Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Dezembro 9th 2019

Redes Sociais • Encontrar o que procura e ver-se livre do que não precisa

Construindo uma ligação entre o mundo virtual e o real e contrariando o consumismo se vai destacando e firmando o Clube das Trocas – um grupo da famosa rede social Facebook que em cinco meses atraiu 12 mil e 700 membros. Entre tantos utilizadores, o Jornal de Sintra conseguiu encontrar alguns de Sintra que contaram a sua experiência.

Há quem troque mais do que objectos. Há quem troque favores, filosofias (um dos tópicos de discussão mais activos) ou simplesmente dois dedos de conversa. Aqui troca-se de tudo. O “aqui” é difícil de explicar, porque a internet é um mundo muito vasto, mas o Clube das Trocas acaba por ser fácil de encontrar por ser um grupo da famosa rede social Facebook*.

Hoje conta com 12 700 membros e tornou-se uma espécie de feira de novos e usados virtual. O fundador, Rui Poças, do Porto, conta que não estava à espera da adesão que o clube teve, que se mostrou um “êxito retumbante” – “Ao criar o grupo [em Fevereiro deste ano] fiquei espantado em ter 2 mil pessoas no segundo dia e 8 mil ao fim de uma semana”. Segundo o fundador, este clube é uma forma de “não gastar um tostão” – o que em tempo de crise torna-se com certeza um ponto a favor – ao mesmo tempo que se pode “encontrar o que se procura vendo-se livre de coisas de que não se precisa”.

Interacção entre o mundo virtual e o mundo “real”
O “mural” da página do Clube das Trocas funciona como os “classificados”. Há quem procure, há quem ofereça. E depois, o funcionamento passa pela interacção virtual entre os membros, que escolhem para as trocas o meio que mais favoreça as suas condições e a disponibilidade de cada um – desse modo, a troca de objectos pode ser efectuada através do correio ou mesmo presencialmente (o que muitas vezes dá origem a verdadeiras amizades).

“O clube é uma ideia muito interessante, que estimula a redução dos desperdícios e a ajuda entre as pessoas”, conta Manuela Sousa, que reside entre a Terrugem e Lisboa. “A rede é neste clube uma ferramenta que ajuda as pessoas a cooperarem umas com as outras em coisas bem práticas”, acrescenta esta sintrense, que através do grupo já ofereceu uma colecção de revistas estrangeiras a um dos membros.

Também Lígia Pacheco, de Vila Verde, mostra-se satisfeita por pertencer a este clube: “acho que é um grupo excelente, com uma óptima dinâmica, onde as pessoas podem trocar objectos que já não utilizam por outros ou por serviços, levando-as a reutilizar e a poupar”, explicou esta sintrense que até já trocou DVD’s por uns “headphones” e deu ração para gato à União Zoófila através do Clube das Trocas.

Outro membro, Jorge Francisco, de Agualva-Cacém, conta que tenciona trocar algumas coisas que estão expostas na página, como livros e um telemóvel, mas que já trocou “gormitis” (bonecos em miniatura coleccionáveis). Apesar de considerar que o clube faz uma boa ligação entre o mundo virtual e o real, Jorge Francisco alerta para os “parasitas” (membros falsos que distribuem “spam” por exemplo ou membros que não são de confiança) e para a necessidade de comunicação e interacção com outros utilizadores da página.

Clube poderá combater o consumismo no mundo “real”
“Tento ser o menos consumista possível e considero que este é um caminho ao qual cada vez mais pessoas devem aderir – não tem graça nenhuma passar a vida a trabalhar para adquirir bens de que outros se querem desfazer e a alimentar uma sociedade de consumo extremo”, explicou Ana Gonçalves, da Amadora, que até já trocou uma televisão por dois DVD’s infantis, entre outras coisas
“Outro conceito muito interessante” e “inovador”, contou esta membro, “são as trocas de serviços: trocam-se tosquias de cães por companhia para fazer caminhadas, ou cortes de cabelo por tartes vegetarianas e por aí fora”. “Acho que quanto menos dinheiro for preciso para viver, mais felizes seremos e o mundo será melhor”, concluiu Ana Gonçalves
O êxito deste clube de trocas poderá levar o projecto mais longe. “Gostaria de poder desenvolver o clube para algo mais abrangente e simples”, confessou ao JS, Rui Poças. “A sua existência online é o que o torna atractivo, porque fácil e imediato. Mas pode ser bem melhor”, acrescentou. Assim, o fundador procura um espaço físico para desenvolver o clube.

“A minha dificuldade actual, como criador e gestor, é poder dar esse passo sem encargos e sobretudo sem comprometimentos de cariz comercial (patentes no espirito do grupo desde a sua primeira hora)”, explicou. “Para isso tenho procurado um espaço cedido em Lisboa, mas até agora sem sucesso. Tenho de começar a procurar noutros concelhos. Talvez em Sintra?”.

Texto: Vanessa Sena Sousa (jornalsintra.redac@mail.telepac.pt)
Artigo publicado na edição de 30 de Julho de 2010
*para ser mais fácil de encontrar basta escrever “Clube das Trocas” na barra de pesquisa do Facebook.

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2 Responses to “Redes Sociais • Encontrar o que procura e ver-se livre do que não precisa”

  1. Cristina C. diz:

    Quando as intenções de uma rede social são boas e passam para o “mundo real” há sempre bons prenúncios. Às vezes há boas surpresas no mundo da internet. E nada como notícias que deixam a esperança de um mundo mais pacífico e centrado no que é real. Uma boa oportunidade para combater o consumismo desta nossa sociedade. É bom ver que nem tudo é corrupto. Este é um bom tema.

  2. Miguel Nunes diz:

    Ideia mais interessante que já vi nos últimos tempos. Vou já aderir ao grupo. Às vezes basta uma boa ideia para tornar o mundo melhor…
    (Gostei especialmente da troca de filosofias… se bem que preferia a forma antiga, de ir a um café e conhecer pessoas com filosofias de ida diferentes… novos tempos, novas formas de contactar).

    Gostei da reportagem, é como um rasgo de esperança num mundo consumista.

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