Semanário Regionalista Independente
Quarta-feira Abril 22nd 2026

Miguel Real e Filomena Oliveira – Entrevista ao Jornal de Sintra

Grande entrevista – Personalidades Sintrenses – Miguel Real e Filomena Oliveira, um casal apaixonado por Sintra e pela cultura
“A nossa vida não é só pagar contas”

Vivem há mais de três décadas no concelho. Miguel Real é o pseudónimo de Luís Martins. Tal como Filomena, é professor, escreve livros, romances, peças de teatro. Tal como ele, também ela continua deslumbrada pela vila de Sintra como no primeiro dia em que a viram. Miguel Real e Filomena Oliveira abrem, aos leitores deste jornal, do qual são colaboradores há largos anos as páginas dos livros das suas vidas…

Texto: Paulo Aido
Nesta conversa, que aqui começa, fala-se de tudo um pouco: dos livros publicados, dos que estão no prelo, de peças de teatro, do encantamento pela história da vila e, até, imagine-se!, de quem deveria ser o vereador da cultura na câmara municipal. Esta é uma conversa que começou na semana passada, foi até ao século XIX e só acaba na imaginação do leitor. Às perguntas do jornalista, responde, na maior parte das vezes, Miguel Real, ou, se preferirem, Luís Martins. Quando Filomena Oliveira decide entrar na conversa, está assinalado com FO. Vamos a isso.

A primeira pergunta é muito simples: porquê o pseudónimo Miguel Real?
Começamos mal. É a pior pergunta possível, trata-se de uma questão íntima. Mas, no entanto, em Sintra sou conhecido apenas pelo meu nome, Luís Martins… Miguel Real aparece como pseudónimo literário para o exterior, digamos assim.
Então, se resolvesse escrever um livro sobre Sintra…
… seria como Luís Martins. Mas no que diz respeito à escolha do pseudónimo, é uma questão íntima que não gostaria de ver abordada assim, num jornal. Já fizeram várias vezes essa pergunta. Nunca respondi e agora acho que tenho o dever de também não responder. São questões que têm a ver com a vida pessoal.
O leitor poderá ter essa curiosidade… Poderia ter sido por uma razão comercial, um nome mais apelativo, enfim…
Quando surgiu o Miguel Real não vendia nada de especial.
E agora, os seus livros vendem bem?
Razoavelmente.
Dá para viver da escrita?
Não. Só o Saramago, que vendia 100 mil exemplares de cada livro.
Ou o José Rodrigues dos Santos, que até vende mais do que isso.
Pois, mas ele continua a ser jornalista. Mas sim, se quisesse poderia viver só da escrita. Mas são só dois ou três que conseguem viver da venda dos livros. E é nos romances, pois a poesia nem tem direitos de autor. O que vendo dá para alimentar os próprios livros que vou fazendo, as pesquisas que tenho de realizar, uma ou outra viagem…
Mas gostaria de viver apenas da escrita?
Sou professor. Sempre fui professor. Nunca quis ser escritor. Pode ficar admirado, mas é verdade. A minha mulher está aqui (volta-se para Filomena Oliveira) e pode confirmá-lo. Mas repare, desde a faculdade que tinha o desejo de escrever livros, mas era mais no sentido de escrever manuais, coisas assim.
E agora, já se diz escritor?
Há pouco tempo, sim. Mas só agora, ao fim de dez romances. É uma evidência, não vale a pena fugir a isso. No entanto, considero que há escritores e escritores. Há os grandes escritores, destinados, digamos assim, à história da literatura, e há outros que escrevem como eu, medianos, que têm algum prazer na escrita e algum prazer em dar aquilo que escrevem às pessoas, só isso.
Publicou diversos romances históricos. Um deles chamou a minha atenção. Trata-se de uma história que retrata o último grande amor português: “O Último Minuto na Vida de S.”, ou seja, a relação entre Sá Carneiro e Snu Abecassis.
Esse é um romance que faz parte de um conjunto de livros, de romances, de homenagem à mulher, numa tentativa de retrato da mulher portuguesa. Não pode ser individualizado. Snu foi uma mulher intelectual que teve, de facto, uma paixão por Sá Carneiro. Mas eles não são identificados no romance, porque há pessoas vivas, filhos, que é preciso respeitar.
