Semanário Regionalista Independente
Sábado Abril 18th 2026

Feira do Livro – Bolonha

Bolonha confirmou que é exportável
a cultura portuguesa de qualidade

José Jorge Letria

O êxito da presença portuguesa na Feira do Livro de Bolonha, pela primeira vez com o estatuto de país convidado, veio confirmar o potencial da cultura portuguesa no tocante à sua inter¬nacionalização e à conquista de novos merca¬dos e públicos, bem como a importância do seu contributo para demonstrar que Portugal não é um país sombrio, angustiado e sem futuro.
A Feira do Livro de Bolonha é a mais importante do mundo na área do livro infanto-juvenil, atraindo todos os anos milhares de editores, escritores, ilustradores, críticos, agentes literários, jornalistas e investigadores de vários continentes. A visibilidade da edição portuguesa nesta área foi sobretudo assegurada pelos ilustradores, cujos trabalhos estiveram patentes numa zona nobre do certame, tendo sido visitada, filmada e fotografada por milhares de pessoas. Foi unânime o reconhecimento de que os ilus¬tradores portugueses se encontram actualmente entre os melhores da Europa, optando por um cada vez maior grau de profissionalização e de reconhecimento internacional.
Merece destaque o facto de esta exposição se ter realizado num momento em que a edição em geral e a de livros infantis em Portugal está a entrar num período de recessão, uma vez que as editores publicam menos e as câmaras municipais e escolas fazem um número muito mais reduzi¬do de aquisições periódicas, isto para não se falar da perda de poder de compra do público em geral e sobretudo do que tem filhos que querem tornar-se leitores.
Em muitas conversas e intervenções públicas foi sublinhada a qualidade global da literatura infanto-juvenil portuguesa e o seu potencial de crescimento, bem como a importância do trabalho dos ilustradores para o reforço dessa maturidade. Esta constatação é válida para outros sectores de criação cultural e artística que abrem a novas gerações de autores perspectivas de profissionalização e de internacionalização do seu trabalho que não podem ser ignoradas ou apenas subestimadas.
No mundo global, um criador que conheça as regras da contemporaneidade tem a possibilidade de trabalhar em Portugal ou em qualquer outro país sem perder a sua identidade e a especificidade do seu projecto. Nesse aspecto, deve ser realçado o crescente interesse do merca¬do brasileiro na produção infanto-juvenil portuguesa, que tem naquele imenso mercado um horizonte de crescimento que só vem confirmar a importância prática do conceito de lusofonia, sempre que existe uma vontade real de lhe conferir expressão concreta.
É a fenómenos como este que as instâncias do poder político devem estar atentas, para poderem decidir e legislar da forma mais correcta, criando os canais necessários para assegurar a visibilidade internacional do muito de bom que se faz hoje em Portugal. Tudo o que se investir neste domínio, cobrindo sectores que vão da música ao audiovisual, passando pela literatura e pelas artes plásticas, não deve ser entendido como um custo, mas sim como um investimento com futuro. A recuperação económica e anímica do país também passa naturalmente por aí.
O entusiasmo e o interesse suscitados pela presença por¬tuguesa na Feira de Bolonha confirmam a necessidade de, também no plano cultural, não nos deixarmos confinar ao estreito redil das nossas querelas e intrigas domésticas e de tentarmos ter vistas tão largas como tivemos quando um dia nos fizemos ao mar para acrescentar mundo ao mundo.

Publicado no Jornal de Sintra, edição de 23 de Março de 2012,
página 3.

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