Semanário Regionalista Independente
Quarta-feira Abril 22nd 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Glórias e misérias da televisão

Bernardo de Brito e Cunha

A TVI TRANSMITIU o último programa de “A Tua Cara Não me É Estranha”, de que saiu vencedor, na minha opinião com toda a justiça, João Paulo Rodrigues. Os quatro finalistas tiveram prestações muito boas, mas João Paulo, que teve em algumas edições anteriores momentos em que a imitação terá sido muito mais próxima do original do que este seu Michael Bolton, terá sido, no cômputo geral, o mais uniforme e constante de todos os concorrentes. E achei curioso que no domingo João Paulo tenha dito uma coisa que eu já referira, com mais ou menos palavras, nesta mesma coluna. Explicou ele, então que tinha aceitado o convite para participar porque queria que as pessoas percebessem que atrás do Quim Roscas existia uma pessoa que se chamava João Paulo Rodrigues. Como eu escrevi, quem visse o Quim Roscas ou o “Tele Rural” transmitido a partir (faz de conta) de Curral de Moinas, dificilmente se aperceberia de que ali estava um outro talento. Que felizmente se revelou. E a TVI, que não anda propriamente a dormir na forma, já anunciou que para a semana há mais – com outras personalidades, naturalmente. Mas julgo que João Paulo Rodrigues nos vai deixar saudades. Tal como muitos dos outros, que tantas vezes vestiram personagens dificílimas de imitar. E estou a lembrar-me, acima dos restantes, de Toy.

JULGO QUE JÁ se deve ter percebido que ando desconsolado com o programa de Sandra Felgueiras, “Sexta às 9”. Possivelmente, porque me prometeram muito antes do seu arranque. O apregoado “jornalismo de investigação” a que o programa se ia dedicar não é coisa que possa ter hora (e dia, como é o caso) marcada: acontece. E, tantas vezes, aparece ao fim de meses (anos?) de procura. Sandra fez ao contrário: marcou dia e hora e agora tem de arranjar o que lá meter, todas as semanas, de que resulta um jornalismo de investigação de segunda ou terceira categoria, nada de muito empolgante ou surpreendente. Veja-se o último programa, anunciado como tendo uma entrevista exclusiva com o “Rei Ghob”: afinal eram umas perguntas a que ele respondeu por escrito, já na prisão, e de que a maior parte das respostas era “Não sei” ou “Não posso responder neste momento”. Pronto, está feito. Não está é bem, mas isso é outra história.

JÁ AQUI AFLOREI esta questão, mas até hoje ainda não consegui uma resposta. Nem sequer é uma resposta plausível: é uma resposta. Ponto. Bem sei que as condições climatéricas já não são o que eram mas, mesmo assim (e para desgraça da nossa agricultura), ainda nos devemos poder gabar de ter uns 280 ou 290 dias de sol por ano. Ultimamente tem chovido um pouco fora das épocas, mas ainda assim o sol brilha – mais para uns do que para a maioria, mas isso são contas de outro rosário.
O que eu não entendo é que num país privilegiado nesse aspecto e, para mais, com graves carências económicas e energéticas, os jogos de futebol se joguem invariavelmente à noite. Quando era muito jovem, os jogos aconteciam à tarde, aí às três ou quatro horas: dir-me-ão que, nessa altura, os estádios não estavam preparados para estas iluminações, o que até pode ser verdade. O que eu gostava de saber é quanto é que custa iluminar um estádio de futebol durante mais de duas horas: e isto ninguém me diz… A não ser que a EDP se tenha armado em benemérita dos clubes de futebol e não cobre nada…
Os resultados disto viram-se no último domingo, no jogo do Sporting, interrompido a um quarto de hora do fim, porque as torres de iluminação decidiram não acender na sua plenitude. Tivesse o jogo sido agendado para a tarde e esse problema nunca se poria. Mas, para mim, anda aqui mãozinha das televisões que os transmitem. E nós, que copiamos tudo o que se faz ou vem de fora, não somos capazes de ver o exemplo inglês, italiano ou espanhol.

HÁ 10 ANOS ESCREVIA

«Foram dois ou três programas absolutamente espantosos. Passaram na SIC, no fim-de-semana da Páscoa, sensivelmente à hora do almoço, e mostraram-nos uma visão da BBC sobre diversos animais que terão vivido há uns largos milhares de anos, neste nosso planeta, depois de um meteoro ter destruído os dinossauros. Todos esses animais, como se está mesmo a perceber, foram reconstruídos por computador – mas tinham, garanto, um aspecto incrivelmente real. Faltou-nos ali, talvez, um outro elemento explicativo: o de saber como chegaram os autores dos documentários até animais como aqueles. Isto é, que resíduos deles encontraram e onde. Isso não o ficámos a saber: talvez porque esse tipo de informação vem, geralmente, contida numa outra parte do documentário, o chamado “making of”. Essa parte não nos foi mostrada pela SIC, nem sequer sabemos se existe. Mas a verdade é que a BBC, responsável pelos documentários, não costuma meter-se nestas coisas de “inventar” animais, só porque dá jeito para fazer um programa. Algures, estará a resposta para essa pergunta que eu gostaria de ver respondida. Curiosidade pura e simples em relação a estas coisas dos animais que habitaram o mesmo planeta que eu.»

(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3930 de 6 de Março de 2012

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