que “Os Passos em Volta” era a minha leitura deslumbrada quando em Setembro de 1967 o meu pai morreu subitamente e eu tinha apenas 16 anos, idade de deslumbramento e descoberta que fez com que Herberto tenha entrado nas minhas preferências mais profundas, tornando-se um poeta maior que o seu tempo, imenso como a nossa grande poesia, companheiro distante e próximo de que nunca me quis afastar, por saber que quando o fizesse isso seria já uma forma de morte. Tínhamos Cascais em comum. A minha terra natal e a sua terra de adopção. Numa geografia de afectos que também ajuda a construir a poesia que nos ilumina se eternizar.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4066/67 de 10 de Abril de 2015

