Bernardo de Brito e Cunha
Notícias, para variar
NO DIA EM QUE vos escrevo (última segunda-feira) houve duas notícias que eu já desesperara de ouvir. Apanhei-as logo no noticiário da hora do almoço. Vejamos então. Levanto os olhos para o televisor e dou de caras com o coronel Vasco Lourenço, presidente da Associação 25 de Abril, que lia um comunicado. Não era um comunicado qualquer: era, muito provavelmente, um momento que marca uma viragem histórica. Ora então a Associação vinha comunicar que se nega este ano a participar nas comemorações oficiais dos 38 anos da revolução. A decisão é fundamentada pelo antagonismo que considera existir entre a actual governação e o espírito de Abril. Não se ficou por isto: Vasco Lourenço explicou tudo muito bem explicadinho. E disse coisas que merecem ser citadas. Segundo o manifesto que se intitula “Abril não desarma”, os motivos para a ruptura entre os militares de Abril e as comemorações oficiais residem na natureza da governação actual: “O poder político que actualmente governa Portugal configura um outro ciclo político que está contra o 25 de Abril, os seus ideais e os seus valores. Em conformidade, a Associação 25 de Abril anuncia que não participará nos atos oficiais nacionais evocativos do 38.º aniversário do 25 de Abril.”
O MANIFESTO APONTAVA também vários sinais da subalternização do país no concerto europeu, e lembrava que “Portugal não tem sido respeitado entre iguais, na construção institucional comum, a União Europeia. Portugal é tratado com arrogância por poderes externos, o que os nossos governantes aceitam sem protesto e com a autossatisfação dos subservientes. O nosso estatuto real é hoje o de um “protetorado”, com dirigentes sem capacidade autónoma de decisão nos nossos destinos”. Quanto às soluções, a via apontada pela Associação é menos clara: os signatários do documento apelam, é certo, “ao povo português e a todas as suas expressões organizadas para que se mobilizem e ajam, em unidade patriótica, para salvar Portugal, a liberdade, a democracia” mas insistem na “importância da instituição militar, como recurso derradeiro nas encruzilhadas decisivas da História”.
E a resposta não se fez esperar: Mário Soares e Manuel Alegre já disseram que também não estarão presentes. E no programa “Prós e Contras”, dedicado aos 38 anos do 25 de Abril, um dos convidados, o Coronel Sousa e Castro, solicitado a comentar o comunicado da Associação disse, entre outras coisas, que “Um país com fome é a humilhação máxima para os capitães de Abril”. E disse-o, pareceu-me, com a ameaça de uma lágrima a ensombrar-lhe a voz e a fazer-lhe tremer o lábio inferior.
A SEGUNDA NOTÍCIA falava da GNR da Madeira, que efectuou hoje “diligências de busca e apreensão” no edifício onde funcionava a Secretaria do Equipamento Social da Madeira, a pedido do Departamento Central de Investigação Penal. Essa ação policial está relacionada com o inquérito-crime “Contas da Madeira”, instaurado em 28 de setembro de 2011, segundo um comunicado da Procuradoria-Geral da República que emitido hoje, ainda de manhã, logo a seguir às primeiras notícias sobre as buscas. As diligências criminais decorrerão durante toda a semana e que a GNR da Madeira foi o órgão de polícia criminal nomeado para a sua execução. Naquele prédio entraram também elementos da PJ e as comunicações com o exterior foram cortadas, conforme se viu. Tal como se viu Alberto João Jardim a rir-se da situação… É o que me farto de dizer aqui: vergonha é uma coisa que já é muito difícil de encontrar.
ATENÇÃO A QUEM se deixar ficar sintonizado na TVI, aí pelas duas horas da manhã. É que uma distração dessas habilita o incauto a ver mais um episódio da tenebrosa novela “Olhos de Água”, que eu julgava muito bem enterrada. Temos aí Sofia Alves no seu “melhor” e no papel das duas gémeas separadas (quase) à nascença. E, claro, um texto com a assinatura de Tozé Martinho. Foi há onze anos que a telenovela passou pela primeira vez e ainda hoje sofro, só de me lembrar.
HÁ 10 ANOS ESCREVIA
«Mas existem outras coisas na televisão. É certo que não são muitas, se excluirmos este “MasterPlan” (e as contínuas cenas de “peixeirada”) e a “Academia de Estrelas”: mas a verdade é que vai aparecendo uma coisa ou outra. E não me estou propriamente a referir a esta coisa que a gente não sabe já bem como qualificar. Na noite da última terça-feira, na SIC Radical, dou com um serviço noticioso que não vai além das quatro notícias. Chama-se “Nutícias” e o nome já diz tudo para quem entender as palavras. Trata-se de um serviço noticioso curto, mas que tem uma particularidade – teria que a ter. É que, ao mesmo tempo que vai debitando as notícias, a jovem Paula – julgo ser esse o seu nome – vai tirando as peças de roupa. É, pelo menos, invulgar – o que não quer necessariamente dizer que seja bom.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, página 7 da edição n.º 3933 de 27 de Abril de 2012