E como é que surge a ideia de escrever sobre eles, sobre o amor entre Sá Carneiro e Snu?
Sensibilizei-me. Passavam 25 anos sobre a morte deles, li uma reportagem num jornal e fiquei sensibilizado. Havia várias histórias e achei que, se tivessem envelhecidos juntos, não seriam um mito, mas acabaram por falecer assim, de uma forma trágica…
…e morreram jovens.
Exactamente. Jovens e na flor do seu próprio amor.
E a relação deles, importa recordá-lo, foi também um acto de coragem no Portugal conservador dos anos setenta.
Exactamente. As mulheres dos dirigentes do PSD tratavam-na como a amante sueca, ou a amante loura.
Houve até histórias relacionadas com o Protocolo do Estado, em que Snu foi afastada de certos actos oficiais por não estar casada com o primeiro-ministro…
Exactamente. E Sá Carneiro como que impôs a sua presença, levava-a para os palanques dos comícios, sentava-a na primeira fila.
Um grande amor…
Sim, mas a frase, “um grande amor português”, não é minha, é da editora. Mas foi um grande amor. Sá Carneiro chegou a ameaçar deixar tudo, a política, se Snu não fosse aceite pelos seus pares.
Investigou muito para chegar ao livro?
Neste livro, já não me lembro bem, pois foi em 2005, mas habitualmente procuro investigar tudo o que é possível, ler tudo o que há para ler. Temos ideias e juntamos os documentos a essas ideias. Neste caso, fui muito fiel ao que se passou mesmo. A única coisa que inventei foi um poema, que coloquei na mala dela e que foi encontrado, já meio chamuscado, entre os destroços do avião. Essa foi a única invenção. De resto, o livro tem quatro ou cinco factos absolutamente reais e a partir deles construo a ficção.
No caso do livro sobre a Rainha Dona Amélia, “As memórias secretas da Rainha Dona Amélia”, terá tido mais dificuldade em obter informação…
Pelo contrário. Tive muito mais informação. A história está feita. Só na Biblioteca Nacional há uns 15 livros sobre a rainha e uns trinta ou quarenta sobre a atmosfera social da época.
Leu esses livros todos?
Sim, ou o escritor procura saber tudo o que existe sobre o tema que se propõe escrever ou o romance histórico não poderá não ter consistência.
Neste livro, decidiu colocar entre os papéis de Oliveira Salazar um diário da rainha. Como foi isso?
Nós preocupamo-nos com a estrutura dos romances, faz parte da actividade de escrever. Já ia a meio desse livro, possivelmente, quando percebo que teria de o transformar. Neste caso, inventando esse diário, essas memórias secretas. Amélia era uma mulher trágica, a avó e o pai tinham sido destronados. Mais tarde conhece o Carlos e vem para Lisboa. Aqui entra na recta final da monarquia, na sua decadência, e passa a ser rainha e vai ser destronada, tal como acontecera com o pai e a avó. A avó foi enterrada com o casaco com que saiu de França e apanhou o barco. Ela vai ser enterrada com o casaco ensanguentado, de sangue seco mas que nunca mandou limpar, do marido e filho que foram assassinados na carruagem. É uma mulher que não tem para onde ir. Mais tarde vê também o filho mais novo, D. Manuel, morrer e assiste ao fim da monarquia em França e em Portugal. É trágico. Mas ter escolhido este tema não foi nada de original. Durante todo o século XX houve vários livros sobre a rainha Dona Amélia. Sobre esse aspecto, o romance da Snu foi original. Entre ambos os livros há um paralelismo: têm mulheres estrangeiras a olhar para Portugal.
Mas há uma diferença: Snu amava Sá Carneiro e Amélia, pelo menos no final da vida, já não amaria o rei D. Carlos.
Sim, eles não se amam praticamente. É um casamento de conveniência. Ela tem uma paixão por ele, porque o vê a andar a cavalo. É a paixão dos vinte anos mas que começa logo a esmorecer. Passado o nascimento do primeiro filho, ele começa a andar com as cocottes e até lhes põe casa na Ajuda. A rainha até sabe qual é o prédio que ele comprou para ter duas cocottes e acaba por se refugiar aqui, na Pena.
Chegámos a Sintra, concelho adoptado há uns trinta anos por Miguel Real, ou Luís Martins, e Filomena Oliveira. Ambos são professores e ambos estão ligados à escrita. A Filomena trabalha essencialmente o teatro.
