Musiquinhas diferentes do habitual
Bernardo de Brito e Cunha
COMO DIRIA o meu amigo Manel, há coisas que me deixam abazurdido, palavra cujo verdadeiro significado ele nunca explicou, mas que toda a gente entendia como estupefacto, atónito ou assarapantado. Uma dessas coisas aconteceu no último domingo, ao ver o programa “Ídolos” – exacto, reincidi e arrependi-me. Ao contrário do que a produção e as promoções nos querem fazer crer, o programa apenas tem três cromos e nem sequer são concorrentes, são jurados. Espantou-me ouvir o jurado Paulo confessar que “nenhum de nós sabe música, mas todos gostamos muito de música”: não porque isso me ofendesse (eu situo-me no mesmo grupo), mas porque essa confissão, honestíssima, era desnecessária por retirar alguma credibilidade àquela função de seleccionar os que cantam qualquer coisita dos que cantam menos qualquer coisinha. Em resumo, espera-se que um júri perceba da poda, tanto mais que se propõe escolher o Ídolo de Portugal.
MAS A VERDADE é que olhamos para aquele painel e as esperanças terminam: o presidente daquela troika, Boucherie Mendes (nem sei se devia pôr aqui um hífen), está sempre com um ar de quem sofre de uma grave maleita do estômago, sempre com uns esgares que não pressagiam nada de bom mas que, as mais das vezes, acaba por se verificar ser rebate falso – e lá vai passando a rapaziada, com excepção daqueles que ele decidiu chumbar porque sim. Culpa de quem? Do coleguinha da ponta, que disse que nenhum dos três sabia música. Não tivesse ele aberto a boca e ainda poderíamos pensar: “Se o Boucherie Mendes o/a chumbou é porque lá ouviu qualquer coisa que me escapou.”
AO MEIO temos o verdadeiro emplastro, Maria João Bastos – cuja única capacidade musical conhecida é ter encarnado a figura de Liliane Marise, o que já é mais do que qualquer dos dois colegas de programa podem dizer: encher salas de espectáculos em Lisboa e Porto (nem sei mesmo se não se terá aventurado pela província) não é para todos. Até aqui tudo bem, que o pior vem depois. A raça da miúda (favores…) não dá uma para a caixa e só sabe dizer o que os outros já disseram! E depois parece ter uma inclinação muito grande para passar toda a gente – sobretudo quando o seu voto vai decidir a passagem do concorrente. Ao meu lado, ainda ouvi algumas vezes “esta rapariga complica-me com os nervos”. Como eu a compreendo…
A GRÉCIA viveu um 1.º de Maio singular, já que pela primeira vez um Governo saiu à rua ao lado dos cidadãos para reclamar os mesmos objectivos, acabar com as políticas de austeridade e restaurar os direitos laborais. O ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, apareceu sorridente e sem escolta no meio da manifestação principal no centro de Atenas, na qual participaram homens e mulheres de todas as idades.
Varoufakis recusou fazer qualquer comentário político, enquanto outros ministros se alinharam com os desejos do povo de acabar com as políticas de austeridade e reiteraram as promessas do Governo de não passar as suas “linhas vermelhas”. Essas linhas são “profundamente vermelhas”, assegurou o ministro do Trabalho, Panos Skurletis, numa alusão à promessa do Governo de não desistir dos planos de restaurar os convénios colectivos e o salário mínimo, nem de ceder às pretensões dos credores de reduzir as pensões e os salários do sector público.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«O ainda presidente da câmara de Lisboa, Pedro Santana Lopes, deu há poucos dias uma entrevista à SIC. Falou, naturalmente, de candidaturas (tanto à câmara, como à presidência da República) e dos mais variados assuntos. Entre eles, pronunciou-se acerca do seu futuro: e assim ficámos a saber que vai exercer advocacia, que vai ser consultor de empresas, pois no curto espaço em que foi “primeiro-ministro, conhece-se muita gente”… Mas o repórter também lhe perguntou o que achava do actual primeiro-ministro. Curiosamente, Santana Lopes disse gostar dele – logo acrescentando a frase “ele é inteligente, ele é muito esperto”. Isto é, Santana Lopes fala de José Sócrates e quem apanhasse a entrevista no momento dessa frase, pensaria que se limitava a gabar as qualidades do seu cão.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4070/71 de 8-5-2015

