Atentados em França, tentados cá dentro
Bernardo de Brito e Cunha
UM ATENTADO, ou uma série de atentados como os que aconteceram em Paris na noite de sexta para sábado passado, não é coisa fácil. Não é fácil para as vítimas e respectivas famílias e amigos, não é fácil para os parisienses e para os franceses de uma forma generalizada. Não é, tão-pouco, fácil para a Europa e o mundo em geral. Mas foi dramático para os portugueses. Não apenas porque muitos têm família algures em França, e estariam naturalmente em cuidados, mas também para os que a não têm. E eu, que tenho um primo em França, vejo de repente no Facebook uma alminha a dizer-me que Fulano (nome suposto do meu primo) está bem. Ainda bem, pensei. O pior veio no sábado, quando falei com ele e lhe disse que já sabia que estava bem. Sabes como? Uma tal não sei quantas pôs no Face… Mas se eu estou há dois dias em Castelo Branco!, gritou-me ele. Vá lá a gente acreditar nestas modernices de Facebook…
PACATAMENTE instalado na linha de Sintra, de repente vejo entrarem-me em casa, via televisão, uma série de peritos. Eles são os que conhecem a fundo o autoproclamado Estado Islâmico, os que sabem tudo sobre bombas, os que conhecem a geografia de Paris, arrabaldes e o número dos arrondissements e os que não os conhecem, os que achavam que isto tinha sido diferente do ataque ao Charlie Hebdo, os que achavam que era a continuação, os que achavam que o grupo de rock que tocava no Bataclan era bom e os que achavam que era mau e, no meio disto tudo, os peritos militares e, até, os que nem francês falam nem entendem. Durante horas, os jornalistas, meus camaradas, meu Deus!, andaram às voltas com os números de mortos e feridos, sempre num crescendo (porque o sangue dá audiências, como se fosse preciso) e sempre errados – embora os números correctos passassem em rodapé nas televisões que seguiam em directo. Não era preciso saber falar francês: os números não têm língua. (Caramba: e não é que são árabes? Os números. Também.)
MAS ISTO tudo teve um ponto positivo para nós, portugueses: foi um fim-de-semana descansado em termos de governo e coligação e acordos à esquerda e tudo o mais. O senhor Presidente da República continuou a fazer calmamente a sua pochete para dois dias na Madeira onde, supremo problema de Estado, já o vi a discutir a diferença do tamanho e doçura da banana. Não tomemos nunca as frases soltas como verdades absolutas: aquilo devia ser código. Espero sinceramente que fosse. Era melhor para todos.
QUASE em simultâneo com as bombas de Paris, caiu por cá a do Novo Banco. E então não é que o diabo do banco bom (o BOM, sublinho) que sucedeu ao BES vai precisar de mais uns tostões – e quando se fala em tostões em relação a um banco isso quer dizer milhões – porque os testes de stress revelaram falhas? E a TAP vendida a correr na véspera, sem água-vai? E o senhor presidente, ocupado com a pochete, não deveria ter parado a arrumação das peúgas e perguntado “Esperem lá, isto não vai dar muito nas vistas?” E depois, claro, o grande problema são os ataques terroristas em França: e os ataques terroristas cá dentro, não contam? Parece que não. Mas eu estou muito tentado…
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Para um país onde a Justiça é proverbialmente lenta, o julgamento da mãe e do tio da jovem Joana, desaparecida em circunstâncias misteriosas no Algarve, há pouco mais de um ano, foi espantosamente rápido. E foi, naturalmente, um pratinho mediático para quem o quis aproveitar – e foram todos. Mas tratou-se de um julgamento cheio de características estranhas: em três dias foram ouvidas mais de 40 testemunhas (de acusação: que de defesa, nem uma), foi admitido e exibido um vídeo em que o tio de Joana se confessa culpado e, por insistência do Ministério Público, foi constituído um tribunal de júri. Três juízes para quatro jurados – a estudante Dinamene Silva, o empregado de mesa Fernando Gonçalves, a técnica de biblioteca Márcia Cunha e a fisioterapeuta Marta Pereira – todos eles com o mesmo peso: mas a presença dos jurados serviu para passar para o “povo” por eles representado uma grande quota-parte da responsabilidade final.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4095/96 de 20 de Novembro de 2015