Sim, no teatro sou arrastado pela Filomena, não vale a pena negá-lo. Se a Filomena não existisse eu não escreveria teatro. As ideias vêm dela e a forma última dos textos também. É uma espécie de escrita a quatro mãos.
(FO) Eu também poderia dizer que, se não fosse o Luís, não teria conseguido certamente escrever nenhuma peça de teatro.
Alguns dos livros, dos romances de Miguel Real dariam certamente boas peças de teatro…
(FO) E deram, e deram. “As memórias de Branca Dias”, de que gosto muito, tem uma grande potencialidade dramática e eu adaptei-o para o teatro. Nos últimos anos, temos quatro espectáculos que estão em cena, pela “éter”, uma produtora teatral, e cujos textos foram criados em conjunto pelos dois e que eu depois avancei com a encenação.
O teatro é uma paixão para si…
(FO) Sim, porque fiz teatro, muito cedo, porque estudei teatro no conservatório, e mais tarde até fiz um mestrado em teatro… de alguma maneira tenho estado sempre ligada ao teatro.
É mais difícil escrever uma peça de teatro ou um romance?
Acho que é mais difícil escrever uma peça de teatro. Na peça de teatro, e a Filomena pode confirmá-lo, só existem diálogos. Não há paisagens. Os diálogos, ou o monólogo, têm de nos dizer tudo.
(FO) Há uma depuração, uma condensação do universo humano, do tempo, da realidade, que tem de realizar-se num tempo e espaço muito limitados. No teatro, por exemplo, posso querer contar a história da Humanidade, mas só tenho duas horas para o fazer. Isso exige uma linguagem e um estilo de escrita que é muito diferente do romance.
Mas deve ser também um bom instrumento de trabalho. Um escritor apura a sua técnica com o teatro?
Sem dúvida. Enquanto que há grandes romancistas em Portugal desde o século XIX, quanto a dramaturgos… ficamos pelo Almeida Garret e depois…
(FO) … Mas isso é universal. Por cada cem escritores, romancistas, há, se calhar, cinco dramaturgos. É assim em qualquer parte.
Vivem em Sintra há cerca de trinta anos. Estão apaixonados por esta terra?
Sim, claro, foi uma boa escolha. A Filomena veio para cá dar aulas e eu nem dava aulas, na altura. Havia uma casa para alugar, ali na vila, e nós ficámos com ela. Agora vivemos nas Azenhas do Mar.
Sintra assume-se como a capital do romantismo. É assim que a Câmara Municipal “vende” a sua imagem e se procura que a vila seja conhecida lá fora. Está correcta esta ideia, este “cartaz” de Sintra como espaço romântico por excelência? Já Eça de Queiroz falava dela…
Sim, está correcta essa imagem. A vila de Sintra era uma espécie de local de veraneio dos reis e da nobreza e o último grito da ligação Lisboa a Sintra é justamente no romantismo. Há um casal, D. Fernando e a condessa d’Edla, que de certo modo se isolam na serra, fazem o palácio da Pena…
… curiosamente temos aí, nessa história de amor, algum paralelismo com a de Snu e Sá Carneiro. Há o romantismo da relação, ela também é estrangeira, não é bem aceite na corte, é olhada com desconfiança…
Exactamente. Justamente no momento em que a corte se afasta, também por causa disso, e vai para Cascais, também a aristocracia vai para Cascais. Sintra, por causa disso, entra em decadência. Portanto, o último grande grito social e histórico de Sintra é o romantismo. É nesse período que são feitos os palácios, o da Pena, sobretudo, é restaurado o Palácio da Vila Velha, são reavaliados Monserrate, Seteais. Para coroar tudo isto, há um escritor realisto-romântico, Eça, que empresta todo o seu talento a Sintra, através de personagens como o Alencar, entre outros. Sintra é, de facto, a capital do romantismo, por causa do seu grande património, e que se pode vender turisticamente e está correctíssimo. Acho que Sintra é a capital de Portugal por causa do seu espírito poético. Sintra não é herança árabe, não é a capital do renascimento, não tem uma arqueologia fabulosa… aquilo que faz o espírito de Sintra e que o romantismo captou muito bem é a fusão entre o céu, a serra, a montanha mineral da serra, e o mar. São estes três elementos, céu, serra e mar, fundidos, que dá às pessoas que aqui vivem o espírito de Sintra.
E que espírito é esse?
É um espírito, de certo modo, lírico, poético, romântico.
Richard Strauss disse que Sintra tinha o castelo do Santo Graal…
Ele era austríaco e conhecia os castelos da Baviera e da Áustria, claro, e chegou aqui e pensou, ao ver o Palácio da Pena, algo semelhante, na construção, aos palácios que o rei Luís da Baviera tinha edificado. O Santo Graal remete-nos para um sentido esotérico. D. Fernando II também plantou um conjunto de árvores fabulosas em Sintra, vindas de todo o mundo, e reflorestou a serra em geral. De facto deixou algumas marcas esotéricas no Palácio da Pena, mas eu não vejo Sintra como a capital do esoterismo. Mas há quem veja isso assim. Uma vez assisti a uma palestra do José Medeiros, precisamente no Palácio da Pena, em que ele explicita tudo o que vê através de elementos esotéricos. E outros vão no mesmo sentido. Mas o que eu tiro de Sintra não é o lado esotérico, de verdades ocultas, pois isso pressupõe Sintra como a guardiã de uma qualquer verdade. Sintra não tem nenhuma verdade. Sintra tem um espírito poético disseminativo entre as pessoas que aqui vivem, disponível para todos, não apenas para iniciados, para seitas que vão à noite queimar galos, vestidos de preto…
…mas também os há…
E ainda bem que os há. Faz parte do espírito de Sintra. Eles são atraídos pela serra, vão à procura da verdade do mundo, mas não vão encontrar. Esta serra, se fosse deslocada para o Minho, seria uma espécie de serra do Marão. Mas ninguém vai para o Marão, para Montesinho, para o Gerês, para encontrar verdades de carácter esotérico. Se quiser, Sintra tem um lado lírico e um lado metafísico. E há quem se entregue só a esse lado metafísico de procura de uma essência de Sintra, e até de Portugal e do mundo inteiro. Nós vemos a serra num aspecto lírico, poético, romântico, afectuoso.
Esse lado metafísico não vos atrai?
Não, nada. Não só não me atrai como não acredito que Sintra tenha uma verdade oculta. Acredito, isso sim, na poesia e na ficção, não em verdades ocultas. O lado esotérico, devido às liturgias, às pessoas que as praticam e aos rituais que são obrigados a seguir, não me atrai. Pelo contrário: até me repele um pouco, me afasta.
Vocês gostariam de poder fazer uma viagem no tempo até à Sintra do século XIX?
(FO) Nós fazemos isso todas as semanas, através do espectáculo “Os Maias”, que está em cena em Sintra, e através de todo o processo criativo relacionado com esse mesmo espectáculo que nos levou também até Seteais, vestidos à época, em que nos fez imaginar um encontro com Tomás de Alencar. Isso é que é extraordinário na Arte, pois permite-nos tudo, até viagens no tempo. De facto, tenho convivido com as personagens do século XIX e é possível recriar e sentir esse tempo.
Imagino o passeio até ao Lawrence…
(FO) À Lawrence, à Lawrence, como ele dizia.
… ou a viagem desde Lisboa, passando pela Amadora, a Porcalhota, onde se comiam ovos fritos com chouriço…
(FO) Isso, exactamente. Isso tudo está presente em Sintra. Muitas pessoas vêm a Sintra e sentem-se atraídos pela vila, desde os esotéricos até às pessoas que vêm fazer piqueniques à serra, ou que vêm namorar a Sintra, ou trazendo as suas crianças… E é maravilhoso. Como isso também se vê no próprio tempo. Sintra recebe as suas visitas com vários tempos, consegue-se sentir Gil Vicente na vila ou D. Fernando a passear no parque da Pena… Isso inspira, isso faz parte da nossa vida. Porque é que a nossa vida tem de ser só pagar contas, ou almoçar e jantar? Também são esses momentos em que na serra conseguimos sentir esse fio do tempo que é tão inspirador.
O Miguel nunca pensou escrever com base na figura da condessa d’Edla?
Por acaso já nos propuseram fazer uma peça de teatro…
Há diversos vestígios da presença da condessa nesta região. Em São Pedro do Estoril há ainda, embora restaurada e agora integrada num condomínio privado, a casa dela.
E há também a casa da rua de Santa Marta, onde ela morou. Obrigado pela inspiração. Talvez nasça um livro sobre ela, sim. Talvez, talvez.
(FO) Um dos projectos recentes de Sintra foi precisamente a recuperação do chalet da condessa, que embora ainda não esteja terminado, já abriu ao público. Lá está: é outro local onde podemos ir passear e assim fazermos uma viagem no tempo.
Sendo o Miguel Real, neste caso o Luis Martins, tão ligado às questões culturais e à própria história de Sintra, não gostaria de, um dia, aventurar-se na política para assumir o pelouro da cultura na câmara municipal?
Não, não. Não tenho vocação para isso. Não tenho vocação para ter uma actividade política seja de que tipo for. Até para defender o património. E sei perfeitamente quem deveria ser o vereador da cultura, ainda por cima…
Quem?
É o João Rodil, não sei se conhece. É a pessoa mais indicada para ser o vereador da cultura. Tem aí uns 50 anos, portanto tem muito tempo para o ser. Tenho esperança que, um dia, o João Rodil seja vereador da cultura de Sintra e ver-se-á então emergir um conjunto de valores ligados ao património, à literatura…
Já lhe disse isso?
Estou farto de lho dizer. Mas há outros, não é só o João. Há o Eugénio Montoito, também. Não tenho a mínima dúvida. Conhecem as pessoas, conhecem a terra, os saloios…
Sim, o mundo saloio é, só por si, um património cultural, humano, de tradições que precisa e merece ser preservado.
Ao contrário do cosmopolitismo que o Eça traz para Sintra, há um conjunto de valores colectivos, das famílias que importa preservar, há um inventário que importa fazer. Mas nem eu nem a Filomena, e nisso posso falar por ela, temos vocação para a política.
Mas a actividade política encerra em si muita nobreza. Sintra não é só a vila e a serra. É também um concelho enorme que teve uma explosão demográfica imensa e que precisa de ser visto com atenção. Veja-se o mundo que cresceu junto ao IC-19…
Sinto que nos últimos trinta anos, desde que conhecemos o concelho, que este mudou radicalmente. Não a vila, que está relativamente bem preservada, mas tudo o resto. Houve coisas que melhoraram imenso, os transportes, as redes viárias, a electricidade. Mas o património edificado, a parte do urbanismo a partir de Algueirão para baixo, isso piorou.
Sendo uma realidade tão díspar entre a Sintra vila e o resto do município, faria sentido dividi-lo em dois concelhos, até como forma de preservar melhor o património cultural?
Isso é uma ideia que tem vindo a ser falada. Julgo que terá possibilidade de ser aplicada num futuro próximo. Isso permitirá que o poder político se concentre na joia que é a vila, mas também em localidades como o Cacém ou Queluz, que têm grandes problemas e onde vivem milhares de pessoas. Penso que se caminhará para aí.
Em que livro está a trabalhar agora?
É um romance sobre a Índia, que estou a terminar por estes dias e que deverá sair em Setembro. Chama-se “O Feitiço da Índia”, é um nome ainda provisório, e conta a história do primeiro português a pisar solo da Índia, um degredado chamado José Martins, que foi na caravela de Vasco da Gama – isto é real – e que ficou tão apaixonado pela Índia que ficou por lá mesmo depois de ter obtido perdão real. O outro é o último português que foi para lá trabalhar nas minas, no tempo de Salazar. Ele vai para Goa gerir algumas minas e apaixona-se por aquela terra de tal maneira que não volta. Mas deixou cá um filho e esse filho, depois do 25 de Abril, resolve ir até à Índia à procura dele. Quando lá chega constata que ele já tinha morrido mas descobre que o pai tinha casado outra vez, agora à maneira indiana, e que tinha tido, desse casamento, uma filha. Eles conhecem-se. Posso ainda dizer que este português também não regressará. Por isso, o nome do livro. Esse é o feitiço da Índia.
Por curiosidade, vai haver alguma relação entre os dois filhos desse último português na Índia?
Vai, mas isso não posso dizer mais. É preciso ler o livro.

Entrevista publicada no Jornal de Sintra, edição 3930 de 6-4-2012, nas pág. 8, 9, 10

Leave a Reply